Monthly Archives: May 2017

Imaginação 6 [Toldos futuros]

Imaginação / 6 [Toldos futuros]

 

»»»»» 1. Toldos de protecção contra detritos espaciais em grandes zonas de circulação no centro urbano. [2003]

»»»»» 2. Ultrapòshistóricos toldos de cimento armado, com a forma de gigantescas antas, instalados sobre os prédios e as zonas de circulação dos centros urbanos, protegem os cidadãos dos detritos espaciais. [20.05.2017]

detritos 1 001

 

»»»»» NOTA: isto foi um sonho antigo, mas pode ser uma medida útil a longo prazo, quando algum transtorno cósmico produzir apreciável e cadente lixo espacial…

 

António Sá

[2003 / 20.05.2017]

 

notas & noções 11 (2ª série)

notas & noções 11 (2ª série)

 

a perda material e a “doença penosa”

»»»»» Muito linearmente, o poeta Mimnermo (século VII a. C.) explica o nosso destino enquanto “folhas”:

Como folhas nascidas na estação florida

da primavera, quando subitamente brotam aos raios do sol,

assim nós, semelhantes a elas, por breve tempo gozamos

as flores da juventude, sem conhecer dos deuses

nem o mal nem o bem. Mas as negras Keres aproximam-se,

uma trazendo consigo a funesta velhice,

a outra a morte. Um instante dura o fruto

da juventude, enquanto o sol se derrama sobre a terra.

Mas quando chega o fim da estação,

melhor é logo estar morto do que vivo.

Muitos males nos brotam no coração: a um é a casa

que rui, e sobrevêm os duros trabalhos da pobreza,

outro não tem filhos e, sentindo a sua falta,

encaminha-se para o Hades, debaixo da terra,

outro tem uma doença penosa. Não há homem

a quem Zeus não dê muitos males.

 

»»»»» Após uma introdução primaveril, a meio do quinto verso acontece uma clivagem: “Mas as negras Keres aproximam-se (…)”. Este corte conduz o leitor à perspectiva iminente da velhice e da morte, anunciadas por estas divindades, as Keres, “uma trazendo consigo a funesta velhice, / a outra a morte.” As Keres são divindades aladas, tal como as representam os artesãos dos vasos gregos, e desencadeiam processos de aniquilação rápidos, por isso surgem nos campos de batalha; assim a passagem da juventude à velhice seria percepcionada como um processo muito rápido, tal como a ocorrência da morte.

Imagem relacionada

»»»»» Neste contexto de desastre, há uma proposição em absoluto concludente quanto ao inescapável da morte: “melhor é logo estar morto do que vivo”. Isto, quando a doença e a ruína do corpo tornam insustentável a vida. E uma conclusão sumariamente condenatória quanto à condição humana: “Não há homem / a quem Zeus não dê muitos males.”

»»»»» Enquanto na canção de Lana del Rey (v. notas & noções 9) pus o foco na desintegração psíquica, e na de Peggy Lee (v. notas & noções 10) na desintegração física, neste poema que vem do século VII anterior à era cristã, o foco incide na adveniente pobreza e no desamparo humano, mas também na decadência física: a “doença penosa”.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Para quem não conheça a mitologia grega, acrescento, além da explicação dada sobre as Keres, que Hades pode ser entendido como o lugar que os mortos vão habitar depois da vida; e Zeus é o deus grego situado acima dos outros deuses, na hierarquia das divindades.

»»»»» 2. O fragmento de Mimnermo foi colhido na Antologia da poesia grega clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins [a partir das antologias francesas de Robert Brasillac (1964) e de Marguerite Yourcenar (1981)], Portugália Editora, 2009.

 

 

 

 

António Sá

[07.04.2017/13.05.2017]

 

ETIQUETAS: 1) Mimnermo; 2) Peggy Lee; 3) Lana del Rey; 4) Keres.

 

Duas breves notas a propósito de sofrimento e de escândalo

Duas breves notas a propósito de sofrimento e de escândalo

 

»»»»» Breves notas estas, que servem para estabelecer-esclarecer dois aspectos não referidos em dois textos anteriores insertos neste sítio. Textos esses que foram A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético, seguido de A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice, focando um e outro diferentes aspectos do filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954). E são duas estas breves notas:

»»»»» 1ª) No final, quando as duas protagonistas, mãe e filha, se reconciliam e conversam sobre as desilusões amorosas, tendo vivido ambas uma desilusão com o mesmo homem (o jovem médico do sindicato das gueixas), a mãe, Madame da casa de gueixas, considera, em modo de balanço final, que o sofrimento é comum aos humanos no curso da vida. E decerto Schopenhauer assinaria por baixo este postulado: o sofrimento enquanto uma constante da vida humana.

»»»»» 2ª) Em conversa com o seu pretendente-de-longa-data, que persiste em propor-lhe casamento, a Madame, empresária da casa de gueixas, e em comentário lateral à “comédia” Nô que satirizava uma “velha” apaixonada por um jovem, confessa, com algo de surpresa no rosto, que nunca se considerara uma mulher “escandalosa” (termo usado na “comédia”) pelo facto de estar apaixonada, e perspectivar casar-se com o jovem médico do sindicato das gueixas. O escândalo afigura-se aqui um modo-de-ver alheio, exterior, decorrente de um duplo preconceito: sexista e etário.

 

 

 

António Sá

[07.05.2017/08.05.2017]

 

A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice

A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice

 

»»»»» Num diálogo Nô metaforiza-se a vida, aproximando o seu curso ao da gota de orvalho numa folha, similares pela inconsistência e a brevidade. É o tipo de reflexão — sobre a fragilidade e a brevidade da vida humana — que ocorre em poesia e no teatro, pelo menos desde os gregos de épocas mais remotas, até à mais decorrente contemporaneidade. O orvalho é frágil, não resiste à secura do ar diurno, ou a qualquer toque de insecto ou ave: numa outra escala, também o corpo humano não resiste a um ambiente viral deletério ou a qualquer acidente mais desafortunado. No mesmo diálogo, onde se fala de um amor impossível, surge ainda outra metáfora afim: o reflexo da luz dos pirilampos nas águas de um pântano — e esta metáfora acrescenta à anterior o sentimento da ilusão, sentimento que só algum tempo de vida e alguma reflexão sobre as etapas da mesma permitem experimentar. Esta reflexão, nas mais diversas inflexões e modalidades, é diferentemente integrada ou interiorizada pelos humanos, conforme as suas sensibilidades e capacidades reflexivas; e as suas idades e consequentes percursos de vida. Em geral os organismos jovens estão dotados, pela natureza e pelos ambientes culturais, de uma concha protectora — entendem a ideia apenas enquanto ideia, coisa exterior ao seu corpo, coisa abstracta.

»»»»» Esta breve sequência de teatro Nô é uma das três que acontecem no filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954), filme em relação ao qual fiz uma abordagem parcial no texto A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético, inserto neste sítio, e no qual referia uma outra sequência teatral: aquela em que se satiriza rudemente a paixão serôdia de uma mulher idosa. “A velha perguntou-te como era estar apaixonado”, diz um dos comediantes masculinos, e responde-lhe o outro: “Sou demasiado novo para saber”. É uma “comédia” que não é representada há vinte anos: classificação de género e informação proporcionadas pelas conversas dos espectadores num intervalo. Visualmente sublinha-se, na personagem da velha, a postura alquebrada, com um simbólico ramo de espinheiro ao ombro e de máscara-teatral hedionda. Ela “melhor exprime as queixas que as paixões”; e os dois actores, que a comentam escarninhamente, alongam-se na enunciação da luta insone da velha com a almofada, consideram quão “escandalosa” é a sua “loucura”, ou seja, a paixão com a qual se debate. Tal crueldade, hoje parcialmente fora-de-moda, exceptuando algum pimpão deputado-trilobite defensor do genocídio dos idosos, era corrente no entremez e na lírica medievais (“dona fea, velha e sandia!”, cantava o trovador Johan Garcia de Guilhade); e ainda, em época renascentista, na figura grotesca do apaixonado, que Gil Vicente centra na farsa O velho da horta (1512); e ainda, em época napoleónica, na gravura de Goya que retrata uma figura feminina decadente a alindar-se ao espelho; e ainda… etc.

Artesão de máscaras de Nô: tradição secular.

»»»»» O outro fragmento de teatro Nô, que é aliás o primeiro que ocorre no filme, tem como cenário um grosso tronco de árvore, com ramagens pletóricas de folhas brancas, que vão caindo como neve esparsa, e uma actriz de quimono expõe um enredo volátil: as cordas caíram e libertaram-na, estaria portanto amarrada, um rato teria roído as cordas que a atavam; depois refere que uma tempestade leva as folhas, e estas caem sobre as águas atraentes do rio Kamo. Pela capa do programa, o espectador sabe que a peça se intitula justamente As águas do rio Kamo.

»»»»» Este é um filme que entra no género do geido mono, ous eja, o filme sobre outras artes, neste caso as artes teatral e musical: em teatro Nô, a música sincopada e percutiva pontua as involuções e evoluções da acção. É também musical pela coreografia espontânea das gueixas, vestidas como para uma performance, em circunvoluções, no seu passo curto, à volta dos grupos de clientes embriagados, trôpegos, grotescos, e os cânticos ébrios destes.

 

António Sá

[03.05.2017/07.05.2017]