Monthly Archives: October 2017

Pluriplicante 9

Pluriplicante 9 (… incapaz de rir-se dos outros)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Incapaz de rir-se dos outros, de gente que não conhece. Pode no entanto acontecer-lhe rir de pessoas amadas, próximas, riso de à-vontade e empatia — tanto rir-se de como rir-se com.

»»»»» Estas são confissões do realizador checo Milos Forman, bombardeado com as perguntas insistentes e ríspidas de Vêra Chytilová, ao longo do flutuante filme-entrevista Chytilová versus Forman — consciouness of continuity (1981), realizado por esta cineasta, Vêra Chytilová (o apresentador eslavo do filme pronuncia Kitilôuâ).

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»»»»» Em relação ao riso para com pessoas próximas não tenho que comentar, é riso saudável enquanto partilhado em conivência e mútua boa-vontade. Relativamente ao “rir-se dos outros”, como diz Forman, estou com ele, sou incapaz disso. Não me explico porquê, sei que me sinto desconfortável com a eventualidade do riso sobre (e contra) outrem: o acaso de tal riso esvai-se em desconforto. Não me explico porquê, mas no entanto explico mesmo assim: o movimento de rir-me de características físicas ou morais do outro, ou até do seu ridículo, gela-se-me logo, sinto estar a cometer, nesse só movimento, um acto de felonia, de traição e de crueldade. De felonia, porque me revelaria cobardemente (e quase decerto ignaramente) juiz-soberano do que o outro seja, sem o entender; de traição para com a nossa espécie, esta espécie de animais-humanos que somos todos, sujeitos todos às mesmas inexoráveis contingências; e de crueldade, por exercer, através do riso, uma punição e uma forma de aniquilamento sobre quem, em rigor, desconheço — desconheço-lhe os antecedentes, as circunstâncias, as derivas e as motivações profundas.

»»»»» Já com os animais-não-humanos, esses nunca suscitam riso, a não ser quando são amestrados nesse sentido, mas os circos onde os exibem estão condenados a desparecer… ou desapareceram já.

»»»»» Posso rir-me (e até muito) de figuras criadas na literatura (Dom Quixote, etc.), ou em filme (Buster Keaton, etc.), mas não de pessoas reais que, no limite do ridículo, me suscitam sobretudo pena e compaixão; ou perplexidade e medo (caso de Donald Trump); ou espanto e revolta (caso do juiz Neto de Moura, que nos seus acórdãos legitima a violência física de homens contra mulheres, a propósito de adultério).

»»»»» No entanto, não ignoro circunstâncias em que rir dos outros é compreensível e desculpável, porque próprio dessas circunstâncias (históricas e educacionais). Estou a pensar, em particular, nos tempos próprios da infância e da adolescência: na infância, dada a reconhecida crueldade infantil, por falta de insight; na adolescência, dada a indefinição de personalidade e, frequentemente, de identidade sexual — e lá vêm risos (nervosos) de insegurança ou de atracção/rejeição sexual projectada nos outros. Tenho assim em conta que crianças e adolescentes são seres em formação, e esse processo é uma via longa (e dolorosa).

»»»»» Fora estes casos, quando se é adulto mentalmente e sexualmente saudável, não acontecem motivos de rir dos outros; rir dos outros enquanto adulto é demonstração de doença (envolvendo falta de insight) e, por acréscimo, de manifesta estultícia.

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1, Milos Forman não se ri dos outros, mas cria personagens patéticos, e a categoria artística do patético pende ora para o sublime, ora para o risível (de um riso compassivo), veja-se o seu filme checo O baile dos bombeiros [Horí, má panenko] (1967), que é várias vezes referido na entrevista conduzida por Vêra Chytilová citada no início, e que deu o mote a este Pluriplicante.

»»»»» 2. O filme-entrevista de Chytilová é uma produção belga de 1981, e o seu título original é apenas Chytilová versus Forman.

 

 

António Sá

25.10.2017/28.10.2017

 

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Pluriplicante 8

Pluriplicante 8 (… sobre o ódio)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

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»»»»» De onde vem o ódio? Onde nasce esse núcleo duro de desafeição para com outrem? Onde e por que se aloja e permanece, reforça num progresso infinito cada dia, perseguindo o aniquilamento do outro odiado, e mal se regozijando com tal aniquilamento, se conseguido?

»»»»» Nesta sequência de interrogações surgem obscuridades, que talvez seja possível, se não esclarecer, pelo menos formular. Consistem elas em saber quem é esta entidade que ocupa o lugar do outro; e por que razão, obtido o aniquilamento desse outro, tal não produz mais que um regozijo acaso intenso mas breve, regressando o agente do ódio à inquietude inicial.

E, ao escrever inquietude, estarei a anotar uma característica essencial do sentimento que se identifica enquanto ódio.

»»»»» Avanço no entanto com respostas intuídas para estas obscuridades. O outro que cada um de nós odeia está dentro de nós, é a parte de nós que fomos ensinados a rejeitar; e o próprio esforço posto nesta rejeição constitui o núcleo duro do ódio. O membro actual da Ku Klux Klan odeia parte do animalhumano que há em si. É um ódio que se autodesconhece enquanto tal, participa do processo expurgatório, de circunscrição identitária, que preside ao crescimento emocional infantil. Odeia não o seu todo individual, mas essa parte sua do animalhumano que o ensinaram a considerar “má e rejeitável”, neste caso apontado como o negro, a etnia negra, afinal um eu-exterior, percepcionado como outro deficientemente humano e potencialmente ameaçador. Recusa a esse eu-outrado a parte de “humanidade boa” que considera ser a sua, a de um bom e exclusivo eu-interior, e assim não integra o negro enquanto essencialmente humano, o que lhe legitima uma política socialmente desintegradora, separatista. No entanto, uma vez aniquilado esse objectivamente outro e festejado tal exorcismo, o outro que está dentro de si, parte do animalhumano inconsciente e rejeitada por malévola, mas não extinta, esse outro-interior continua vivo e continua a exigir novos sacrifícios ad aeternum, na inquietude que não conhece descanso. Em modo de fábula, e com recurso à história europeia, imagino que um Hitler vitorioso que tivesse conseguido exterminar a “humanidade má” fantasmaticamente situada no exterior, ou seja, os judeus, os ciganos, os homossexuais (… e os negros?… e os ameríndios?… e os asiáticos?…) teria por fim de se exterminar a si mesmo, por não ser suficientemente ariano, já que nem era louro…

»»»»» Usei a frase “ensinaram a considerar como má e rejeitável”, no entanto aquele verbo, ensinaram, é insuficiente para descrever o processo educativo: trata-se de uma coacção. A educação humana (familiar, escolar, social) consiste em coagir de acordo com os circunstancialismos históricos, e não necessariamente com agressividade, mais bem com carinho e, num processo de crescimento e de integração, aceitar a coacção é um pressuposto para a sobrevivência do ser vivo jovem no seu habitat, na sua comunidade.

»»»»» Estas são “respostas intuídas”, como escrevi, mas obviamente subsidiárias de leituras freudianas. Em todo o caso, venha de onde vier o ódio, ninguém está imune a ele, e quem diz que não tem ódio dentro de si é porque não se (re)conhece, e encontrá-lo-emos em contradição incônscia talvez logo nos minutos seguintes, porque expressamos o(s) nosso(s) ódio(s), ligeiro(s) ou profundo(s), a cada minuto que passa (o facebook e outras redes sociais não vivem de outra coisa).

»»»»» Não estarei preparado para escrever sobre os meus ódios. Talvez o possa fazer de modo geral, deste modo: os meus ódios são imediatos ou adquiridos passo-a-passo, mas creio que as coisas são assim com todos os ditos humanos e até com os ditos animais (para estes recordo o especular e acutilante filme White dog (Samuel Fuller,1982), em que um possante cão de pêlo níveo “se revela” treinado para atacar exclusivamente negros). Mas sejam os meus ódios imediatos ou vagarosos, sou sempre escrupulosamente levado, é essa a minha natureza, a raciociná-los, a racionalizá-los e, por força disso, a racioná-los — um pouco de ódio, um pouco de compaixão por mim e por outrem.

 

 

 

 

»»»»» Referência iconográfica: a imagem é um pormenor de foto jornalística (Rafael Marchante / REUTERS). Mostra um adepto em pleno acto de ódio contra o futebolista catalão Gerard Piqué, por este ter manifestado o seu apoio ao referendo catalão relativo a uma possível independência. “PIQUE FORA”: o adepto (“fora de si”, ou seja, que se desconhece manifestamente a si mesmo) deseja tão-só ou, mais propriamente, tão-muito a eliminação de Piqué do futebol e, quem sabe, da vida. Assim está a ser o cenário do ódio.

 

 

 

António Sá

04.10.2017/14.10.2017

 

Infinito pungimento

Infinito pungimento

 

»»»»» Obra de maturidade, do ano da sua morte, a série de seis painéis de Louise Bourgeois (1911-2010), água-forte e técnica mista, subordinada ao título geral de I give every thing away (Eu dou absolutamente tudo). Cada painel isolado tem, no entanto, inscrito um título próprio — é o caso do painel aqui reproduzido, em estrutura de tríptico, cuja secção central é usada para, em caracteres toscos, estilo art brut, se inscrever a frase I distance myself from myself (Eu distancio o meu eu do meu eu).

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»»»»» Cada painel desta série sêxtupla guarda a sua visceralidade essencial e o seu não-místico mistério, desvendável a uma interpretação próxima, não necessariamente fácil. Sem ter a pretensão de desvendar o mistério deste painel, interpreto-o como representação do fenómeno da maternidade, numa leitura literal. Assim, a figura à esquerda representa o primeiro myself, o eu-mesmo pletórico de si, interior corporal íntegro, cromaticamente preenchido de verdade física essencial (vermelhos-grená e brancos); a figura à direita será o segundo myself, o eu-mesmo que se distanciou do anterior ao potenciar-se em cêntrico nódulo: um feto nas suas circunvoluções, cromática verdade vital (os mesmos vermelhos-grená e brancos). Após esta leitura literal, poder-se-á sair à aventura metafórica: representa-se, neste painel, o movimento da concepção universalmente entendida, já não só universo reservado ao feminino, mas território da criação imaginativa em geral, artística em particular. A distância entre um eu-mesmo e outro eu-mesmo torna viável quer a gestação, quer a concepção. Afigura-se-me ser esse mesmo tipo de distância criativa que Fernando Pessoa ortónimo põe em jogo nas redondilhas sobre o fingimento do poeta.

»»»»» As figuras do painel I distance myself from myself contêm-se em recipientes, vasos preenchíveis, cujas partes superiores, as “cabeças”, estão “em branco”, ou seja, receptivas ao que venha do exterior para o integrar. Por hipótese, figuras da despreconceituação radical. Extensivamente, é-me possível considerar que tal despreconceituação constitua a única possibilidade fecunda para a criação, qualquer que seja o campo em que se exerça — criação (e não copy and paste), no infinito pungimento de retirar de si uma parte de si.

 

 

»»»»» Nota complementar: a leitura metafórica traz-me o eco de alguns versos de poetas portugueses: “Antre mim mesmo, & mim / nam sey que salevantou, / que tam meu ymiguo sou.” (Bernardim Ribeiro, século XVI); “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente, / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente.” (Fernando Pessoa ortónimo, Autopsicografia, 1933). Num e noutro destes excertos se exprime a distância entre um eu e outro eu: no primeiro caso, a distância, historicamente situada no século XVI, manifesta-se enquanto clivagem existencial, o “mim mesmo” declara-se “ymiguo” (“inimigo”) do “mim”; no segundo caso, ela institui-se enquanto raciocínio sobre a interacção do sofrimento e da criação.

 

 

 

 

 

 

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para a imagem utilizada e referências a Louise Bourgeois, utilizei o catálogo Louise Bourgeois, “HONNI soit QUI mal y pense”, SKIRA (Milano) / La Casa Encendida (Madrid), 2012; para Bernardim Ribeiro, segui a edição de Aquilino Ribeiro e M. Marques Braga, Obras completas, volume II, Livraria Sá da Costa, 2ª ed. 1971 (1ª ed. 1950); para Fernando Pessoa, recorri a uma obra mais-à-mão, Ficções do interlúdio, 1914-1935, ed. de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 1998.]

 

 

António Sá

[16.09.2017/12.10.2017]

 

Aproximações fotopictóricas 5

Aproximações fotopictóricas 5

 

 

 

Morandi 3 001

»»»»» Giorgio Morandi joga em contrastes quente/seco na sua Natura morta (1938), ainda que os quentes se limitem, isentos de decoratividade, a dois recipientes apenas dos onze figurados, e sendo um igual tom de vermelho-alaranjado ou laranja-avermelhado em dois frascos estrategicamente colocados em lugares lateralizados. Esse vermelho-laranja dá o tónus a esta pintura de objectos, todos vítreos. Os outros tons serão secos ou neutros, exceptuando o fulgurante branco, em objectos também estrategicamente situados, e exceptuando ainda o líquido azul na base de um dos frascos. Completam assim a paleta cromática esse branco fulgurante e o castanho-escuro, sendo neutro o tom do recipiente mais à esquerda.

»»»»» Tais contrastes contribuem, juntamente com a espessura da pincelada, para instituir a verdade matérica, qualidade reconhecida à pintura de Morandi. O laranja é a cor solar da energia e da verdade, neste caso, objectal, ao fazer confluir em si o vermelho e o branco: aquele é o que “está aqui e não longe”, como aponta Michel Pastoureau; este é expoente da simplicidade, da paz consequente ao trabalho humilde e reflectido (ou “entregue a Deus”, na senda cristã). E enfim, os tons neutros e os castanhos térreos contribuem à inflexão filosófica do todo em torno da verdade de uma existência material próxima, densa, apaziguadora.

 

 

Rui Monteiro 101 001

»»»»» Tendencialmente neutra é a “paleta” tonal dos cinco objectos que a obscuridade torna possível isolar, na fotografia de Rui Dias Monteiro da série As couves dormem sem manta (2013). Como em outras fotos já comentadas em Aproximações anteriores, a matéria de que são feitos os objectos tende a ser menos nobre do que nas telas de Morandi — ocorre no entanto o vidro. Mas o copo invertido, de vidro incolor, é uma forma industrialmente estandardizada, em confronto com as diversas formas dos vidros de Morandi, na linha de um design das primeiras décadas do século XX.

»»»»» Há um objecto branco-maculado que pode ser um rolo de papel de cozinha; uma bacia, acaso de cerâmica, de um ténue verde-azulado; e duas garrafas de plástico, uma bastante visível, reflectindo a luz, e a outra quase invisível, dela só se percebe um sinuoso contorno tocado pela luz.

»»»»» Objectos alinhados sobre uma mesa, como na tela de Morandi, mas não se distinguem pela cor, antes pela luz que sobre eles incide e respectivos reflexos. O contraste institui-se entre esta luz frontal e a escuridão do fundo. O todo convoca também o trabalho caseiro, subjaz-lhe sobretudo uma filosofia prática, utilitária; e a percepção comum vê materiais sobretudo voláteis: estão e já não estão, prontos para o desperdício e a reciclagem. Os objectos do cotidiano do século XXI não exigem afecto, nem pacificam, e o seu brilho é reflexo negligenciável.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

07.10.2017

 

Desatino 78

Desatino / 78 [Um voto ecuménico]           

 

»»»»» Para que todos possam reivindicar vitória nestas eleições autárquicas, tipo de eleições, aliás, em que todos e cada um sempre clamam vitória por isto e por aquilo… pois para que isso seja mais verdade, supõe-se que há que votar em todos os que, corajosamente, se candidataram a eleições, para o bem e para o mal… bem e mal deles e nosso, inocentes votantes… Eu explico: votar em todos significa mesmo votar em todos, trata-se aqui de um voto generosamente ecuménico, como com alegria declarou uma senhora, falando espontaneamente a propósito de umas eleições anteriores.

»»»»» Estou-me reportando a uma senhora do povo que, numa conversa captada pela câmara de Miguel Gomes, no Portugal profundo, explica às amigas como vota: põe uma cruzinha em todas as casas: “assim ninguém se fica a rir”. Este é, enfim, o voto ecuménico: e ninguém se fica a rir, ou ficam todos a rir-se. O filme em causa é As mil e uma noites: volume 1, o inquieto (Miguel Gomes, 2015), e este caso da feliz votante já o referi no Desatino 55 [Como votar], focado na crise dos trocos, ou da falta deles, que os portugueses e os bancos portugueses andavam a tentar resolver.

»»»»» Também expliquei na altura, para quem não se dá bem com quaisquer anarco-humorismos, que eu não vou nessa, ponho o meu voto numa casinha só…

»»»»» E enfim, para dar testemunho do meu civismo, faço votos de que votem, é imperativo votar, em-consciência ou em-inconsciência, à vossa escolha.

 

 

António Sá

[30.09.2017]