Monthly Archives: September 2017

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

 

 

»»»»» Simetria no reclamar a dor como seu quinhão exclusivo, é esse o exercício discursivo de ambos. Algures na segunda metade do século XII, conversam musicalmente a trovadora (trobairitz) La Comtessa de Dia e o trovador (troubadour) Raimbaut d’Aurenga, seu amante amado, já que ela, nos seus versos, desdenhava o marido, que aborrecia, e encantava-se com o amante, ainda que nesta conversa entre os dois se queixe de ser a única a sofrer pelos cuidados, as incertezas amorosas, e de que ele não lhe corresponde inteiramente, deixando-lhe a ela todo o mal, e enfim pergunta por que não repartem o mal pelos dois. Ao que ele responde, cantando, que o amors entre dois amantes (amics) trabalha no sentido de distribuir males e alegrias conforme lhe parece, personificando assim a imagem do amors, mas acrescenta que só ele, sem querer gabar-se disso, tem de gerir todo o mal. Termino esta paráfrase como comecei: simetria no reclamar a dor como respectivo quinhão exclusivo.

»»»»» E anoto a insistência, própria do discurso amoroso, na noção de que o mal é inerente ao amor.

»»»»» Traduzo assim estas estrofes, originalmente em provençal:

 

La comtessa de Dia:

 

Amigo, em grande cuidado

estou por vós e grave pena;

e do mal que assim sofro

não creio que sintais nada.

Por que vos meteis em namorado

se a mim deixais todo o mal?

Por que não o partimos por igual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Dona, o amor tem tal trabalho,

quando dois amigos encadeia,

que tanto o mal, tanto a alegria

sente cada um, conforme ele o quer.

Que eu penso, e não sou gabarola,

que a dura dor de coração

tenho-a eu toda à minha conta.

 

 

»»»»» Estes amantes, pertencentes à nobreza provençal do século XII, nada tinham de malditos: exibiam os seus amores sem consideração pelos laços matrimoniais respectivos. É corrente os historiadores considerarem que foi neste lirismo, em que os versos eram cantados na corte, e de que se conhecem muitos registos musicais, que nasceu a concepção ocidental do amor, tal como actualmente o (re)conhecemos: amor sentimental sem barreiras legais e de grande envolvimento erótico.

»»»»» Tal surto cultural aconteceu numa região geográfica que compreende a Provença francesa e parte da actual Catalunha ainda espanhola. Escrevo “ainda”, porque estamos nesse momento histórico em que, dentro de dias, mais exactamente a 1 de outubro de 2017, se prevê que aconteça um referendo na Catalunha, que poderá decidir a independência da região. Quanto a isto, ocorre-me um imperativo histórico retrospectivo: a Catalunha devia-mesmo-de-ter encontrado a sua independência no século XII, como o fez Portugal, e tê-la mantido até hoje. Actualmente, a situação apresenta contornos mais ou menos agónicos, difícil que é a relação com Castela, e complexa que é com o desenho da Europa actual.

»»»»» Insiro a seguir a versão original:

 

La Comtessa de Dia:

 

Amics, en gran cossirier

suy per vos et en greu pena;

e del mal q’ieu en sufier

no cre que vos sentatz guaire.

Doncx, per que us metetz amaire,

pus a me laissatz tot lo mal?

Quar amduy no’l partem egual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Don’, amors a tal mestier,

pus dos amicx encadena,

que’l mal qu’an e l’alegrier

sen chascus, so’ill es vejaire.

Qu’ieu pens, e non suy guabaire,

que la dura dolor coral

ai eu tota a mon cabal.

 

 

 

 

Provença 1 001

»»»»» [Mapa do território dos poetas provençais no século XII]

 

»»»»» Nota: tendo já traduzido as canções que se conhecem de La Comtessa de Dia, tentarei fazer a tradução na totalidade esta tensão (tensó), produzida em colaboração e confronto com Raimbaut d’Aurenga, de que agora só apresento as duas primeiras estrofes, editando posteriormente, neste mesmo sítio, a tradução completa.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: seguiu-se a lição constante da obra em três volumes Los trovadores, historia literaria y textos, de Martín de Riquer, Editorial Ariel, Barcelona, 1992 (primera edición: 1975, Colección Ensayos / Planeta); para a imagem, pormenor central do território onde viveram os poetas provençais, utilizei a obra Chants d’amour des femmes troubadours,  de Pierre Bec, Stock/Moyen Age, Paris, 1995.]

 

 

António Sá

[27.09.2017]

 

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Pluriplicante 7

Pluriplicante 7 (… sobre o futuro anarcocapitalista)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Transcrevo um parágrafo de uma obra de John Gray, referenciada no final:

 

»»»»» Todas as tentativas de modernização da Rússia através da adopção de um modelo ocidental falharam. Isto não significa que a Rússia não seja moderna. Muito pelo contrário, tornou-se pioneira do que poderá vir a revelar-se como a forma mais avançada do capitalismo. Das cinzas do Estado soviético emergiu uma economia hipermoderna — um anarcocapitalismo de alicerces mafiosos que se expande para Ocidente. A globalização do crime organizado russo verifica-se numa época em que as indústrias ilegais — droga, pornografia, prostituição, ciberfraude e actividades similares — são os verdadeiros sectores dinâmicos da maior parte das economias avançadas. O anarcocapitalismo russo dá abundantes sinais de poder vir a superar o capitalismo ocidental nesta nova fase de desenvolvimento.

 

»»»»» Em relação a este parágrafo, limito-me a fazer três observações e uma objecção:

»»»»» 1ª observação) Estes “alicerces mafiosos” da economia russa (entre outras economias) são comuns às actuais e multioperacionais “máfias chinesas”, eventualmente com um pé na legalidade, outro na criminalidade.

»»»»» 2ª observação) A pornografia não é propriamente ilegal, pelo menos nas democracias ocidentais (sê-lo-á na Rússia actual, não sei). Não é ilegal e constitui, até, uma das indústrias economicamente mais rentáveis, no domínio das publicações, da internet, dos gadgets, das sex-shops e dos “filmes para adultos”. Ilegal vem a ser, por outro lado, a venda de armamento fora do circuito oficialmente instituído, sendo no entanto um dos “sectores dinâmicos” de algumas economias e, diga-se, perversamente dinâmicos.

»»»»» 3ª observação) Com diferentes pesos, a ciberfraude usada nas recentes eleições dos actuais presidentes estaduniense, Donald Trump, e francês, Emmanuel Macron, constitui um primeiro e tímido ensaio do que pode vir a ser esse negócio no futuro, sabendo-se hoje que, para além do seu alcance manipulatório, se torna mais rentável uma apelativa, escandalosa notícia falsa (via número de cliques no like), do que uma notícia verdadeira, veiculada por jornalistas responsáveis: é conhecida a história do hacker que, instalado na Macedónia, produziu notícias absurdas, sobre Hillary Clinton, a coberto de uma quase-igual sigla da CNN, pura falsificação, e recebeu em casa cheques bem-providos graças à quantidade de cliques no like.

»»»»» Enfim, chego à objecção, a única que me ocorre. Na Rússia de Vladimir Putin, a tendência conhecida é a da concentração de poderes e controlo da comunicação social e da economia, tendo-se conseguido uma quase-total neutralização dos opositores ao regime. No entanto, como os regimes concentracionários tendem a ser corruptos, é provável que o actual regime russo viva, como as máfias, com um pé na legalidade, outro na criminalidade.

 

Rússia 1 001

»»»»»»»»»» [IMAGEM: pormenor de uma foto jornalística (Ilya Naymushin  / REUTERS).]

 

»»»»» Referência: o texto transcrito consta da página 155 de obra de John Gray Sobre humanos e outros animais, tradução de Miguel Serras Pereira, Lua de Papel, 2007 (título original: Straw dogs, Granta Publications, 2002).

 

 

António Sá

14.08.2017/23.09.2017

 

… vai lavar cabelos…

… vai lavar cabelos…

 

»»»»» Os cabelos da cabeça feminina invertida de Seeing is believing (L’île invisibke) pendem, junto com um aguaceiro, sobre a “ilha invisível” do subtítulo, não tão invisível que não se possa entrever. São cabelos abundantes, platinados, caindo oniricamente, enublando aéreos edifícios, no quadro surrealista de Roland Penrose (1937). Abundantes seriam os cabelos da jovem da cantiga galego-portuguesa “Levóus’ a louçana, levóus’ a velida” de Pero Meogo (segunda metade do século XIII) mas, como é próprio das cantigas de amigo, o retrato das personagens é sumário, assim não nos é revelada a cor dos cabelos, longos seriam, porque era de uso entre jovens e donas do século XIII, e assim longos ela vai lavá-los, depois de se ter levantado (“levóus’”). Seguem-se a cantiga e a interpretação mais estrita:

 

 

Levóus’ a louçana, levóus’ a velida,

vai lavar cabelos na fontana fria,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Levóus’ a velida, levóus’ a louçana,

vai lavar cabelos na fria fontana,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Vai lavar cabelos na fontana fria,

passou seu amigo que lhi ben queria,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Vai lavar cabelos na fria fontana,

passa seu amigo que muit’ a amava,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Passa seu amigo que lhi ben queria,

o cervo do monte a augua volvia,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Passa seu amigo que a muito amava,

o cervo do monte volvia a augua,

leda dos amores, dos amores leda.         

 

 

 

 

»»»»» Construindo um fragmento de história, o jogral Pero Meogo narra esta sequência de acções matinais: a jovem, bela e amada (“louçana” e “velida”), levantou-se (“levóus’”) e foi lavar os cabelos numa fresca nascente (“fria fontana”), junto à qual passa o seu namorado (“amigo”); mas passa por ali também, a esse tempo, um “cervo do monte”, que vem beber e revolve a água da nascente (“a augua volvia”). O refrão da cantiga, em cruzada forma de palavras, ou seja, em quiasmo (“leda dos amores, dos amores leda”), repete quão alegre (“leda”) está a rapariga com a sua relação amorosa. Esta leitura literal tem muito de inocente narrativa; contudo, levando em conta a simbologia dos elementos convocados, o cervo e a água, descobre-se uma leitura segunda, à luz da qual se perfila uma sexualidade implícita. Num texto subsequente, tentarei explicitá-la.

 

Limbourg 1a 001

 

 

»»»»» Notas complementares:

»»»»» 1. O quadro de Roland Penrose encontra-se reproduzido junto com o texto intitulado Seeing is believing (L’île invisibke), que corresponde ao título da obra, texto inserto neste mesmo sítio.

»»»»» 2. Pero Meogo, jogral de quem nada se sabe, terá produzido as suas nove cantigas de amigo na segunda metade do século XIII.

»»»»» 3. A acompanhar este comentário à cantiga de amigo de Pero Meogo, junta-se a imagem de uma eventual nascente, vinda de entre o arvoredo, nascente que se espraia, e em cujas águas se banham alguns ceifeiros. É um pormenor de um conjunto de iluminuras realizadas pelos irmãos Limbourg, entre 1413 e 1416: portanto, à volta de cento e cinquenta anos depois de criada a cantiga.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição da obra Lírica profana galego-portuguesa, coordenada por Mercedes Brea, edição da Xunta de Galicia / Centro Ramón Piñeiro, Santiago de Compostela, 1996, tendo-se também consultado a edição crítica de José Joaquim Nunes, Cantigas de amigo, Centro do Livro Brasileiro, Lisboa, 1973; quanto à iluminura dos irmãos Limbourg, utilizou-se a edição do livro de horas Les très riches heures du Duc de Berry, Thames and Hudson, London, 1969.]

 

António Sá

[20.09.2017 / 22.09.2017]

 

 

 

»»»»» Insiro a seguir, por comodidade,  o texto acima mencionado (disponível no blogue “distracções”):

Seeing is believing (L’île invisible)

»»»»» Enorme cabeça feminina invertida, de suaves feições perfeitamente delineadas segundo o modelo dos magazines norte-americanos, cujos longos cabelos louros pendem na vertical, vão unir-se a uma ilha de arquitecturas urbanas em intersecções estilizadamente geométricas.

»»»»» Do mar que rodeia a ilha, e num primeiro plano, emerge uma mão isolada e vertical, de tons avermelhados.

Roland Penrose 001

»»»»» Obra de Roland Penrose (óleo sobre tela, 1937). Exemplo de uma utilização surreal da cabeleira loura, investida de um sentido arbitrário, se se quiser, ou acolhedor, neste caso associado à ideia de ilha, lugar simbólico de acaso salvamento, acaso salvação, enfim coesão, recolhimento.

António Sá

[02.01.2014]

 

Seeing is believing

Seeing is believing (L’île invisible)

»»»»» Enorme cabeça feminina invertida, de suaves feições perfeitamente delineadas segundo o modelo dos magazines norte-americanos, cujos longos cabelos louros pendem na vertical, vão unir-se a uma ilha de arquitecturas urbanas em intersecções estilizadamente geométricas.

»»»»» Do mar que rodeia a ilha, e num primeiro plano, emerge uma mão isolada e vertical, de tons avermelhados.

Roland Penrose 001

»»»»» Obra de Roland Penrose (óleo sobre tela, 1937). Exemplo de uma utilização surreal da cabeleira loura, investida de um sentido arbitrário, se se quiser, ou acolhedor, neste caso associado à ideia de ilha, lugar simbólico de acaso salvamento, acaso salvação, enfim coesão, recolhimento.

António Sá

[02.01.2014]

Desatino 77

Desatino / 77 [Abrir os crimes]       

 

»»»»» Cruzo-me na rua com duas mulheres nem novas nem velhas, nem bonitas nem feias — duas mulheres em tudo vulgares e anónimas, sem idade nem tempo, e diz uma para a outra, sendo isto tudo o que pude ouvir:

»»»»» — … recebi a encomenda, e pensei “devem ser os crimes”… e abri…

 

 

António Sá

[14.09.2017]

 

Pluriplicante 6

Pluriplicante 6 (… no reino dos assessores de Kim Jong-un e dos jurados do País das Maravilhas)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

Lewis Carroll 1 001

»»»»» No seu artigo “As mulheres de Atenas e o rapaz de Pyongyang”, a que faço referência no Pluriplicante 5, Nuno Pacheco insiste, com humor, nos eternos caderninhos que os assessores ou “homens fardados” de Kim Jong-un exibem, nas imagens de propaganda, junto com esferográficas. Qualifico-os de “eternos”, aos caderninhos, em acepções possíveis do adjectivo: por se eternizarem, figuradamente, ou seja, “aparecerem sempre” nas mãozinhas dos assessores; e ainda porque serão historicamente “eternos”, a arquivar agora e analisar depois o que neles terá alegremente sido registado — isto, se os caderninhos sobreviverem intactos às inclemências “naturais” da história das ditaduras.

Kim Jong-un 001

»»»»» Este afã de escrever em caderninhos é similar ao afã com que os jurados do tribunal dos Rei e da Rainha de Copas, no País das Maravilhas, escreviam em lousas, com os lápis próprios. Para quem não tenha ideia deste processo de escrita, explico que em lousas as crianças escreviam nas escolas do século XIX e parte do século XX. Lousas eram placas de uma rocha negra, do tamanho de um caderno A5, emolduradas de madeira; sobre elas se escrevia com um giz apropriado, que imprimia riscos brancos na placa negra e, quando necessário, esses riscos eram apagados com uma esponja húmida. Leia-se agora este passo de Alice no País das Maravilhas, e compare-se o afã dos assessores ao afã dos oníricos jurados:

 

»»»»» Os doze jurados estavam muito atarefados a escrever em lousas.

»»»»» — O que estão eles a fazer? — perguntou Alice ao Grifo em voz baixa. — Não têm nada para escrever, uma vez que o julgamento ainda não começou.

»»»»» — Estão a anotar os seus próprios nomes, com receio de se esquecerem deles antes do julgamento acabar — respondeu o Grifo, também em voz baixa.

»»»»» — Que estúpidos! — exclamou Alice em voz alta, indignada.

 

»»»»» Aconteceu que, num outro passo adiante, estes jurados, oníricas figuras animais, são derrubados por Alice que, tendo diminuído de tamanho, volta agora ao seu tamanho normal de menina. Foi quando ela se levantou, ao ser chamada para prestar depoimento:

 

»»»»» — Presente! — exclamou Alice, quase se esquecendo, com a excitação do momento, como crescera nos últimos minutos.

»»»»» Levantou-se com tal rapidez que deu um safanão na bancada dos jurados com a ponta da saia e estes caíram em cima da cabeça da multidão que se encontrava mais abaixo e espalharam-se. Isto fez Alice lembrar-se de um aquário com um peixe vermelho lá dentro, que ela derrubara na semana anterior.

»»»»» — Oh, peço desculpa! — exclamou, desolada.

»»»»» E começou a apanhá-los tão depressa quanto podia, pois continuava a pensar no acidente com o peixe vermelho, e tinha uma vaga ideia de que se eles não fossem apanhados imediatamente e postos na bancada, morreriam.

»»»»» — O julgamento não pode prosseguir — disse o Rei com uma voz muito solene — antes de os jurados se instalarem nos seus lugares. Todos eles — repetiu com grande ênfase, olhando fixamente para Alice.

»»»»» Alice olhou para a bancada dos jurados e reparou que, com a pressa, pusera o Lagarto de cabeça para baixo, e que o pobrezinho abanava tristemente a cauda, incapaz de mudar de posição. Pegou nele e pô-lo de cabeça para cima. “Não é que isto tenha algum significado especial”, pensou. “O julgamento correria da mesma maneira.”

»»»»» Assim que os jurados recuperaram um pouco do choque e as lousas e os lápis lhes foram devolvidos, entregaram-se afincadamente à tarefa de escrever a história do acidente, todos excepto o Lagarto que parecia ter ficado demasiado abalado para fazer fosse o que fosse. Ali ficou, de boca aberta, a olhar para o tecto.

 

»»»»» Estes infelizes jurados são varridos pela saia de Alice, mas recompõem-se, excepto o aturdido Lagarto. Se nos dermos ao jogo de ler isto aplicado premonitoriamente aos aplicados assessores de Kim Jong-un, vê-los-emos varridos pela saia dos tempos, tempos que talvez nem lhes concedam tempo para “escrever a história” de um eventual “acidente”, mas ficarão a pairar os seus sorrisos felizes no ar das fotos, como pairava no ar, sem corpo, o sorriso do Gato de Cheshire no pesadelo de Alice.

Lewis Carroll 1 001

»»»»» Referências: o artigo de Nuno Pacheco, “As mulheres de Atenas e o rapaz de Pyongyang”, foi publicado na edição de 07.09.2017 do jornal Público; para os passos transcritos de Alice no País das Maravilhas, utilizei a tradução do livro de Lewis Carroll por Maria Filomena Duarte, editada nas Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988, de cuja edição se reproduz uma das ilustrações originais de John Tenniel.

António Sá

12.09.2017

 

Pluriplicante 5

Pluriplicante 5 (… sobre a felicidade da bomba H)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

»»»»» Uma foto extraordinária, essa de Kim Jong-un rindo com evidente gosto, rodeado dos seus alegres, ridentes colaboradores. Rindo de quê? — Da destruição massiva que transporta esse engenho metálico que exibem, a bomba H, assim propagandeada. Uma bomba de potência várias vezes superior à lançada em Hiroshima. Dessa destruição possível, eles riem felizes risos infantis, como de crianças excitadas em redor de uma prenda inesperada dos Reis Magos.

04.09.2017

 

Qué es la bomba H de la que habla el mundo entero

 

»»»»» Leio, na edição de ontem (07.09.2017) do jornal Público, um artigo de Nuno Pacheco, no qual dá conta do riso de Kim Jong-un. Riso que qualifiquei de extraordinário e, acrescento, exacta demonstração das profundidades insondáveis inerentes ao mais predador de todos os animais: o animalhumano. O artigo, sobre as desventuras do politicamente correcto, intitula-se “As mulheres de Atenas e o rapaz de Pyongyang”, sendo este “rapaz”, obviamente, o dito Kim Jong-un.

»»»»» Insiro a seguir o link para o artigo de Nuno Pacheco:

nuno.pacheco@publico.pt

08.09.2017

António Sá

04.09.2017/08.09.2017