Monthly Archives: March 2018

“O excesso de gozo é dor”

“O excesso de gozo é dor”

 

»»»»» À partida, existe a plenitude, ou o motivo para a sua existência, que seria “(…) esta imensa ternura / de que me enche o teu amor?”, e que, embora em modo interrogativo, o deveria deixar “contente”; e ainda “(…) este gozar sem fim / que me inunda o coração”. E a este amor de outrem, o sujeito corresponde com um tipo de adoração: “Absorto em tua beleza”.

»»»»» Mas tal plenitude que o inunda está acompanhada de um distúrbio emocional, que designarei por melancolia da falha obscura. A ideia da plenitude está formulada ou em modo interrogativo, ou em contexto de negatividade: para tanto gozo amoroso “não há ser bastante” e, diz o sujeito, “falta-me a vida”. Esta falha é uma falha de natureza ignota, uma falha obscura, um estado de “(…) tristeza / vaga, inerte e sem motivo”. Sublinho esta caracterização: trata-se de algo que não acede a uma realidade vital (“inerte”), e que é desprovido de uma razão apreensível pelo sujeito (“sem motivo”): nesse estado se desencontra. Traduzindo “tristeza” por “melancolia”, julgo deixar clara a formulação que propus: melancolia da falha obscura.

»»»»» É assim o poema de Almeida Garrett a que tenho feito recurso:

 

 

Gozo e dor

 

Se estou contente, querida,

com esta imensa ternura

de que me enche o teu amor?

— Não. Ai! não; falta-me a vida,

sucumbe-me a alma à ventura;

o excesso de gozo é dor.

 

Dói-me a alma, sim; e a tristeza

vaga, inerte e sem motivo,

no coração me poisou.

Absorto em tua beleza,

não sei se morro ou se vivo

porque a vida me parou.

 

É que não há ser bastante

para este gozar sem fim

que me inunda o coração.

Tremo dele, e delirante

sinto que se exaure em mim

ou a vida — ou a razão.

 

Garrett 1 001

Retrato de Garrett, datado de 1834

»»»»» A plenitude não deixa de ser um elemento primeiro para a inteligibilidade do sentido, mas ao se combinar com o tipo de melancolia expressa, torna-se um sofrimento outro: “o excesso de gozo é dor”. Entretanto a conclusão, dada nos dois últimos versos, resulta convencionalmente lírica: este excesso no amor condena-o a perder ou a vida ou a razão.

»»»»» Anoto em coda que, num passado recente, um professor de medicina francês, Felix Plater (1536-1614), estabelece uma classificação das doenças mentais, entre as quais inclui, na classe das “De mentis alienatione”, a mania, a melancolia e o amor.

 

 

»»»»» Nota:

»»»»» O poema de Almeida Garrett foi recolhido na antologia Folhas caídas e outros poemas, introdução, selecção e notas de António José Saraiva, Livraria Clássica Editora, 2ª ed., 1962. Tomei a liberdade, no entanto, de não usar por sistema a maiúscula no início de cada verso, apenas a usando em início de frase.

 

 

António Sá

[21.03.2018]

 

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Romantismo tendência homo

Romantismo tendência homo (aproximações a um filme de Luca Guadagnino)

 

Aconselhamento paterno

»»»»» Ocorre um conselho, de entre vários numa conversa de pai para filho, já perto do final da película Call me by your name (Luca Guadagnino, 2017), quando, sentados num canapé da casa de verão, o pai arqueólogo desenvolve algumas reflexões, em forma de “educação sentimental”, para serem reflectidas pelo filho, adolescente de dezassete anos, em estado vulnerável: este rapaz acabara de sofrer a sua primeira perda amorosa, no adeus ao recente amante, que fora hóspede nessa casa de férias, na Lombardia italiana, durante o verão de 1983; recente amante que era um jovem adulto americano, arqueólogo-estagiário.

»»»»» Aquele conselho ocorre enquanto consolação possível: é importante que ele viva isso, ou seja, a experiência do sofrimento pelo termo de uma relação significativa, por isso mesmo irrepetível — por ser a primeira e por ser tão significativa. O pai percebe, pelo que viu acontecer e pela turbação em que vê o rapaz, que o que ele sentiu, ou eles sentiram, uma amizade, “ou mais que amizade”, concede benevolamente, foi algo que raramente acontece numa vida, ou nem chega a acontecer. Esse não-acontecer o pai reconhece consigo, na sua experiência, depreendendo-se, por essa revelação, que não inclui o seu casamento com a actual mulher no âmbito de tal “encontro” raro, acaso único, entre dois seres. E situa-se, neste seu aconselhamento: ele não é desses pais que prefeririam que o filho esquecesse tudo e depressa, tratando-se por acréscimo de um caso homoerótico, e se orientasse de preferência para as raparigas, com uma das quais passou por um envolvimento sexual, nessas férias. Demarca-se assim de uma visão normativa. Faz a revelação, que anotei antes, do não-acontecer passional ao longo do seu curso de vida, sem definir, no entanto, se os eventuais casos que lembra teriam sido hetero se homo, casos a que ele se furtou, ou que a ocasião não favoreceu.

»»»»» E é testemunha agora da emergência desse sentimento, algo para além da inteligência, diz ele, porque Oliver, o jovem arqueólogo, era constitucionalmente bom; e Elio, o adolescente, também, embora este considere o outro melhor, ao que o pai replica que o outro, reciprocamente, o considerará melhor…

»»»»» Perante a perda que testemunha, o pai expande a sua reflexão: Elio talvez preferisse sentir nada, quisesse esquecer, o que seria um desperdício, deixar de sentir o que essa experiência sentimental lhe proporciona — o sofrimento da perda e o prazer do que viveu, sendo este já memória. Daqui decorre que uma memória grata enriquece a sensibilidade, a capacidade emotiva: não dizendo isto, o pai diz, entretanto, que quem se esforça por “esquecer”, despende em tal esforço energias que o desgastarão e secarão emocionalmente a médio e longo prazo; só se tem um coração e um corpo, cada um decidirá o que fazer com eles; poderá o coração “esgotar-se”, e o corpo, esse, ao envelhecer, deixa de despertar atenção e desejo.

»»»»» O pai diz ainda, algo enigmático, mais ou menos isto: “a natureza tem um modo astuto de nos atingir no nosso ponto mais fraco”. A esta reflexão subjaz um propósito epicurista, de que a vida desta família judaica se aproxima. O modo serenamente “clássico” deste pai coaduna-se com a sua profissão de arqueólogo, desvendando fabulosos pedaços de membros e belos troncos sensualmente inclinados, atribuíveis a Praxíteles.

»»»»» Elio terá ponderado tais reflexões, e o último plano do filme, um longo plano fixo do seu rosto, iluminado pelas chamas da lareira, reflecte, pelos matizes emotivos, em milesimal underacting, e pelo que o espectador nesse rosto-espelho projecta, uma perceptível melancolia: estado de sofrimento, embora apaziguado pelo algum tempo que entretanto passou, do verão à paisagem de neve, descrição exterior dada previamente numa breve panorâmica.

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Tesão adolescente & ejaculação precoce

»»»»» O adolescente Elio passa por um envolvimento sexual com uma das raparigas que povoam essas férias, Marzia, e fala sobre isso com o pai e o jovem-adulto Oliver, mas utiliza-a um tanto como escape da sua frustração quanto às ausências nocturnas de Oliver, “traitor” pelo qual sente uma atracção-em-abismo. Aquele erotismo hetero do adolescente tem a sua máxima expressão narrativa na sequência em que ele conduz Marzia até ao sótão da casa. Esta sequência ocorre no contexto do que se afigura um avanço decisivo na aproximação que se ia delineando entre ele e Oliver: em resposta a um bilhete manuscrito, este último apraza encontrarem-se ali em casa, onde dormem em quartos contíguos, à meia-noite. Agora atento ao relógio, onde vai vendo durante o dia as horas ansiosas que faltam para esse encontro da meia-noite, Elio conduz Marzia até ao sótão, onde “passam o tempo” em actividades sexuais, mas já ficara explícito que, nas ocasiões de sexo entre estes jovens, tudo acontecia com algum descaso e ejaculação precoce do rapaz, que se desculpa por isso mesmo. Mais tarde, já numa das sequências conclusivas, Marzia entende a infelicidade de Elio e, não deixando ela de o amar de um amor sem retorno, concluem um pacto de amizade para-sempre.

»»»»» Também Oliver, por seu lado, dança com as raparigas, entra num jogo de sedução com a anterior namorada de Elio, para ambíguos ciúmes deste, mas tal flirt vai ter contornos fluidos, inconsequentes. De resto, as raparigas no filme representam um papel só decorativo, com excepção de Marzia, a tal jovem que confessa o amor a Elio. E é no âmbito hetero que Oliver se situa: na última sequência, já no inverno, ele telefona dos Estados Unidos, e anuncia o seu próximo casamento, desfecho de relações intermitentes com a actual noiva, ao longo de dois anos, diz ele.

»»»»» O campo que se define para Elio é o de uma sexualidade polimórfica, sendo a componente homo a que o domina, de modo sensualmente difuso e perverso: a vista do pescoço de Oliver, de onde pende a medalha judaica; o cheiro dos calções de banho do mesmo, deixados ao acaso, nos quais Elio envolve a cabeça; o toque com os dedos dos pés, já sentados ambos na beira da cama onde estão a tentear a primeira situação de sexo; a masturbação com o alperce a que tirara o caroço, em dia subsequente a esse primeiro envolvimento sexual. Mas antes de se chegar a este ponto de sexo acontecido, houve um quase hermético jogo de sedução e de hesitação da parte do jovem estagiário americano, enquanto Elio tendencialmente persiste sempre na aproximação sexual. Em algum momento em que eles se encaram, após uma conversa subtilmente reveladora conduzida pelo adolescente, e motivada à distância pelo comentário a uma passagem do Heptameron, Oliver diz “tu tornas as coisas difíceis para mim”, ou seja: ele encontra-se exposto ao desejo, mas quer furtar-se a uma situação socialmente comprometedora. E no entanto, tentara desportivamente uma sedução no campo-de-vólei, ao fazer-lhe uma massagem nos ombros, mas este gesto pareceu molestar o rapaz — Oliver confessa, quando a relação já era sexual, que tentara dar-lhe um sinal ao massajar-lhe os ombros, interrompendo a partida de vólei com as raparigas, na qual Elio não participava. Enfim, Oliver não quer envolver-se (“não me podes dizer essas coisas, não podemos falar disso”), mas não pode deixar de o fazer — o desejo prevalece e também, é possível induzi-lo tendo em conta o seu carácter, uma cedência generosa face ao apelo instante do rapaz, no qual percebe uma intensa angústia erótica.

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»»»»» Nesse momento de pequena perversão em que Elio, no sótão, se masturba para dentro de um alperce descaroçado, perversão que Oliver, entretanto aparecido, lhe descobre e lhe responde com outra perversão, que seria a de comer o alperce-masturbado, trava-se entre eles uma pequena luta, porque Elio lhe quer impedir esse gesto, luta defluindo numa quebra emocional do rapaz, que encosta a cabeça no peito do amante e diz-lhe a chorar: “I don’t want you to go”. Esta cena define uma inflexão no percurso do filme, que a partir daí vai conjugar a plenitude do prazer amoroso desabrochado com a melancolia prévia da separação prevista e por força inevitável. Espicaçado por esta melancolia, o prazer vai ganhar contornos de euforia exasperada na curta viagem que os dois fazem a uma estância alpina, viagem sugerida e proporcionada pelos progenitores de Elio, entendendo a amizade que liga o filho ao estagiário.

»»»»» E termino este texto no ponto onde terminei o texto anterior (Aconselhamento paterno, inserto neste sítio): o sofrimento frente à lareira, após o telefonema de Oliver, em que anunciava o seu casamento, e também constatava que o pai e a mãe de Elio sabiam o que houvera entre eles, felicitando-o pela sorte em ter tal pai, que o seu o internaria imediatamente numa “casa de correcção”; mas, mais importante, lhe diz que se lembra de tudo (“I remember everything”). Após estas palavras ao telefone, Elio curte frente à lareira o sofrimento, talvez rememore esse tudo que o outro diz lembrar, sendo aqui definível a sua melancolia enquanto essa mistura de memória do gozo e de sofrimento actual. Almeida Garrett define isto mesmo que entendo por melancolia na vertente sentimental, ou enquanto perda sentimental, por meio de um verso lapidar: “doce pungir de acerbo espinho”.

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Didactismos subjacentes

»»»»» Farei alguns reparos em relação a esta película, Call me by your name, a qual, apesar de agradável, apresenta limitações, quanto a mim, que decorrem da marca Ivory — James Ivory assina o argumento, mas creio que não só, a sua marca está impressa em vários aspectos do filme e, sendo marca, as tais limitações não serão limitações, serão fabrico-de-marca.

»»»»» Uma das facturas de marca reduz a atracção-em-abismo de Elio e o dilema moral de Oliver a uma correcta superfície, não por falta de recursos dos actores, mas por insuficiente densidade fílmica: a densidade, por exemplo, que Rossellini imprime aos abismos de Ingrid Bergman. Assim, a ideia que dá título ao filme, a de se nomearem os protagonistas em vertigem-amorosa pelos nomes trocados, fica-se por ideia-só, de que se rasurou boa parte da vertigem, simbolicamente figurada pela impetuosa queda de água das montanhas alpinas.

»»»»» Outra dessas facturas consiste em que, para lustrar essa mesma bela superfície, se afigure necessário utilizar a estatuária clássica como álibi da homossexualidade, recurso dos estetas dos séculos XIX-XX, e se torne inevitável incluir o diálogo justificativo sobre a inclinação dos corpos, apelo sensual, nas estátuas gregas atribuídas a Praxíteles,

»»»»» À marca Ivory acrescentaram-se uns propósitos didácticos: nada a opor a didactismos, não perturbando eles intrusivamente o fluxo ficcional, quando de ficções se trate, e aliás tais propósitos percorrem muito instrutivamente recentes filmes franceses de temática homossexual. Este filme de Luca Guadagnino, não sendo ostensivamente didáctico, distribui no entanto, pela sua trama narrativa, alguns ensinamentos para quem queira ou possa aprender com eles:

»»»»» Primeiro,) o da delicada teia que vem a ser a atracção física, nem sempre simétrica, e a revelação mútua da mesma, nem sempre fácil; revelação aqui moderada por uma passagem do Heptameron, lida num serão pela mãe de Elio.

»»»»» Segundo,) o do cuidado, na fronteira da insegurança, posterior à prática sexual — Oliver preocupa-se quase obsessivamente em saber se o adolescente não ficou sob alguma impressão traumática, e se continua com a vontade sexual intacta e desperta.

»»»»» Terceiro,) mais óbvio ensinamento, o proporcionado pela tranquila e longa conversa entre pai e filho, que vem mais longamente abordada no primeiro texto, sob o título Aconselhamento paterno, desta sequência de três.

 

 

 

NOTAS:

»»»»» 1. A obra Heptameron (publicação póstuma de 1559), colectânea de contos narrados em sete dias, da autoria de Marguerite de Navarre (1492-1549), é tema de uma conversa familiar, num serão chuvoso. Uma pergunta, feita pelo personagem de um dos contos, desempenha um papel significativo na revelação mútua do desejo entre os protagonistas do filme.

»»»»» 2. O verso de Almeida Garrett (1799-1854), cito-o de memória.

»»»»» 3. Os recentes filmes franceses muito instrutivos que me ocorreram são: Paris 05:59: Théo & Hugo (Olivier Ducastel e Jacques Martineau, 2016); Quand on a 17 ans (André Téchiné, 2016); 120 battements par minute (Robin Campillo. 2017).

 

 

António Sá

[31.01.2018 / 20.03.2018]

 

Desatino 82

Desatino / 82 [Areia-fruto]  

 

»»»»» Um repórter surge-me no ecrã televisivo, muito abrigado da chuva, de microfone em punho, e faz-me o ponto da situação:

»»»»» — A areia avançou para a estrada marginal, fruto da forte ondulação.

»»»»» Ele continuou, cheio de energia, a relatar a tempestade, mas eu já não ouvia o que ele estivesse a dizer. Fiquei para a manhã com aquela frase a pairar no pomar das lembranças, ia pensando que bom seria se todos os repórteres fossem assim poetas, ideando frutos das fortes ondulações.

 

 

António Sá

[03.03.2018]