Monthly Archives: January 2018

Pluriplicante 11

Pluriplicante 11 (… sobre fantasias com que os humanos se distraem)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Um ataque sistemático de extraterrestres, instalados em pequenas naves tão indestrutíveis quanto destruidoras, pode reflectir os medos da população norteamericana, em plena época da Guerra Fria, consubstanciados na ameaça nuclear. Esta é a corrente interpretação para um filme de ficção-científica como War of the worlds (Byron Haskin, 1953), em muito cromático technicolor, baseado na célebre e homónima novela de H. G. Wells (1897).

 

Byron Haskin 1 001

»»»»» De acordo, mas acrescento as seguintes observações:

»»»»» Sendo as pequenas naves marcianas indestrutíveis, nem a artilharia convencional, nem a mais potente bomba atómica lhes provoca qualquer beliscadura, a dita Humanidade, aqui representada centralmente pela população californiana-branca, refugia-se em última instância nas igrejas e nas preces. Assim, a violência destrutiva, característica essencial dos seres humanos, vem a ser transferida para os alienígenas, ou seja, para o outro — entidade em absoluto poderosa, ao modo de um demiurgo, e assim imbuída de violência absoluta. Por contraste, para os humanos sobra a religiosidade, a hipnose espiritual das preces ao encontro do divino, à espera de um milagre. E… tal “milagre” acontece, sob a forma de bactérias. Os alienígenas respiraram a atmosfera terrestre e foram colapsando, as naves mortíferas despenhando-se por todos os lugares onde actuavam entretanto. Um comentário em voz off remata a ficção, sublinhando a ironia “miraculosa” que fez com que ínfimas “criaturas de Deus”, as bactérias, tivessem salvo a espécie humana da extinção.

 

Byron Haskin 2 001

»»»»» Todas estas fantasias primárias fazem, no entanto, figura de alto e subtil “pensamento”, se confrontadas com as actuais e presidenciais correntes de despenteamento mental norteamericano.

 

 

António Sá

15.01.2018

 

Advertisements

Pluriplicante 10

Pluriplicante 10 (Os assassinos morrem)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» A curta notícia, inserta numa coluna do jornal Público a 15 de janeiro de 2018, informa que morreu na prisão, aos 92 anos, Edgar Ray Killen. Nunca tinha tido conhecimento da sua existência, nem vi o filme sobre, e agora que morre leio estas linhas de jornal, junto com a foto, que a seguir reproduzo, para obviar a história:

 

Edgar Ray Killen 001

 

»»»»» Os assassinados era jovens activistas, nesses anos fatídicos para os negros norteamericanos, lembre-se, entre muitos outros, o assassinato de Martin Luther King: esses anos da década de sessenta: os jovens negros da notícia foram emboscados e mortos em 1964.

»»»»» O que foi e andou na cabeça deste assassino Edgar, explico-o em parte ou em partes: primeira parte, o animalhumano é essencialmente violento; segunda parte, o animalhumano tende a ser particularmente violento sob o sentimento do medo, real ou fantasiado, individual ou colectivo. Edgar Ray Killen, como todos os racistas e xenófobos, vivia, explico eu, sob a tão insuportável quanto fantasmática pressão do medo, indutora de patologias — o outro atemoriza as crianças, os débeis mentais, os ignorantes (de que as actuais classes médias estão prenhes). Estas são as partes que eu me explico, haverá outras acaso que não me sei explicar. Mas inda acrescento estas partes: o caldo de cultura puritana e segregativa anglo-saxónica (o negro é de uma “suja” fisicalidade exposta); o auto-desconhecimento de si-mesmo (e esta falha pode ter efeitos letais).

»»»»» Edgar Ray Killen era um chefe da Ku Klux Klan, em 1964, e até â morte terá mantido a sua perspectiva segregacionista, escreve a notícia. O nascimento desta organização racista é reportado — e de que grandiosa maneira! — pelo que eu reputo o mais genial realizador norteamericano do século XX, ou antes, o mais absolutamente genial do cinema tout court do século XX: David Wark Griffith. A maioria dos seus filmes data da época do cinema mudo, mas são todos mais sugestivos e luminosamente emotivos do que a maioria dos entretanto realizados até ao nosso século XXI. Um filme seminal da história contemporânea dos EUA, realizado por Griffith, é justamente The birth of a nation (1915). Ainda hoje está por esclarecer, ou eu estou por perceber, em que medida o realizador seria adepto do segregacionismo. Sendo um filme eminentemente épico, em toda a plenitude da palavra, pode parecer ambígua a sua euforia visual, mas não é necessário que seja lido enquanto apologético do poder branco.

 

 

António Sá

17.01.2018