Aproximações fotopictóricas 3

Aproximações fotopictóricas 3

 

Manet 1 001

»»»»» Perseguindo naturezas mortas, passei por este La femme à la cruche (Portrait de Mme Manet tenant una aiguière) (Édouard Manet, 1858-1860), que é, ao mesmo tempo, retrato e natureza morta. Mas na Aproximação anterior, centrava-me numa obra recuada de cerca de quatro séculos, Santa Ana com a Virgem e o Menino (Sansón Delli, c. 1470), a seguir reproduzida:

Sansón Delli 1 001

»»»»» Nesta tela, para lá da luminosidade amarelo-dourado que diviniza as figuras, pode inferir-se a vocação para o cuidado maternal de Santa Ana com a filha, Virgem Maria, e o neto; e da Virgem com o filho, Menino Jesus. A primeira senta-se num banco de pedra e acolhe no regaço uma juvenilíssima Virgem; a qual, por sua vez, acolhe o Menino, de pé, sobre a coxa virginal, manejando o fio em cuja extremidade se encontra preso um pássaro. Este era o brinquedo para humana distracção do divino Menino. Hoje tenderíamos a considerar cruel tal tipo de brinquedo, e talvez até atentatório da sobrevivência das espécies, mas perdoemos ao Menino Jesus a desumanidade, porque era criança, porque à época as espécies animais abundavam, porque veio a morrer na cruz e, enfim, porque foi Sansón Delli, inadvertido do nosso juízo anacrónico, quem o pôs assim a fazer mal.

»»»»» A desproporção entre estas duas figuras femininas assinala as diferentes idades e o ascendente materno. Da mão de Santa Ana pende um piedoso rosário, cujas contas vai passando. Esta representação remeterá para o estilo de vida cristã, vivida em humildade, o assento de pedra está ali para o atestar, vida dedicada ao cuidado com outrém. Para lá da figura dos santos (São Cristóvão e Santa Catarina), em segundo plano, a perspectiva de fundo anota, à esquerda, a vida rural, um pastor e seu rebanho, casas de campo, terrenos agrícolas, o perfil de cidade amuralhada e castelo, supõe-se que a cidade de Ávila, onde Sansón Delli trabalhou alguns anos; e, à direita, um eremita ajoelhado espera a chegada de São Cristóvão, que atravessa o rio com o Menino do globo aos ombros. É na terra da vida comum que nos situamos, e esta cena de travessia das águas, própria do maravilhoso cristão, não sobreleva essa cotidianeidade. Na Aproximação anterior, pus o foco no manto de Santa Ana, que replica em maior escala o da Virgem, ambos expandindo-se e empolando-se na base, segundo o estilo flamengo de pregas que semelham texturas metálicas.

»»»»» A maternalidade da Virgem surge, ao longo dos séculos, impressa nas telas e nas esculturas em que sustenta o Menino, se ocupa dele, o amamenta, e este último caso institui um subgénero de obras denominadas A Virgem do leite. Em telas onde se ocupa do Menino, já em épocas mais recentes, é representada em atitude e traje de mulher comum, da emergente classe burguesa. É o caso de algumas composições de Orazio Gentileschi, de que destaco a obra a seguir reproduzida, A Senhora e o Menino (1610):

Orazio Gentileschi 1 001

»»»»» A atitude é de entrega amorosa e, na composição, não se descura o descuido caseiro do vestido e do manto de Maria, que sustenta com a mão o seu longo e transparente véu, para proteger o sono do Menino, adormecido no regaço materno sobre, e aqui sublinho este pormenor, um pano branco, toalha ou lençol, que descai em pregas sombreadas. O Menino segura um pêssego amarelo, neste caso singelo símbolo do mundo, substituindo o globo que frequentemente apresenta na palma da mão, e constituindo uma breve inclusão de natureza morta, numa tela de motivo piedoso.

»»»»» Panos, toalhas de mesa são constantes na longa tradição das naturezas mortas, e são a marca das actividades domésticas; sinalizariam, nas sociedades cristãs ocidentais, e por extensão, a dádiva ao divino (à Virgem, ao Cristo) do paciente, humilde trabalho todos os dias produzido. Nestas sociedades, as actividades agrícolas e as actividades domésticas, executadas com escrúpulo, eram tradicionalmente votadas à instância divina; as colheitas e as refeições deviam ser abençoadas.

»»»»» Da Madonna cuidando do Menino tal como a imaginou Orazio Gentileschi, arrisco um salto de mais de dois séculos, até à consorte de Édouard Manet, tal como este a retratou em La femme à la cruche, tela reproduzida e referida no início. E um mesmo cuidado afectuoso se pode ler no rosto da senhora Manet, que bem podia ser rosto emprestado a uma Virgem da época clássica, estando-se embora num tempo de realismos e naturalismos. E não falta, a aproximar esta pintura da dos clássicos, a figuração da paisagem rural, vista para além da janela aberta, trate-se embora de uma paisagem profana — céu, árvores e vale com rio — sem alusões bíblicas nem relativas às mitologias d@s sant@s. Mas aquele cuidado afectuoso é transferido, nesta tela, para a tarefa de verter água de um jarro para uma malga, gesto que cristaliza a paciente e amorosa lide caseira feminina, a que se entrega atenta, descurando o decoro da camisa.

»»»»» Em síntese: nos panos descaindo, presentes nas naturezas mortas da fotografia de Rui Dias Monteiro (2011) e do quadro de Giorgio Morandi (1928), ambos reproduzidos a seguir, entrevi os restos da figuração do carácter sagrado de todo o humilde trabalho cotidiano, ainda que restos esquecidos dessa sua arcaica consagração, e já investidos de um carácter profano; acaso à luz deste carácter profano possa ser lida a tela de Manet, retrato da mulher virtuosa e dedicada, qualidades que sempre transparecem nas figurações da Virgem, a qual, sempre revestida de mantos e véus, se entrega aos cuidados maternos. Assim, e com todos os riscos de uma apreciação aproximativa, veria nos infinitos pregueados das infinitas representações da maternidade da Virgem, nessa envolvência e conforto maternos, a matriz cristã dos cuidados extensivamente dedicados ao lar, cuidados em séculos passados consagrados ao divino, e actualmente apenas sinalizados, em figurações artísticas, nesses restos ou despojos do sagrado e desse mesmo sagrado esquecidos.

Morandi 1 001

»»»»»»»»»» Natura morta (Giorgio Morandi, 1928)

 

 

ce256-14

»»»»»»»»»» Foto da série Figura na paisagem (Rui Dias Monteiro, 2011)

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para a arrojada interpretação dos panos, consultou-se o ensaio Ninfa moderna, essai sur le drapé tombé (Gallimard, 2002), de Georges Didi-Huberman; para a tela de Sansón Delli, utilizou-se a entrada Santa Ana con la Virgen y el Niño (Santa Ana triple) de Margarita Ruíz Maldonado, inserta no catálogo da exposição Inmaculada, Santa Iglesia Catedral de Santa María de la Real de la Almudena, Madrid, 2005; para Manet, o catálogo Manet, les natures mortes, Éditions de la Martiniêre, Réunion des Musées Nationaux, 2000; para Morandi, o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002.]

 

 

António Sá

14.07.2017/24.07.2017

 

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