notas & noções 14 (2ª série)

notas & noções 14 (2ª série)

 

a auto-reflexão e as impossibilidades

»»»»» Há uma capacidade que uns têm e outros não — constato-o, não o julgo — de produzirem uma reflexão sobre si mesmos e seus respectivos lugares no mundo, constituindo o conhecimento daí adveniente a possibilidade de serem — e de abrirem a outrem a possibilidade de ser. Essa capacidade, quando existe, acontece pelo menos desde a adolescência, funda-se simplesmente na educação vulgar e na experiência vivida, também ajudando alguns genes herdados (conceda-se que a inteligência herdada não é uma igual herança para todos os seres humanos).

»»»»» Trata-se tão-só da experiência vivida e sua filtragem emocional e racional ou emotivo-racional. As comuns actividades sociais, as conversas, as leituras certas (que não o de há muito invasor “lixo ocidental”, na fórmula de Marguerite Duras) e a fruição das várias modalidades artísticas que a cidade oferece — tudo é útil e necessário para a lúcida auto-reflexão e consequente autoconsciência. E, para estas, a psicanálise é um modo privilegiado, mas não indispensável. Também não são indispensáveis a caminhada-sem-objectivo, nem a meditação zen, nas quais centrei as notas & noções 13. Em suma, basta filtrar, com a sensibilidade e a inteligência disponíveis, a experiência vivida, analisá-la e reflecti-la (em todos os sentidos), para se ter uma noção aproximadamente justa sobre si-mesmo, e uma eventual relação justa com outrem.

Giorgio de Chirico 001

»»»»» Nessas notas & noções 13, apontei a inviabilidade dos seres obtusos, que tanto intrigaram Gustave Flaubert, e sobre cuja imbecilidade Baudelaire fez um mordaz poema-em-prosa, acederem a um conhecimento de si-mesmos e sua inserção no mundo. Quando muito, acedem a um autoconhecimento qualitativamente mais distorcido que no comum dos mortais (porque há sempre margens de distorção em todos os humanos). Tal decorre de uma incapacidade congénita que não sei entender: filtram a experiência vivida circunscrevendo-a a mecanismos e esquemas de funcionamento vital mais ou menos inflexíveis, e aí ficam enclausurados. Esta estrutura cognitiva da estupidez também ocorre nos neuróticos e nos psicopatas, mesma não sendo estúpidos, que podem não sê-lo.

»»»»» Nessa minha síntese comportamental e caracterial dos seres obtusos, anotei: a surdez-mental, ou seja, a incapacidade de escutar outrem, sendo que ouvir ouvirão, mas não escutam; anotei também as certezas inamovíveis, ou movivelmente dependendo das ditaduras e derivas da doxa, da qual, aliás, se alimenta o ser obtuso. Claro que a psicanálise lhes passa ao lado — só elaborariam a sua irremediável estupidez. Caminhada ou meditação, práticas relativamente minoritárias, também não lhes seriam úteis. Mas enfim, é certo que vivem felizes e contentes consigo mesmos; e são partícipes, para grande estrago, de parte substancial do governo do mundo — o mundo em rotação de que todos somos parte.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Registei, de há muito, esta feliz fórmula de Marguerite Duras, “lixo ocidental”, referindo-se a livros e filmes nulos, que invadem massivamente o espaço dito cultural. Tanto quanto lembro, ocorre numa entrevista.

»»»»» 2. O texto referido de Charles Baudelaire intitula-se Un plaisant, integrando a sequência Petits poèmes en prose (1855-1866).

»»»»» 3. Doxa é um termo cunhado por Roland Barthes para significar as mil e uma ideias~feitas, farrapos de ideias, inércias de ideias, tanto irreflectidas quanto correntes, que se impõem, nos espaços mentais das classes médias e populares, enquanto verdades tão “naturais” e “essenciais”, que nem é viável questioná-las: à doxa todos se devem submeter.

»»»»» 4. Para melancolizar estas notas, uma iconografia possível é a melancólica tela Mistério e melancolia de uma rua (Giorgio de Chirico, 1914). Um convite a uma caminhada ao longo das arcadas.

»»»»» 5. Para facilitar o confronto entre estas observações e as referidas notas & noções 13, constantes neste sítio, insiro-as a seguir.

 

António Sá

[06.02.2018]

 

 

 

 

notas & noções 13 (2ª série)

 

caminhar enquanto modo de silêncio e de autoconsciência, quando esta é viável

»»»»» Caminhar enquanto modo de buscar o silêncio ou, se acaso, a ressurgência interior. A acção, aqui, não tem outro objectivo senão o mesmo caminhar, ao contrário do comum das acções, essas que se realizam com um objectivo, e que são, quando não um modo de sobrevivência básico, uma forma de escape.

»»»»» O próprio silêncio, se ele existe, e ao qual procuram aceder os que praticam meditação zen; esse silêncio, se tal existe, seja ao menos uma aproximação ao silêncio, proporciona uma ordenação ou reordenação mental. Mas, bem-entendido, tal labor mental só é viável caso não se seja de todo estúpido, essa categoria tão inexplicável e misteriosa para Gustave Flaubert — e tão vastamente expandida.

»»»»» O silêncio interior entende-se enquanto modo de escuta atenta ao ser e ao mundo — e não é viável para os seres obtusos, que estão submetidos a uma inescrutável surdez-mental e a flácidas certezas; em consequência da surdez e das certezas, são judicativos, imperativos, invasivos, tão implacáveis quanto imunes a observações alheias; e são sempre inabalavelmente contentes e convencidos-de-si.

»»»»» E regressando ao caminhar sem outro objectivo que não seja o mesmo caminhar: Jean-Jacques Rousseau, Ralph Waldo Emerson, Arthur Schopenhauer, entre tantos outros, faziam e refaziam ideias caminhando.

 

António Sá

[28.12.2017/30.01.2018]

 

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