notas & noções 9 (2ª série)

notas & noções 9 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração psíquica

»»»»» Acabei a última destas notas com a referência à longa vida poética das glosas à desintegração da matéria em geral, incluindo, claro, a matéria humana: “tudo o que existe tende a ser desintegrado”, escrevi. Não resulta difícil encontrar exemplos disso, associados ou não à temática amorosa, que tem sido, esta, a matéria mais tratada no lirismo. E a desintegração pode ser visada nas vertentes: física, a mais tradicionalmente corrente; e psíquica, mais modernamente recorrente.

»»»»» Encontro, na canção pop, um exemplo de alusões à desintegração psíquica em Born to die (Lana del Rey, 2012), alusões levadas a um terreno de explicitação não frequente no main stream da música pop-rock, mais dada a euforias ou a melancolias tipificadas. Mas é por meio de uma metáfora do corpo, dos pés que caminham, que surge a eventualidade da desintegração psíquica: “Pés, não me falhem agora. / Levem-me ao fim da linha. / Oh, o meu coração parte-se a cada passo / que dou.” E este “fim da linha” é partilhado com a pessoa amada, à qual se diz: “Escolhe as tuas últimas palavras. / Estes são os últimos tempos. / Porque tu e eu nascemos para / morrer.” A metáfora da caminhada, resolvendo-se acaso em alegoria representando o curso da vida, tem uma longa tradição em poesia, e sintetiza-se aqui nestes termos: “A estrada é longa, e aguentamos.”

»»»»» A desintegração psíquica aparece modalizada em sinais de dispersão (“Caminho ao longo das ruas da cidade, / será por engano ou desígnio?”); de insatisfação (“Algumas vezes o amor não basta e / a estrada torna-se árdua, / não sei porquê.”); de risco inerente à insatisfação (“Vem e dá um passeio no / lado selvagem.” E nestes tópicos ecoam canções de Lou Reed: o caminhar à deriva pelas ruas da cidade e a incursão pelo “lado selvagem” (“take a walk on the wild side”). Além deste eco, todas as imagens ressumam o estilo de vida norte-americano, tendência melancólica, e a memória cinematográfica, como em “Deixa-me beijar-te muito sob o / aguaceiro.”; ou em “Continua a fazer-me rir, vamos / pedrar-nos.”; ou ainda em “Sinto-me tão só numa Sexta / à noite.” Todo um repertório de situações comuns à vivência juvenil urbana.

»»»»» Nem tudo é perdição, no entanto: há este recurso salvífico: que o “fim da linha” seja partilhado com outro ser, cuja posse se reivindica: “Mas estou esperando frente aos portões, / que eles me digam que és meu.” Retenho esta imagem, “frente aos portões” (“at the gates”): portões que dão acesso a um mundo outro? ao além? Os “portões” instituem uma imagem forte, frequente nas alegorias religiosas e profanas. Lembro apenas os portões da alegoria kafkiana.

»»»»» E há outra salvação, que actua no presente: “agora me encontro” (“now I am found”); e encontra-se tendo vivido um satori, uma iluminação (sem embargo, de ressonâncias religiosas), essa mesma iluminação recorrente na música gospel da tradição afro-americana. Ela estava “tão confusa” (“I was so confused”) enquanto “criancinha” (“little child”), estava “cega” (“I was blind”), perdida, tentando agarrar o que podia, por temor de não encontrar todas as “respostas” (“answers”). Mas esta iluminação, neste contexto, reveste-se de conotações eróticas.

»»»»» E ainda outra salvação: a do omnipresente hedonismo-entretanto na nossa cultura: “Tentemos divertir-nos no entretanto.” (“Try to have fun in the meantime”). Hedonismo enraizado nas nossas agendas, mas persistentemente repreendido no discurso católico.

»»»»» Lana del Rey teve o talento, enquanto autora de lyrics, de reunir, num feixe alusivo, este complexo de tópicos intuitivamente entendíveis por um público urbano advertido. E com a evidência simples de não obliterar esse tabu da ocidentalidade padronizada, a morte. “Born to die”, diz ela.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução das quatro primeiras estrofes da letra da canção, as outras são constituídas por versos recorrentes;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado justamente Born to die.

 

 

 

»»»»» Nascidos para morrer

Pés, não me falhem agora.

Levem-me ao fim da linha.

Oh, o meu coração quebra-se a cada passo

que dou.

Mas estou esperando frente aos portões,

que eles me digam que és meu.

Caminho ao longo das ruas da cidade,

será por engano ou desígnio?

Sinto-me tão só numa Sexta

à noite.

Podes sentir-te confortável,

se eu te disser que és meu,

é o que eu digo, querido.

 

Não me faças triste, não me faças

chorar.

Algumas vezes o amor não basta e

a estrada torna-se árdua,

não sei porquê.

Continua a fazer-me rir, vamos

pedrar-nos.

A estrada é longa, e aguentamos.

Tentemos divertir-nos no entretanto.

 

Vem e dá um passeio no

lado selvagem.

Deixa-me beijar-te muito sob o

aguaceiro.

Tu estás pelas raparigas selvagens.

Escolhe as tuas últimas palavras.

Estes são os últimos tempos.

Porque tu e eu nascemos para

morrer.

 

Perdida, mas agora me encontro.

Já posso ver mas antes estava cega.

Eu estava tão confusa quando

criancinha.

Tentava agarrar o que podia

por temor de não encontrar

todas as respostas, querido.

 

Lana del Rey 1 001

 

 

António Sá

[09.04.2017/12.04.2017]

 

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