Monthly Archives: June 2017

Camões compara-se a outro

Camões compara-se a outro

 

»»»»» Foi assim. O fidalgo José Lopes, vivendo jovem nos meados do século XVI, foi proibido de entrar numa casa onde decorria uma festa galante, como castigo por ter estado a espreitar as jovens que aí habitavam. Este é o antecedente “criminal” desta pequena história. Camões pôde entrar na festa, embora fosse de “baixo estado”, ou seja, socialmente inferior ao dito fidalgo. E deduz que este gostaria de ter trocado com ele, de modo a ter estado na festa, porque aí Camões conversou com a excelente rapariga que era a amada de João Lopes e, ao ouvi-la, ficou rendido à suavidade e às palavras extraordinárias da moça. Mas, apesar disso, não pôde aspirar a ela, por ser socialmente inferior. Enfim, esta é a versão que o poeta nos conta no soneto “Senhor João Lopes, o meu baixo estado”. Lamento por ele, a cerca de cinco séculos de distância.

»»»»» Vejamos, um por um, os três intervenientes deste caso:

»»»»» 1. João Lopes suscita inveja ao poeta, visto que, por hipérbole, suscita “enveja a toda a gente”, seguramente pelas suas qualidades e pelo seu “estado”, a sua categoria social; além disso, ele está enamorado pela rapariga que o fez experimentar os altos e os baixos do amor, ela fê-lo sentir-se, por antítese, “contente e descontente”. João Lopes Leitão era amigo de Camões, na Índia.

»»»»» 2. Da jovem não saberemos o nome, resta-nos um retrato dentro dos padrões convencionais de retrato da bem-nascida: tem um “gesto (= rosto) suave e delicado”; a sua fala expande-se “tão docemente” que, por hipérbole, torna “o ar sereno e sossegado”; além de falar assim, o que diz é extraordinário, “em poucas palavras” ela diz “quanto / ninguém diria em muitas”, outra bela hipérbole.

»»»»» 3. Quanto ao terceiro vértice deste triângulo, o poeta, conhecemos que socialmente se considera de “baixo estado”, o que o deixa em perda na comparação ou competição com o fidalgo; e sabemos que fica “cego”, ou seja, tomado de um amor-imediato em presença das perfeições da jovem, mas fica “magoado” ouvindo a “doce fala”, porque tem de abdicar desse amor-à-primeira-vista. Assim, ele maldiz a “Fortuna”, porque “desiguala” os “estados”, as posições sociais; e maldiz o “Moço cego”, ou seja, o menino-deus do amor, Cupido, porque “os corações obriga”, ou seja, instala o amor nos corações humanos.

 

»»»»» Segue-se a história, contada pelo próprio Camões:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado,

que já vos fez contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

»»»»» Nota:

»»»»» Para a transcrição do soneto, utilizei a edição das Rimas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Atlântida Editora, Coimbra, 1973. Segui a lição aí constante, excepto em algumas vírgulas, cuja posição me atrevi a corrigir. Por essa razão, e para quem queira cotejar, transcrevo fielmente a lição do erudito, com as vírgulas no lugar onde ele as pôs:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado

que já vos fez, contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer, quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna, e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

 

 

 

António Sá

[10.06.2017]

 

Desatino 75

Desatino / 75 [Mal inda não estou a sentir-me]    

 

»»»»» No final dos treinos de jogging, costumo parar num pequeno jardim num bairro residencial, onde ainda sobrevivem dois daqueles belíssimos bancos-de-jardim feitos de traves de madeira pintada de um belo verde-garrafa, bancos impiedosamente condenados à morte pelas muitas e desvairadas redesqualificações  dos espaços urbanos. Sirvo-me de um desses bancos condenados para fazer alongamentos de pernas; para alongar os braços, apoio as mãos num tronco de árvore. Estava num desses alongamentos de braços, quando vi vir pelo passeio uma senhora já sénior, pequena, com a sua malinha, aspecto e vestuário típicos da população da província que, ao longo do século passado, se veio instalar na cidade. Preocupada e solícita, vendo-me esticar um braço com a mão apoiada na árvore, e gemer pelo músculo, ela abordou-me:

»»»»» — Está a sentir-se mal?

 

António Sá

[05.06.2017]

 

Três mal talhados

Três mal talhados

 

»»»»» Como se instituísse um concurso de beleza masculina ao contrário, ou seja, um concurso de fealdade, o escudeiro Afonso Anes do Coton começa por pôr-se a si mesmo em concurso: considera-se um exemplar masculino “mal talhado”. O “talhe” é o modo como o corpo humano está esculpido, tanto por obra da natureza quanto por trabalho físico. Na lírica galego-portuguesa do século XIII, abunda a figura da “bem talhada”, sobretudo nas cantigas de amigo, sendo incomum a referência no masculino. Assim, só no contexto do escárnio, trata-se aqui de uma cantiga de escárnio, se entende o recurso ao retrato masculino e, bem entendido, retrato negativo: o homem “mal talhado”. Como registei a princípio, o escudeiro começa, muito saudavelmente, por pôr-se a si mesmo em concurso; e logo a seguir alinha o “mouro” Joan Fernández: são ele e este “mouro” igualmente “mal talhados”. A estocada maldosa está no seguinte alinhamento: Pero da Ponte, esse, é muito pior talhado (“moi peor talhado”), ou seja, não bastando ser pior, ele é comparativamente muito pior. E a maldade do escudeiro sublima-se com a visão sugerida de um “Pero da Ponte en cós”, visão decerto dantesca de um corpo mal feito e exposto numa quase nudez (“en cós”). A expressão “en cós” significa “em trajos menores”, enfim, em roupa interior.

»»»» Desta cantiga assim escarninha só se conhece uma estrofe, e diz o seguinte, traduzindo em prosa: “A mim situam-me, e não é descabido, / entre os mal talhados (= os mal feitos de corpo), e não erram nisso; / Joan Fernández, o mouro, igualmente / entre os mal talhados o vejo contado; / e, pois que mal talhados somos nós, / se alguém visse Pero da Ponte en cós (= em roupa interior), / parecer-lhe-ia muito pior talhado.”

»»»»» Transcrevo adiante o saboroso texto original:

 

A min dan preç’, e non é desguisado,

dos mal talhados, e non erran i;

Joan Fernández, o mour’, outrossi

nos mal talhados o vejo contado;

e, pero mal talhados somos nós,

s’omen visse Pero da Ponte en cós,

semelhar-lh’-ia moi peor talhado.

 

»»»»» Pero da Ponte era um escudeiro trovador contemporâneo de Afonso Anes do Coton, sendo este, também escudeiro, um trovador activo em meados do século XIII: terá participado no cerco ao castelo mouro de Jaén em 1246.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição de Manuel Rodrigues Lapa em Cantigas d’escarnho e de mal dizer (2ª ed., Editorial Galáxia, 1970); colheram-se informações sobre o trovador nas obras Depois do espectáculo trovadoresco (António Resende de Oliveira, Edições Colibri, Lisboa, 1994) e Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, Lisboa, 1993).]

 

António Sá

[22.05.2017 / 02.06.2017]