Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

 

 

»»»»» Simetria no reclamar a dor como seu quinhão exclusivo, é esse o exercício discursivo de ambos. Algures na segunda metade do século XII, conversam musicalmente a trovadora (trobairitz) La Comtessa de Dia e o trovador (troubadour) Raimbaut d’Aurenga, seu amante amado, já que ela, nos seus versos, desdenhava o marido, que aborrecia, e encantava-se com o amante, ainda que nesta conversa entre os dois se queixe de ser a única a sofrer pelos cuidados, as incertezas amorosas, e de que ele não lhe corresponde inteiramente, deixando-lhe a ela todo o mal, e enfim pergunta por que não repartem o mal pelos dois. Ao que ele responde, cantando, que o amors entre dois amantes (amics) trabalha no sentido de distribuir males e alegrias conforme lhe parece, personificando assim a imagem do amors, mas acrescenta que só ele, sem querer gabar-se disso, tem de gerir todo o mal. Termino esta paráfrase como comecei: simetria no reclamar a dor como respectivo quinhão exclusivo.

»»»»» E anoto a insistência, própria do discurso amoroso, na noção de que o mal é inerente ao amor.

»»»»» Traduzo assim estas estrofes, originalmente em provençal:

 

La comtessa de Dia:

 

Amigo, em grande cuidado

estou por vós e grave pena;

e do mal que assim sofro

não creio que sintais nada.

Por que vos meteis em namorado

se a mim deixais todo o mal?

Por que não o partimos por igual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Dona, o amor tem tal trabalho,

quando dois amigos encadeia,

que tanto o mal, tanto a alegria

sente cada um, conforme ele o quer.

Que eu penso, e não sou gabarola,

que a dura dor de coração

tenho-a eu toda à minha conta.

 

 

»»»»» Estes amantes, pertencentes à nobreza provençal do século XII, nada tinham de malditos: exibiam os seus amores sem consideração pelos laços matrimoniais respectivos. É corrente os historiadores considerarem que foi neste lirismo, em que os versos eram cantados na corte, e de que se conhecem muitos registos musicais, que nasceu a concepção ocidental do amor, tal como actualmente o (re)conhecemos: amor sentimental sem barreiras legais e de grande envolvimento erótico.

»»»»» Tal surto cultural aconteceu numa região geográfica que compreende a Provença francesa e parte da actual Catalunha ainda espanhola. Escrevo “ainda”, porque estamos nesse momento histórico em que, dentro de dias, mais exactamente a 1 de outubro de 2017, se prevê que aconteça um referendo na Catalunha, que poderá decidir a independência da região. Quanto a isto, ocorre-me um imperativo histórico retrospectivo: a Catalunha devia-mesmo-de-ter encontrado a sua independência no século XII, como o fez Portugal, e tê-la mantido até hoje. Actualmente, a situação apresenta contornos mais ou menos agónicos, difícil que é a relação com Castela, e complexa que é com o desenho da Europa actual.

»»»»» Insiro a seguir a versão original:

 

La Comtessa de Dia:

 

Amics, en gran cossirier

suy per vos et en greu pena;

e del mal q’ieu en sufier

no cre que vos sentatz guaire.

Doncx, per que us metetz amaire,

pus a me laissatz tot lo mal?

Quar amduy no’l partem egual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Don’, amors a tal mestier,

pus dos amicx encadena,

que’l mal qu’an e l’alegrier

sen chascus, so’ill es vejaire.

Qu’ieu pens, e non suy guabaire,

que la dura dolor coral

ai eu tota a mon cabal.

 

 

 

 

Provença 1 001

»»»»» [Mapa do território dos poetas provençais no século XII]

 

»»»»» Nota: tendo já traduzido as canções que se conhecem de La Comtessa de Dia, tentarei fazer a tradução na totalidade esta tensão (tensó), produzida em colaboração e confronto com Raimbaut d’Aurenga, de que agora só apresento as duas primeiras estrofes, editando posteriormente, neste mesmo sítio, a tradução completa.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: seguiu-se a lição constante da obra em três volumes Los trovadores, historia literaria y textos, de Martín de Riquer, Editorial Ariel, Barcelona, 1992 (primera edición: 1975, Colección Ensayos / Planeta); para a imagem, pormenor central do território onde viveram os poetas provençais, utilizei a obra Chants d’amour des femmes troubadours,  de Pierre Bec, Stock/Moyen Age, Paris, 1995.]

 

 

António Sá

[27.09.2017]

 

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