Nota correctiva ao comentário a “Ecce homo”

Nota correctiva ao comentário a “Ecce homo”

 

»»»»» Por razões aleatórias, regressei ao quadro de Lovis Corinth (Ecce homo, 1925) e ao texto (Um outro “Ecce homo”) que a propósito dele tinha escrito, e que transcrevo no fim desta Nota correctiva. E, ao relê-lo e ao rever a pintura, tornou-se-me evidente que a coroa imposta ao travesti é mesmo uma coroa de espinhos, e que o homem sangra dessa imposição: há pingos de sangue dispersos pela fronte e escorrendo nos braços musculosos, presos por correias à frente do corpo. A sua figura é imponente, nesse vestido vermelho-festivo que o cobre, e que condiz com o vermelho dos pingos de sangue esparsos. O uso do vermelho confere contrastiva ambiguidade a esta representação: pode ser visto enquanto o vermelho crístico, sacrificial, redentor, santificador; ou enquanto o vermelho sensual, orgíaco, convocando à sexualidade liberta de constrangimentos normativos. Recorro, neste confronto dos valores simbólicos do vermelho, a formas correntemente estabilizadas de o interpretar e utilizar na cultura ocidental.

Lovis Corinth 1 001

»»»»» De modo evidente, este retrato-de-grupo não se apresenta como transcrição literal de um caso de controlo de costumes, mas antes como figuração simbólica da imposição da Ordem, mediada pelo médico psiquiatra e pelo guarda policial. A coroa de espinhos será lida, neste contexto, enquanto o indicador da Ordem imposta, e transforma o homem travestido num símile do Cristo — aquele que vai ser submetido ao rito sacrificial. No texto anteriormente escrito, classifiquei de ambígua esta composição, atendendo a este enfoque bíblico. O que há de comum entre o Cristo e o “desviante” é o facto de serem procurados, identificados (“ecce homo”, “eis o homem”) e sacrificados. A distância reside no que se percepciona da “virtude” do Cristo e o que se deduz do “vício” do “delinquente”: ambígua portanto a mensagem pictórica ao convocar, num só movimento, proximidade e distância.

»»»»» Esta ambiguidade, quer no plano do tratamento cromático, quer no referido jogo de proximidade e distância, eventualmente chocante, será responsável pela distorção do que vi em relação ao que lá está: está lá um homem coroado de espinhos, indubitavelmente; alguma coisa entre o meu olhar e o meu cérebro fez com que eu visse lá, erradamente, uma festiva coroa de flores.

 

António Sá

[15.08.2017]

 

 

Um outro “Ecce homo”

»»»»» Tenho muito vaga ideia de ter visto antes este Ecce homo de Lovis Corinth, creio que datado de 1925, e me ter sentido chocado à primeira vista, e ter avançado alguma interpretação. E ter esquecido, entretanto, a tela e a interpretação, no vendaval de arte, artefactos e artifícios, incluindo fogos-de-artifício e fogos-fátuos, que me vêm por todos os lados que existem. Revejo-o agora na sua vertical grandeza: tanto física, é um quadro de grande altura; quanto sócio-interventiva ou, diga-se, ética. Por que fiquei chocado ao primeiro visionamento? — Porque no lugar central, que seria o do Cristo, está um homem travestido. Não vejo por que ocupe esse lugar central crístico, senão pela vertente sacrificial — enorme, musculado, resulta grotesco naquele provocante vestido feminino; está coroado, não de uma coroa de espinhos, mas de uma festiva coroa não-sei-de-quê, de flores será, como se o recolhessem surpreendido de algum cabaré de pervertidos, para usar uma expressão de época. Há mais duas imponentes figuras-de-corpo-inteiro que o ladeiam: à direita um empertigado militar; à esquerda um proficiente médico-psiquiatra. São os símbolos da ordem institucional, assegurando a normalidade a-ser-vigente no tecido social desse tempo histórico: o entre-guerras europeias ou, mais exactamente, mundiais.

»»»»» Esta ambígua, quase críptica obra pictórica — se lhe associarmos leituras crísticas — deve ser contextualizada no que era a sociedade alemã entre a última década do século XIX e as três primeiras do século XX. Em Berlim, segundo o historiador Robert Beachy (Gay Berlin, 2013), havia mais de trinta publicações e uma centena de lugares nocturnos orientados para o universo homossexual e transgénero — embora não estivessem ausentes as ordens policial-militar e psiquiátrica, assim a tela de Lovis Corinth as fixa simbolicamente.

António Sá

[24.08.2015]

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