Pluriplicante 12

Pluriplicante 12 (… sobre instituições)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» De vários comentadores, nas televisões, ouvi a espécie de confissão mística de que acreditam nas instituições. Confiam ou querem confiar nelas plenamente. Esquecem um pormenor, não despiciendo mas fundador: desde todos os tempos e para todos os tempos, as instituições são propriamente instituídas por seres humanos. Explicam tais comentadores que algum ou alguns destes seres, por comportamentos fraudulentos ou criminosos, mancharam ou conspurcaram esta ou aquela instituição, mas tais desvios ou crimes não são factores susceptíveis de minar a crença e a confiança nas instituições em causa, porque outros seres humanos impolutos e bons, substituindo os prevaricadores, farão esplender essas mesmas instituições.

»»»»» Estes propósitos vieram a propósito de um caso de contornos obscuros e guião detectivesco, que foi o roubo de material militar, guardado em paióis das Forças Armadas (FA), e posterior devolução do mesmo, caso em que, segundo se vem revelando, estão envolvidas altas patentes e chefias da Polícia Judiciária (PJ), da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia Judiciária Militar (PJM), e dele seria conhecedor o próprio ministro que preside ao Ministério da Defesa (MD). É mesmo assim: os criminosos e os coniventes e encobridores de criminosos, um dos quais revela que esteve em curso uma “encenação” no episódio de achamento das armas, situam-se no topo de algumas das mais determinantes e, diz-se, prestigiadas instituições da nação portuguesa.

Tancos 1 001

»»»»» PJ, GNR, PJM, MD — tudo siglas de instituições que, quais divindades contemporâneas, estariam acima da comum humanidade e, enfim, acima de quaisquer suspeições. Em contraponto, líderes de partidos à esquerda e à direita insistem, ajuizadamente, no necessário escrutínio das instituições. Creio, no entanto, que os escrutinadores serão seres humanos — logo, seres sujeitos a errar. Mas enfim, além de necessário tal escrutínio, eu acrescentaria que este fosse igualmente constante e ainda infinito… sabendo, embora, que há uma eterna mescla de ingenuidade, de invenção e de audácia humanas capazes de fintar todas as regras institucionais e todos os bons e maus escrutínios.

 

António Sá

15.10.2018

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