Visigothorum I

Visigothorum I

 

sobre os espectáculos públicos

»»»»» O objectivo das duas notas que seguem é o de sublinhar, e descontraidamente expandir em breves comentários laterais, o que escreveu o historiador espanhol Luis A. García Moreno sobre os espectáculos públicos entre os visigodos na Ibéria. No final, transcrevo o parágrafo a que fiz recurso, traduzindo-o para português, e até com vírgulas portuguesas que não existem no original; e acrescento a referência bibliográfica.

 

File:Quintanilla de las Vinas Ermita Santa Maria PM 73345 E.jpg

Baixo-relevo visigodo, Ermida de Santa Maria, Quintanilla de las Viñas (Burgos)

»»»»» 1. Em princípios do século V d.C., a pressão eclesiástica era suficientemente forte para conseguir suprimir os ludi gladiatorum (“jogos dos gladiadores”), que eram as lutas entre gladiadores, nas arenas romanas, e que, em geral, terminavam na morte de um deles, excepto se o público e o imperador se inclinassem para poupar a vida do gladiador derrubado. Em relação à figura do gladiador, o poeta Cesário Verde dedicou-lhe uma quadra, onde estabelece a seguinte comparação: se a amada o envolver com os rolos dos longos cabelos, ele ganhará o mesmo vigor que ganhava o gladiador ao untar (“ungir”) o corpo com um óleo (para lubrificar os músculos). Eis os versos:

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos                              

Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor

Que antigamente deu, nos circos dos Romanos,

Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.

 

»»»»» 2. Actualmente, há movimentos na Ibéria (Espanha e Portugal) que concorrem para suprimir as touradas, em nome da defesa de direitos dos animais, mas são movimentos cívicos, não dependentes de instâncias religiosas. E se, entre os visigodos, a pressão eclesiástica conseguiu suprimir as lutas de gladiadores, o mesmo não aconteceu com outros espectáculos sangrentos, absolutamente indiferentes a direitos dos animais, direitos estes que não estavam inscritos nos parâmetros mentais da época: era o caso dos venatoria, ou seja, “a caça de feras no anfiteatro” (na formulação de García Moreno). Além do mais, no início do século VII d. C., o metropolitano Eusébio era um aficionado de tais espectáculos de caça, além do seu mais plausível e tranquilo apreço pelos espectáculos teatrais. Mas estes gostos de Eusébio, metropolitano de Tarragona, e um metropolitano é um bispo de uma arquidiocese, tendo outros bispos sob sua alçada; estes gostos de Eusébio constituem o que as hierarquias católicas actuais classificariam de gostos mundanos, colidindo com a ascese de um homem que devotou a vida à Igreja de Cristo. Em conclusão: eram outros valores, outras eras…

»»»»» Segue o texto, traduzido, de García Moreno:

»»»»» “Maiores problemas colocam as antigas edificações destinadas à oferta de espectáculos públicos. Isto em grande medida como consequência da diversidade destes últimos. A pressão eclesiástica, inimiga em geral de todos eles, teria logrado a supressão, em princípios do século V, dos ludi gladiatorum, porém não teria conseguido o mesmo para os espectáculos teatrais, principalmente de mimos, a caça de feras no anfiteatro e as corridas de carros no circo. Testemunhos legais visigodos permitiriam assim falar da permanência geral das corridas nas cidades ibéricas desta época, pelo menos nas mais importantes — como Mérida e Saragoça — e até ao século VI. Para os primeiros decénios do século VII, conhecemos a afeição de Eusébio, metropolitano de Tarragona, pelos espectáculos teatrais e os sangrentos venatoria. Coisa distinta é se forçosamente estes espectáculos continuavam a realizar-se nos seus antigos edifícios especializados, herdados de tempos romanos.”

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. O texto de Luis A. García Moreno consta do artigo “La ciudad visigoda”, incluído em A cidade, jornadas inter e pluridisciplinares (Actas I), Universidade Aberta, 1993.

»»»»» 2. Para a quadra de Cesário Verde, que integra o poema Meridional, utilizou-se a Obra Completa de Cesário Verde organizada, prefaciada e anotada por Joel Serrão, Portugália Editora, 3ª edição, s/d [1ª ed., 1963].

 

 

António Sá

[17.06.2017/29.06.2017]

 

 

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