notas & noções 10 (2ª série)

notas & noções 10 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração física

»»»»» Na anterior destas notas, anotei a ameaça de desintegração psíquica numa canção de Lana del Rey, Born to die (2012), e derivei para os seus úteis, mas decerto juvenis, de algum modo pueris escapes. Escapes a uma eventual depressão? O ambiente da sua música envolve uma melancolia controlada, estilizada. Escapes a uma eventual depressão: este desagregador psíquico foi o motivo do telefonema de Lady Gaga ao Princípe William, ontem (18.04.2017) noticiado nas televisões.

»»»»» Numa canção da sua grande maturidade, Ready to begin again (Manya’s song) (1975), a cristalina Peggy Lee desenvolve uma espécie de renascimento, numa simbiose psico-física, contrariando a ameaça da progressiva ruína física. Esse renascimento consiste em sentir os dentes e o cabelo como se fossem os seus próprios dentes e cabelo; e a partir daí, munir-se dos seus adereços, caracteristicamente glamorosos e, assim equipada, acreditar-se “fresca e luminosa” (“fresh and bright”).

»»»»» Mas o lento acordar da canção, no seu moroso início, choca o auditório com imagens de um corpo já em despossessão de si mesmo: “Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama, / e o meu cabelo pende algures num cabide” (“When my teeth are at rest in the glass by my bed, / and my hair lies somewhere in a drawer”). Se o início da melodia é moroso, como um despertar em depressão para o mundo, logo o ritmo se vai animando, ganha uma velocidade que evoca Jacques Brel e até uma diluída ressonância circense, como se enfim o corpo, ferido pelo tempo, mas por ele adestrado, se oferecesse mais uma vez ao circo da existência social.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução para português das estrofes, uma pontuação normalizada da versão original;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado Mirrors.

 

»»»»» Pronta para começar de novo (canção de Manya)

Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama,

e o meu cabelo pende algures num cabide,

aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

já não um lugar agradável.

 

Mas eu tiro os meus dentes do copo junto à cama,

e o meu cabelo de um cabide à entrada,

ainda aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

não de todo um lugar agradável.

 

Mas eu ponho os meus dentes e ponho o cabelo,

e uma coisa estranha ocorre quando os ponho,

porque os dentes começam a sentir como meus próprios dentes,

e o cabelo como meu próprio também.

 

E estou pronta para começar de novo,

pronta para começar de novo,

a caminho do romance,

o coração cheio de esperança,

de novo, de novo.

 

Estou pronta para começar de novo,

sentindo como se estivesse a começar.

Agora não receio

subir as persianas

e encarar o sol.

 

Ponho as minhas braceletes e broches,

meus anéis e pérolas e grampos,

e enquanto o novo dia se aproxima,

enquanto o novo dia começa…

 

Estou pronta para começar de novo,

parecendo fresca e luminosa eu confio.

Pronta para começar de novo,

como toda a gente tem de estar.

 

 

 

 Ready to begin again (Manya’s song)

When my teeth are at rest in the glass by my bed,

and my hair lies somewhere in a drawer,

then the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place anymore.

 

But I take out my teeth from the glass by my bed,

and my hair from a drawer in the hall,

still the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place at all.

 

But I put in my teeth and I put on my hair,

and a strange thing occurs when I do,

for my teeth start to feel like my very own teeth,

and my hair like my very own too.

 

And I’m ready to begin again,

ready to begin again,

I’m reaching for the soap,

my heart is full of hope,

again, again.

 

I’m ready to begin again,

feeling like I’ve just begun.

Now I’m not afraid

to raise the window shade

and face the sun.

 

I put on my bracelets and brooches,

my rings and my pearls and my pins,

and as the new day approaches,

as the new day begins…

 

I’m ready to begin again,

looking fresh and bright I trust.

Ready to begin again,

as every body must.

 

Peggy Lee 1 001

 

 

»»»»» NOTA:

»»»»» De Lana del Rey foi utilizado o CD Born to die, Polydor (UK) / Interscope Records (USA), 2012; de Peggy Lee, o CD Mirrors, A&M Records, Hollywood, 1975.

 

 

António Sá

[19.04.2017]

 

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