Aproximações fotopictóricas 4

Aproximações fotopictóricas 4

 

»»»»» Um fruto — o limão — é o punctum que têm em comum a fotografia e a composição pictórica que apresento a seguir. Começando pela fotografia,

Rui Monteiro 100 001

ela pertence à série As couves dormem sem manta (2013), e capta centralmente dois limões amarelo-verdes, esbranquiçados por efeito da incidència luminosa, que se perfilam na linha-de-fuga da perspectiva como dois soldados numa formatura. Pousam sobre o contraplacado funcional e não-nobre de uma banqueta-de-cozinha. O fundo é o de uma parede e esquina esfoladas e uma escura peça de mobiliário difícil de identificar (um armário ou um fogão antigo). Mas os limões fazem a história da foto, o fresco amarelo que exibem remete para o uso saudável que lhes é atribuído e para a acidez do paladar.

Morandi 2 001

»»»»» O limão figurado na tela de Giorgio Morando apresenta tonalidades muito diversas. Confronte-se aquele frio amarelo-luminoso dos limões da foto com a quente mistura de amarelo-alaranjado e castanho: as cores quentes da tela contrastam com a fria luminosidade da foto e seu jogo de contrastes claro-escuro.

»»»»» Outro contraste é o do suporte de frutos e objectos. Na foto, só frutos, estes repousam na referida banqueta de contraplacado, material pobre; na tela, fruto e objectos assentam, num enquadramento em ligeiro picado, sobre uma mesa cuja textura indicia a madeira. A natureza nobre deste material, ao contrário do contraplacado, é secundada pelos materiais nobres dos objectos agrupados junto ao limão: um pote de metal, uma taça de vidro e, suponho, uma pequena faca.

»»»»» Em ambas as imagens o punctum situa-se nos limões, e em ambas, apesar das diferentes tonalidades, se conotam a vida solar e a humilde e diurna actividade doméstica, as intermináveis e vitais tarefas que sustentam a regularidade dos dias. Mas a foto é dominada pela aspereza dos limões e, por extensão, da vida campestre; convoca a pobreza dos recursos exposta na parede e no mobiliário. Na tela, o limão amarelo-alaranjado dá o tom intenso, quente, desse interior, não decerto rico ou luxuoso, mas aconchegado, familiar. E a transmutação pictórica transcende a pura representação objectal: a cor laranja expande-se enquanto indicador de uma intrínseca verdade: persistência da vida, sua densa materialidade assim fixada no tempo.

 

 

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: o conceito de punctum vem de Roland Barthes, A câmara clara (Edições 70, 1981); para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

27.07.2017/02.08.2017

 

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