Monthly Archives: June 2017

Visigothorum I

Visigothorum I

 

sobre os espectáculos públicos

»»»»» O objectivo das duas notas que seguem é o de sublinhar, e descontraidamente expandir em breves comentários laterais, o que escreveu o historiador espanhol Luis A. García Moreno sobre os espectáculos públicos entre os visigodos na Ibéria. No final, transcrevo o parágrafo a que fiz recurso, traduzindo-o para português, e até com vírgulas portuguesas que não existem no original; e acrescento a referência bibliográfica.

 

File:Quintanilla de las Vinas Ermita Santa Maria PM 73345 E.jpg

Baixo-relevo visigodo, Ermida de Santa Maria, Quintanilla de las Viñas (Burgos)

»»»»» 1. Em princípios do século V d.C., a pressão eclesiástica era suficientemente forte para conseguir suprimir os ludi gladiatorum (“jogos dos gladiadores”), que eram as lutas entre gladiadores, nas arenas romanas, e que, em geral, terminavam na morte de um deles, excepto se o público e o imperador se inclinassem para poupar a vida do gladiador derrubado. Em relação à figura do gladiador, o poeta Cesário Verde dedicou-lhe uma quadra, onde estabelece a seguinte comparação: se a amada o envolver com os rolos dos longos cabelos, ele ganhará o mesmo vigor que ganhava o gladiador ao untar (“ungir”) o corpo com um óleo (para lubrificar os músculos). Eis os versos:

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos                              

Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor

Que antigamente deu, nos circos dos Romanos,

Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.

 

»»»»» 2. Actualmente, há movimentos na Ibéria (Espanha e Portugal) que concorrem para suprimir as touradas, em nome da defesa de direitos dos animais, mas são movimentos cívicos, não dependentes de instâncias religiosas. E se, entre os visigodos, a pressão eclesiástica conseguiu suprimir as lutas de gladiadores, o mesmo não aconteceu com outros espectáculos sangrentos, absolutamente indiferentes a direitos dos animais, direitos estes que não estavam inscritos nos parâmetros mentais da época: era o caso dos venatoria, ou seja, “a caça de feras no anfiteatro” (na formulação de García Moreno). Além do mais, no início do século VII d. C., o metropolitano Eusébio era um aficionado de tais espectáculos de caça, além do seu mais plausível e tranquilo apreço pelos espectáculos teatrais. Mas estes gostos de Eusébio, metropolitano de Tarragona, e um metropolitano é um bispo de uma arquidiocese, tendo outros bispos sob sua alçada; estes gostos de Eusébio constituem o que as hierarquias católicas actuais classificariam de gostos mundanos, colidindo com a ascese de um homem que devotou a vida à Igreja de Cristo. Em conclusão: eram outros valores, outras eras…

»»»»» Segue o texto, traduzido, de García Moreno:

»»»»» “Maiores problemas colocam as antigas edificações destinadas à oferta de espectáculos públicos. Isto em grande medida como consequência da diversidade destes últimos. A pressão eclesiástica, inimiga em geral de todos eles, teria logrado a supressão, em princípios do século V, dos ludi gladiatorum, porém não teria conseguido o mesmo para os espectáculos teatrais, principalmente de mimos, a caça de feras no anfiteatro e as corridas de carros no circo. Testemunhos legais visigodos permitiriam assim falar da permanência geral das corridas nas cidades ibéricas desta época, pelo menos nas mais importantes — como Mérida e Saragoça — e até ao século VI. Para os primeiros decénios do século VII, conhecemos a afeição de Eusébio, metropolitano de Tarragona, pelos espectáculos teatrais e os sangrentos venatoria. Coisa distinta é se forçosamente estes espectáculos continuavam a realizar-se nos seus antigos edifícios especializados, herdados de tempos romanos.”

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. O texto de Luis A. García Moreno consta do artigo “La ciudad visigoda”, incluído em A cidade, jornadas inter e pluridisciplinares (Actas I), Universidade Aberta, 1993.

»»»»» 2. Para a quadra de Cesário Verde, que integra o poema Meridional, utilizou-se a Obra Completa de Cesário Verde organizada, prefaciada e anotada por Joel Serrão, Portugália Editora, 3ª edição, s/d [1ª ed., 1963].

 

 

António Sá

[17.06.2017/29.06.2017]

 

 

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Flash 8

Flash / 8

 

»»»»» The order of the universe lies underseas, in a coffer, in the depths of a valley. Oh ! How green was my valley that never was! It lies there, in the depths of a valley undersea, swallowed by a pulp.

»»»»» L’ordre de l’univers, où gît-il ? — Sous la mer. C’est l’ordre sous-marin. Il est là, dans un coffret écrasé par un sous-marin. The order lies there, in the depths of the sea, smashed by a submarine, a yellow submarine.

»»»»» Donde la orden del mundo? Donde la liberdad del pueblo?

»»»»» No fundo, a ordem do mundo pára lá, bem no fundo submarino, lá onde habitam os grandes submarinos. É lá a sua morada, no lugar onde jaz a máquina do mundo, em miniatura, num cofre, um pequeno cofre que se tem na palma da mão: l’ordre de l’univers dans le creux de la main: a coffer in the palm of your hand.

 

»»»»» [Clues: o título do filme de John Ford, How green was my valley!; a canção dos Beatles, The yellow submarine; a noção camoniana de “máquina do mundo” (Os lusíadas, canto X, estrofe 80 e seguintes).]

 

António Sá

[24.06.2017]

 

Camões compara-se a outro

Camões compara-se a outro

 

»»»»» Foi assim. O fidalgo José Lopes, vivendo jovem nos meados do século XVI, foi proibido de entrar numa casa onde decorria uma festa galante, como castigo por ter estado a espreitar as jovens que aí habitavam. Este é o antecedente “criminal” desta pequena história. Camões pôde entrar na festa, embora fosse de “baixo estado”, ou seja, socialmente inferior ao dito fidalgo. E deduz que este gostaria de ter trocado com ele, de modo a ter estado na festa, porque aí Camões conversou com a excelente rapariga que era a amada de João Lopes e, ao ouvi-la, ficou rendido à suavidade e às palavras extraordinárias da moça. Mas, apesar disso, não pôde aspirar a ela, por ser socialmente inferior. Enfim, esta é a versão que o poeta nos conta no soneto “Senhor João Lopes, o meu baixo estado”. Lamento por ele, a cerca de cinco séculos de distância.

»»»»» Vejamos, um por um, os três intervenientes deste caso:

»»»»» 1. João Lopes suscita inveja ao poeta, visto que, por hipérbole, suscita “enveja a toda a gente”, seguramente pelas suas qualidades e pelo seu “estado”, a sua categoria social; além disso, ele está enamorado pela rapariga que o fez experimentar os altos e os baixos do amor, ela fê-lo sentir-se, por antítese, “contente e descontente”. João Lopes Leitão era amigo de Camões, na Índia.

»»»»» 2. Da jovem não saberemos o nome, resta-nos um retrato dentro dos padrões convencionais de retrato da bem-nascida: tem um “gesto (= rosto) suave e delicado”; a sua fala expande-se “tão docemente” que, por hipérbole, torna “o ar sereno e sossegado”; além de falar assim, o que diz é extraordinário, “em poucas palavras” ela diz “quanto / ninguém diria em muitas”, outra bela hipérbole.

»»»»» 3. Quanto ao terceiro vértice deste triângulo, o poeta, conhecemos que socialmente se considera de “baixo estado”, o que o deixa em perda na comparação ou competição com o fidalgo; e sabemos que fica “cego”, ou seja, tomado de um amor-imediato em presença das perfeições da jovem, mas fica “magoado” ouvindo a “doce fala”, porque tem de abdicar desse amor-à-primeira-vista. Assim, ele maldiz a “Fortuna”, porque “desiguala” os “estados”, as posições sociais; e maldiz o “Moço cego”, ou seja, o menino-deus do amor, Cupido, porque “os corações obriga”, ou seja, instala o amor nos corações humanos.

 

»»»»» Segue-se a história, contada pelo próprio Camões:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado,

que já vos fez contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

»»»»» Nota:

»»»»» Para a transcrição do soneto, utilizei a edição das Rimas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Atlântida Editora, Coimbra, 1973. Segui a lição aí constante, excepto em algumas vírgulas, cuja posição me atrevi a corrigir. Por essa razão, e para quem queira cotejar, transcrevo fielmente a lição do erudito, com as vírgulas no lugar onde ele as pôs:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado

que já vos fez, contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer, quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna, e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

 

 

 

António Sá

[10.06.2017]

 

Desatino 75

Desatino / 75 [Mal inda não estou a sentir-me]    

 

»»»»» No final dos treinos de jogging, costumo parar num pequeno jardim num bairro residencial, onde ainda sobrevivem dois daqueles belíssimos bancos-de-jardim feitos de traves de madeira pintada de um belo verde-garrafa, bancos impiedosamente condenados à morte pelas muitas e desvairadas redesqualificações  dos espaços urbanos. Sirvo-me de um desses bancos condenados para fazer alongamentos de pernas; para alongar os braços, apoio as mãos num tronco de árvore. Estava num desses alongamentos de braços, quando vi vir pelo passeio uma senhora já sénior, pequena, com a sua malinha, aspecto e vestuário típicos da população da província que, ao longo do século passado, se veio instalar na cidade. Preocupada e solícita, vendo-me esticar um braço com a mão apoiada na árvore, e gemer pelo músculo, ela abordou-me:

»»»»» — Está a sentir-se mal?

 

António Sá

[05.06.2017]

 

Três mal talhados

Três mal talhados

 

»»»»» Como se instituísse um concurso de beleza masculina ao contrário, ou seja, um concurso de fealdade, o escudeiro Afonso Anes do Coton começa por pôr-se a si mesmo em concurso: considera-se um exemplar masculino “mal talhado”. O “talhe” é o modo como o corpo humano está esculpido, tanto por obra da natureza quanto por trabalho físico. Na lírica galego-portuguesa do século XIII, abunda a figura da “bem talhada”, sobretudo nas cantigas de amigo, sendo incomum a referência no masculino. Assim, só no contexto do escárnio, trata-se aqui de uma cantiga de escárnio, se entende o recurso ao retrato masculino e, bem entendido, retrato negativo: o homem “mal talhado”. Como registei a princípio, o escudeiro começa, muito saudavelmente, por pôr-se a si mesmo em concurso; e logo a seguir alinha o “mouro” Joan Fernández: são ele e este “mouro” igualmente “mal talhados”. A estocada maldosa está no seguinte alinhamento: Pero da Ponte, esse, é muito pior talhado (“moi peor talhado”), ou seja, não bastando ser pior, ele é comparativamente muito pior. E a maldade do escudeiro sublima-se com a visão sugerida de um “Pero da Ponte en cós”, visão decerto dantesca de um corpo mal feito e exposto numa quase nudez (“en cós”). A expressão “en cós” significa “em trajos menores”, enfim, em roupa interior.

»»»» Desta cantiga assim escarninha só se conhece uma estrofe, e diz o seguinte, traduzindo em prosa: “A mim situam-me, e não é descabido, / entre os mal talhados (= os mal feitos de corpo), e não erram nisso; / Joan Fernández, o mouro, igualmente / entre os mal talhados o vejo contado; / e, pois que mal talhados somos nós, / se alguém visse Pero da Ponte en cós (= em roupa interior), / parecer-lhe-ia muito pior talhado.”

»»»»» Transcrevo adiante o saboroso texto original:

 

A min dan preç’, e non é desguisado,

dos mal talhados, e non erran i;

Joan Fernández, o mour’, outrossi

nos mal talhados o vejo contado;

e, pero mal talhados somos nós,

s’omen visse Pero da Ponte en cós,

semelhar-lh’-ia moi peor talhado.

 

»»»»» Pero da Ponte era um escudeiro trovador contemporâneo de Afonso Anes do Coton, sendo este, também escudeiro, um trovador activo em meados do século XIII: terá participado no cerco ao castelo mouro de Jaén em 1246.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição de Manuel Rodrigues Lapa em Cantigas d’escarnho e de mal dizer (2ª ed., Editorial Galáxia, 1970); colheram-se informações sobre o trovador nas obras Depois do espectáculo trovadoresco (António Resende de Oliveira, Edições Colibri, Lisboa, 1994) e Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, Lisboa, 1993).]

 

António Sá

[22.05.2017 / 02.06.2017]