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Alguns livros ficcionais publicados, o último dos quais, "Reencontro", em 2009. A viver em Lisboa e escrevendo ora centradamente ora dispersamente.

Pluriplicante 8

Pluriplicante 8 (… sobre o ódio)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

Piqué 1 001

 

»»»»» De onde vem o ódio? Onde nasce esse núcleo duro de desafeição para com outrem? Onde e por que se aloja e permanece, reforça num progresso infinito cada dia, perseguindo o aniquilamento do outro odiado, e mal se regozijando com tal aniquilamento, se conseguido?

»»»»» Nesta sequência de interrogações surgem obscuridades, que talvez seja possível, se não esclarecer, pelo menos formular. Consistem elas em saber quem é esta entidade que ocupa o lugar do outro; e por que razão, obtido o aniquilamento desse outro, tal não produz mais que um regozijo acaso intenso mas breve, regressando o agente do ódio à inquietude inicial.

E, ao escrever inquietude, estarei a anotar uma característica essencial do sentimento que se identifica enquanto ódio.

»»»»» Avanço no entanto com respostas intuídas para estas obscuridades. O outro que cada um de nós odeia está dentro de nós, é a parte de nós que fomos ensinados a rejeitar; e o próprio esforço posto nesta rejeição constitui o núcleo duro do ódio. O membro actual da Ku Klux Klan odeia parte do animalhumano que há em si. É um ódio que se autodesconhece enquanto tal, participa do processo expurgatório, de circunscrição identitária, que preside ao crescimento emocional infantil. Odeia não o seu todo individual, mas essa parte sua do animalhumano que o ensinaram a considerar “má e rejeitável”, neste caso apontado como o negro, a etnia negra, afinal um eu-exterior, percepcionado como outro deficientemente humano e potencialmente ameaçador. Recusa a esse eu-outrado a parte de “humanidade boa” que considera ser a sua, a de um bom e exclusivo eu-interior, e assim não integra o negro enquanto essencialmente humano, o que lhe legitima uma política socialmente desintegradora, separatista. No entanto, uma vez aniquilado esse objectivamente outro e festejado tal exorcismo, o outro que está dentro de si, parte do animalhumano inconsciente e rejeitada por malévola, mas não extinta, esse outro-interior continua vivo e continua a exigir novos sacrifícios ad aeternum, na inquietude que não conhece descanso. Em modo de fábula, e com recurso à história europeia, imagino que um Hitler vitorioso que tivesse conseguido exterminar a “humanidade má” fantasmaticamente situada no exterior, ou seja, os judeus, os ciganos, os homossexuais (… e os negros?… e os ameríndios?… e os asiáticos?…) teria por fim de se exterminar a si mesmo, por não ser suficientemente ariano, já que nem era louro…

»»»»» Usei a frase “ensinaram a considerar como má e rejeitável”, no entanto aquele verbo, ensinaram, é insuficiente para descrever o processo educativo: trata-se de uma coacção. A educação humana (familiar, escolar, social) consiste em coagir de acordo com os circunstancialismos históricos, e não necessariamente com agressividade, mais bem com carinho e, num processo de crescimento e de integração, aceitar a coacção é um pressuposto para a sobrevivência do ser vivo jovem no seu habitat, na sua comunidade.

»»»»» Estas são “respostas intuídas”, como escrevi, mas obviamente subsidiárias de leituras freudianas. Em todo o caso, venha de onde vier o ódio, ninguém está imune a ele, e quem diz que não tem ódio dentro de si é porque não se (re)conhece, e encontrá-lo-emos em contradição incônscia talvez logo nos minutos seguintes, porque expressamos o(s) nosso(s) ódio(s), ligeiro(s) ou profundo(s), a cada minuto que passa (o facebook e outras redes sociais não vivem de outra coisa).

»»»»» Não estarei preparado para escrever sobre os meus ódios. Talvez o possa fazer de modo geral, deste modo: os meus ódios são imediatos ou adquiridos passo-a-passo, mas creio que as coisas são assim com todos os ditos humanos e até com os ditos animais (para estes recordo o especular e acutilante filme White dog (Samuel Fuller,1982), em que um possante cão de pêlo níveo “se revela” treinado para atacar exclusivamente negros). Mas sejam os meus ódios imediatos ou vagarosos, sou sempre escrupulosamente levado, é essa a minha natureza, a raciociná-los, a racionalizá-los e, por força disso, a racioná-los — um pouco de ódio, um pouco de compaixão por mim e por outrem.

 

 

 

 

»»»»» Referência iconográfica: a imagem é um pormenor de foto jornalística (Rafael Marchante / REUTERS). Mostra um adepto em pleno acto de ódio contra o futebolista catalão Gerard Piqué, por este ter manifestado o seu apoio ao referendo catalão relativo a uma possível independência. “PIQUE FORA”: o adepto (“fora de si”, ou seja, que se desconhece manifestamente a si mesmo) deseja tão-só ou, mais propriamente, tão-muito a eliminação de Piqué do futebol e, quem sabe, da vida. Assim está a ser o cenário do ódio.

 

 

 

António Sá

04.10.2017/14.10.2017

 

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Infinito pungimento

Infinito pungimento

 

»»»»» Obra de maturidade, do ano da sua morte, a série de seis painéis de Louise Bourgeois (1911-2010), água-forte e técnica mista, subordinada ao título geral de I give every thing away (Eu dou absolutamente tudo). Cada painel isolado tem, no entanto, inscrito um título próprio — é o caso do painel aqui reproduzido, em estrutura de tríptico, cuja secção central é usada para, em caracteres toscos, estilo art brut, se inscrever a frase I distance myself from myself (Eu distancio o meu eu do meu eu).

Bourgeois 100 001

»»»»» Cada painel desta série sêxtupla guarda a sua visceralidade essencial e o seu não-místico mistério, desvendável a uma interpretação próxima, não necessariamente fácil. Sem ter a pretensão de desvendar o mistério deste painel, interpreto-o como representação do fenómeno da maternidade, numa leitura literal. Assim, a figura à esquerda representa o primeiro myself, o eu-mesmo pletórico de si, interior corporal íntegro, cromaticamente preenchido de verdade física essencial (vermelhos-grená e brancos); a figura à direita será o segundo myself, o eu-mesmo que se distanciou do anterior ao potenciar-se em cêntrico nódulo: um feto nas suas circunvoluções, cromática verdade vital (os mesmos vermelhos-grená e brancos). Após esta leitura literal, poder-se-á sair à aventura metafórica: representa-se, neste painel, o movimento da concepção universalmente entendida, já não só universo reservado ao feminino, mas território da criação imaginativa em geral, artística em particular. A distância entre um eu-mesmo e outro eu-mesmo torna viável quer a gestação, quer a concepção. Afigura-se-me ser esse mesmo tipo de distância criativa que Fernando Pessoa ortónimo põe em jogo nas redondilhas sobre o fingimento do poeta.

»»»»» As figuras do painel I distance myself from myself contêm-se em recipientes, vasos preenchíveis, cujas partes superiores, as “cabeças”, estão “em branco”, ou seja, receptivas ao que venha do exterior para o integrar. Por hipótese, figuras da despreconceituação radical. Extensivamente, é-me possível considerar que tal despreconceituação constitua a única possibilidade fecunda para a criação, qualquer que seja o campo em que se exerça — criação (e não copy and paste), no infinito pungimento de retirar de si uma parte de si.

 

 

»»»»» Nota complementar: a leitura metafórica traz-me o eco de alguns versos de poetas portugueses: “Antre mim mesmo, & mim / nam sey que salevantou, / que tam meu ymiguo sou.” (Bernardim Ribeiro, século XVI); “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente, / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente.” (Fernando Pessoa ortónimo, Autopsicografia, 1933). Num e noutro destes excertos se exprime a distância entre um eu e outro eu: no primeiro caso, a distância, historicamente situada no século XVI, manifesta-se enquanto clivagem existencial, o “mim mesmo” declara-se “ymiguo” (“inimigo”) do “mim”; no segundo caso, ela institui-se enquanto raciocínio sobre a interacção do sofrimento e da criação.

 

 

 

 

 

 

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para a imagem utilizada e referências a Louise Bourgeois, utilizei o catálogo Louise Bourgeois, “HONNI soit QUI mal y pense”, SKIRA (Milano) / La Casa Encendida (Madrid), 2012; para Bernardim Ribeiro, segui a edição de Aquilino Ribeiro e M. Marques Braga, Obras completas, volume II, Livraria Sá da Costa, 2ª ed. 1971 (1ª ed. 1950); para Fernando Pessoa, recorri a uma obra mais-à-mão, Ficções do interlúdio, 1914-1935, ed. de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 1998.]

 

 

António Sá

[16.09.2017/12.10.2017]

 

Aproximações fotopictóricas 5

Aproximações fotopictóricas 5

 

 

 

Morandi 3 001

»»»»» Giorgio Morandi joga em contrastes quente/seco na sua Natura morta (1938), ainda que os quentes se limitem, isentos de decoratividade, a dois recipientes apenas dos onze figurados, e sendo um igual tom de vermelho-alaranjado ou laranja-avermelhado em dois frascos estrategicamente colocados em lugares lateralizados. Esse vermelho-laranja dá o tónus a esta pintura de objectos, todos vítreos. Os outros tons serão secos ou neutros, exceptuando o fulgurante branco, em objectos também estrategicamente situados, e exceptuando ainda o líquido azul na base de um dos frascos. Completam assim a paleta cromática esse branco fulgurante e o castanho-escuro, sendo neutro o tom do recipiente mais à esquerda.

»»»»» Tais contrastes contribuem, juntamente com a espessura da pincelada, para instituir a verdade matérica, qualidade reconhecida à pintura de Morandi. O laranja é a cor solar da energia e da verdade, neste caso, objectal, ao fazer confluir em si o vermelho e o branco: aquele é o que “está aqui e não longe”, como aponta Michel Pastoureau; este é expoente da simplicidade, da paz consequente ao trabalho humilde e reflectido (ou “entregue a Deus”, na senda cristã). E enfim, os tons neutros e os castanhos térreos contribuem à inflexão filosófica do todo em torno da verdade de uma existência material próxima, densa, apaziguadora.

 

 

Rui Monteiro 101 001

»»»»» Tendencialmente neutra é a “paleta” tonal dos cinco objectos que a obscuridade torna possível isolar, na fotografia de Rui Dias Monteiro da série As couves dormem sem manta (2013). Como em outras fotos já comentadas em Aproximações anteriores, a matéria de que são feitos os objectos tende a ser menos nobre do que nas telas de Morandi — ocorre no entanto o vidro. Mas o copo invertido, de vidro incolor, é uma forma industrialmente estandardizada, em confronto com as diversas formas dos vidros de Morandi, na linha de um design das primeiras décadas do século XX.

»»»»» Há um objecto branco-maculado que pode ser um rolo de papel de cozinha; uma bacia, acaso de cerâmica, de um ténue verde-azulado; e duas garrafas de plástico, uma bastante visível, reflectindo a luz, e a outra quase invisível, dela só se percebe um sinuoso contorno tocado pela luz.

»»»»» Objectos alinhados sobre uma mesa, como na tela de Morandi, mas não se distinguem pela cor, antes pela luz que sobre eles incide e respectivos reflexos. O contraste institui-se entre esta luz frontal e a escuridão do fundo. O todo convoca também o trabalho caseiro, subjaz-lhe sobretudo uma filosofia prática, utilitária; e a percepção comum vê materiais sobretudo voláteis: estão e já não estão, prontos para o desperdício e a reciclagem. Os objectos do cotidiano do século XXI não exigem afecto, nem pacificam, e o seu brilho é reflexo negligenciável.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

07.10.2017

 

Desatino 78

Desatino / 78 [Um voto ecuménico]           

 

»»»»» Para que todos possam reivindicar vitória nestas eleições autárquicas, tipo de eleições, aliás, em que todos e cada um sempre clamam vitória por isto e por aquilo… pois para que isso seja mais verdade, supõe-se que há que votar em todos os que, corajosamente, se candidataram a eleições, para o bem e para o mal… bem e mal deles e nosso, inocentes votantes… Eu explico: votar em todos significa mesmo votar em todos, trata-se aqui de um voto generosamente ecuménico, como com alegria declarou uma senhora, falando espontaneamente a propósito de umas eleições anteriores.

»»»»» Estou-me reportando a uma senhora do povo que, numa conversa captada pela câmara de Miguel Gomes, no Portugal profundo, explica às amigas como vota: põe uma cruzinha em todas as casas: “assim ninguém se fica a rir”. Este é, enfim, o voto ecuménico: e ninguém se fica a rir, ou ficam todos a rir-se. O filme em causa é As mil e uma noites: volume 1, o inquieto (Miguel Gomes, 2015), e este caso da feliz votante já o referi no Desatino 55 [Como votar], focado na crise dos trocos, ou da falta deles, que os portugueses e os bancos portugueses andavam a tentar resolver.

»»»»» Também expliquei na altura, para quem não se dá bem com quaisquer anarco-humorismos, que eu não vou nessa, ponho o meu voto numa casinha só…

»»»»» E enfim, para dar testemunho do meu civismo, faço votos de que votem, é imperativo votar, em-consciência ou em-inconsciência, à vossa escolha.

 

 

António Sá

[30.09.2017]

 

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

 

 

»»»»» Simetria no reclamar a dor como seu quinhão exclusivo, é esse o exercício discursivo de ambos. Algures na segunda metade do século XII, conversam musicalmente a trovadora (trobairitz) La Comtessa de Dia e o trovador (troubadour) Raimbaut d’Aurenga, seu amante amado, já que ela, nos seus versos, desdenhava o marido, que aborrecia, e encantava-se com o amante, ainda que nesta conversa entre os dois se queixe de ser a única a sofrer pelos cuidados, as incertezas amorosas, e de que ele não lhe corresponde inteiramente, deixando-lhe a ela todo o mal, e enfim pergunta por que não repartem o mal pelos dois. Ao que ele responde, cantando, que o amors entre dois amantes (amics) trabalha no sentido de distribuir males e alegrias conforme lhe parece, personificando assim a imagem do amors, mas acrescenta que só ele, sem querer gabar-se disso, tem de gerir todo o mal. Termino esta paráfrase como comecei: simetria no reclamar a dor como respectivo quinhão exclusivo.

»»»»» E anoto a insistência, própria do discurso amoroso, na noção de que o mal é inerente ao amor.

»»»»» Traduzo assim estas estrofes, originalmente em provençal:

 

La comtessa de Dia:

 

Amigo, em grande cuidado

estou por vós e grave pena;

e do mal que assim sofro

não creio que sintais nada.

Por que vos meteis em namorado

se a mim deixais todo o mal?

Por que não o partimos por igual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Dona, o amor tem tal trabalho,

quando dois amigos encadeia,

que tanto o mal, tanto a alegria

sente cada um, conforme ele o quer.

Que eu penso, e não sou gabarola,

que a dura dor de coração

tenho-a eu toda à minha conta.

 

 

»»»»» Estes amantes, pertencentes à nobreza provençal do século XII, nada tinham de malditos: exibiam os seus amores sem consideração pelos laços matrimoniais respectivos. É corrente os historiadores considerarem que foi neste lirismo, em que os versos eram cantados na corte, e de que se conhecem muitos registos musicais, que nasceu a concepção ocidental do amor, tal como actualmente o (re)conhecemos: amor sentimental sem barreiras legais e de grande envolvimento erótico.

»»»»» Tal surto cultural aconteceu numa região geográfica que compreende a Provença francesa e parte da actual Catalunha ainda espanhola. Escrevo “ainda”, porque estamos nesse momento histórico em que, dentro de dias, mais exactamente a 1 de outubro de 2017, se prevê que aconteça um referendo na Catalunha, que poderá decidir a independência da região. Quanto a isto, ocorre-me um imperativo histórico retrospectivo: a Catalunha devia-mesmo-de-ter encontrado a sua independência no século XII, como o fez Portugal, e tê-la mantido até hoje. Actualmente, a situação apresenta contornos mais ou menos agónicos, difícil que é a relação com Castela, e complexa que é com o desenho da Europa actual.

»»»»» Insiro a seguir a versão original:

 

La Comtessa de Dia:

 

Amics, en gran cossirier

suy per vos et en greu pena;

e del mal q’ieu en sufier

no cre que vos sentatz guaire.

Doncx, per que us metetz amaire,

pus a me laissatz tot lo mal?

Quar amduy no’l partem egual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Don’, amors a tal mestier,

pus dos amicx encadena,

que’l mal qu’an e l’alegrier

sen chascus, so’ill es vejaire.

Qu’ieu pens, e non suy guabaire,

que la dura dolor coral

ai eu tota a mon cabal.

 

 

 

 

Provença 1 001

»»»»» [Mapa do território dos poetas provençais no século XII]

 

»»»»» Nota: tendo já traduzido as canções que se conhecem de La Comtessa de Dia, tentarei fazer a tradução na totalidade esta tensão (tensó), produzida em colaboração e confronto com Raimbaut d’Aurenga, de que agora só apresento as duas primeiras estrofes, editando posteriormente, neste mesmo sítio, a tradução completa.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: seguiu-se a lição constante da obra em três volumes Los trovadores, historia literaria y textos, de Martín de Riquer, Editorial Ariel, Barcelona, 1992 (primera edición: 1975, Colección Ensayos / Planeta); para a imagem, pormenor central do território onde viveram os poetas provençais, utilizei a obra Chants d’amour des femmes troubadours,  de Pierre Bec, Stock/Moyen Age, Paris, 1995.]

 

 

António Sá

[27.09.2017]

 

Pluriplicante 7

Pluriplicante 7 (… sobre o futuro anarcocapitalista)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Transcrevo um parágrafo de uma obra de John Gray, referenciada no final:

 

»»»»» Todas as tentativas de modernização da Rússia através da adopção de um modelo ocidental falharam. Isto não significa que a Rússia não seja moderna. Muito pelo contrário, tornou-se pioneira do que poderá vir a revelar-se como a forma mais avançada do capitalismo. Das cinzas do Estado soviético emergiu uma economia hipermoderna — um anarcocapitalismo de alicerces mafiosos que se expande para Ocidente. A globalização do crime organizado russo verifica-se numa época em que as indústrias ilegais — droga, pornografia, prostituição, ciberfraude e actividades similares — são os verdadeiros sectores dinâmicos da maior parte das economias avançadas. O anarcocapitalismo russo dá abundantes sinais de poder vir a superar o capitalismo ocidental nesta nova fase de desenvolvimento.

 

»»»»» Em relação a este parágrafo, limito-me a fazer três observações e uma objecção:

»»»»» 1ª observação) Estes “alicerces mafiosos” da economia russa (entre outras economias) são comuns às actuais e multioperacionais “máfias chinesas”, eventualmente com um pé na legalidade, outro na criminalidade.

»»»»» 2ª observação) A pornografia não é propriamente ilegal, pelo menos nas democracias ocidentais (sê-lo-á na Rússia actual, não sei). Não é ilegal e constitui, até, uma das indústrias economicamente mais rentáveis, no domínio das publicações, da internet, dos gadgets, das sex-shops e dos “filmes para adultos”. Ilegal vem a ser, por outro lado, a venda de armamento fora do circuito oficialmente instituído, sendo no entanto um dos “sectores dinâmicos” de algumas economias e, diga-se, perversamente dinâmicos.

»»»»» 3ª observação) Com diferentes pesos, a ciberfraude usada nas recentes eleições dos actuais presidentes estaduniense, Donald Trump, e francês, Emmanuel Macron, constitui um primeiro e tímido ensaio do que pode vir a ser esse negócio no futuro, sabendo-se hoje que, para além do seu alcance manipulatório, se torna mais rentável uma apelativa, escandalosa notícia falsa (via número de cliques no like), do que uma notícia verdadeira, veiculada por jornalistas responsáveis: é conhecida a história do hacker que, instalado na Macedónia, produziu notícias absurdas, sobre Hillary Clinton, a coberto de uma quase-igual sigla da CNN, pura falsificação, e recebeu em casa cheques bem-providos graças à quantidade de cliques no like.

»»»»» Enfim, chego à objecção, a única que me ocorre. Na Rússia de Vladimir Putin, a tendência conhecida é a da concentração de poderes e controlo da comunicação social e da economia, tendo-se conseguido uma quase-total neutralização dos opositores ao regime. No entanto, como os regimes concentracionários tendem a ser corruptos, é provável que o actual regime russo viva, como as máfias, com um pé na legalidade, outro na criminalidade.

 

Rússia 1 001

»»»»»»»»»» [IMAGEM: pormenor de uma foto jornalística (Ilya Naymushin  / REUTERS).]

 

»»»»» Referência: o texto transcrito consta da página 155 de obra de John Gray Sobre humanos e outros animais, tradução de Miguel Serras Pereira, Lua de Papel, 2007 (título original: Straw dogs, Granta Publications, 2002).

 

 

António Sá

14.08.2017/23.09.2017

 

… vai lavar cabelos…

… vai lavar cabelos…

 

»»»»» Os cabelos da cabeça feminina invertida de Seeing is believing (L’île invisibke) pendem, junto com um aguaceiro, sobre a “ilha invisível” do subtítulo, não tão invisível que não se possa entrever. São cabelos abundantes, platinados, caindo oniricamente, enublando aéreos edifícios, no quadro surrealista de Roland Penrose (1937). Abundantes seriam os cabelos da jovem da cantiga galego-portuguesa “Levóus’ a louçana, levóus’ a velida” de Pero Meogo (segunda metade do século XIII) mas, como é próprio das cantigas de amigo, o retrato das personagens é sumário, assim não nos é revelada a cor dos cabelos, longos seriam, porque era de uso entre jovens e donas do século XIII, e assim longos ela vai lavá-los, depois de se ter levantado (“levóus’”). Seguem-se a cantiga e a interpretação mais estrita:

 

 

Levóus’ a louçana, levóus’ a velida,

vai lavar cabelos na fontana fria,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Levóus’ a velida, levóus’ a louçana,

vai lavar cabelos na fria fontana,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Vai lavar cabelos na fontana fria,

passou seu amigo que lhi ben queria,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Vai lavar cabelos na fria fontana,

passa seu amigo que muit’ a amava,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Passa seu amigo que lhi ben queria,

o cervo do monte a augua volvia,

leda dos amores, dos amores leda.

 

Passa seu amigo que a muito amava,

o cervo do monte volvia a augua,

leda dos amores, dos amores leda.         

 

 

 

 

»»»»» Construindo um fragmento de história, o jogral Pero Meogo narra esta sequência de acções matinais: a jovem, bela e amada (“louçana” e “velida”), levantou-se (“levóus’”) e foi lavar os cabelos numa fresca nascente (“fria fontana”), junto à qual passa o seu namorado (“amigo”); mas passa por ali também, a esse tempo, um “cervo do monte”, que vem beber e revolve a água da nascente (“a augua volvia”). O refrão da cantiga, em cruzada forma de palavras, ou seja, em quiasmo (“leda dos amores, dos amores leda”), repete quão alegre (“leda”) está a rapariga com a sua relação amorosa. Esta leitura literal tem muito de inocente narrativa; contudo, levando em conta a simbologia dos elementos convocados, o cervo e a água, descobre-se uma leitura segunda, à luz da qual se perfila uma sexualidade implícita. Num texto subsequente, tentarei explicitá-la.

 

Limbourg 1a 001

 

 

»»»»» Notas complementares:

»»»»» 1. O quadro de Roland Penrose encontra-se reproduzido junto com o texto intitulado Seeing is believing (L’île invisibke), que corresponde ao título da obra, texto inserto neste mesmo sítio.

»»»»» 2. Pero Meogo, jogral de quem nada se sabe, terá produzido as suas nove cantigas de amigo na segunda metade do século XIII.

»»»»» 3. A acompanhar este comentário à cantiga de amigo de Pero Meogo, junta-se a imagem de uma eventual nascente, vinda de entre o arvoredo, nascente que se espraia, e em cujas águas se banham alguns ceifeiros. É um pormenor de um conjunto de iluminuras realizadas pelos irmãos Limbourg, entre 1413 e 1416: portanto, à volta de cento e cinquenta anos depois de criada a cantiga.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição da obra Lírica profana galego-portuguesa, coordenada por Mercedes Brea, edição da Xunta de Galicia / Centro Ramón Piñeiro, Santiago de Compostela, 1996, tendo-se também consultado a edição crítica de José Joaquim Nunes, Cantigas de amigo, Centro do Livro Brasileiro, Lisboa, 1973; quanto à iluminura dos irmãos Limbourg, utilizou-se a edição do livro de horas Les très riches heures du Duc de Berry, Thames and Hudson, London, 1969.]

 

António Sá

[20.09.2017 / 22.09.2017]

 

 

 

»»»»» Insiro a seguir, por comodidade,  o texto acima mencionado (disponível no blogue “distracções”):

Seeing is believing (L’île invisible)

»»»»» Enorme cabeça feminina invertida, de suaves feições perfeitamente delineadas segundo o modelo dos magazines norte-americanos, cujos longos cabelos louros pendem na vertical, vão unir-se a uma ilha de arquitecturas urbanas em intersecções estilizadamente geométricas.

»»»»» Do mar que rodeia a ilha, e num primeiro plano, emerge uma mão isolada e vertical, de tons avermelhados.

Roland Penrose 001

»»»»» Obra de Roland Penrose (óleo sobre tela, 1937). Exemplo de uma utilização surreal da cabeleira loura, investida de um sentido arbitrário, se se quiser, ou acolhedor, neste caso associado à ideia de ilha, lugar simbólico de acaso salvamento, acaso salvação, enfim coesão, recolhimento.

António Sá

[02.01.2014]

 

Seeing is believing

Seeing is believing (L’île invisible)

»»»»» Enorme cabeça feminina invertida, de suaves feições perfeitamente delineadas segundo o modelo dos magazines norte-americanos, cujos longos cabelos louros pendem na vertical, vão unir-se a uma ilha de arquitecturas urbanas em intersecções estilizadamente geométricas.

»»»»» Do mar que rodeia a ilha, e num primeiro plano, emerge uma mão isolada e vertical, de tons avermelhados.

Roland Penrose 001

»»»»» Obra de Roland Penrose (óleo sobre tela, 1937). Exemplo de uma utilização surreal da cabeleira loura, investida de um sentido arbitrário, se se quiser, ou acolhedor, neste caso associado à ideia de ilha, lugar simbólico de acaso salvamento, acaso salvação, enfim coesão, recolhimento.

António Sá

[02.01.2014]

Desatino 77

Desatino / 77 [Abrir os crimes]       

 

»»»»» Cruzo-me na rua com duas mulheres nem novas nem velhas, nem bonitas nem feias — duas mulheres em tudo vulgares e anónimas, sem idade nem tempo, e diz uma para a outra, sendo isto tudo o que pude ouvir:

»»»»» — … recebi a encomenda, e pensei “devem ser os crimes”… e abri…

 

 

António Sá

[14.09.2017]

 

Pluriplicante 6

Pluriplicante 6 (… no reino dos assessores de Kim Jong-un e dos jurados do País das Maravilhas)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

Lewis Carroll 1 001

»»»»» No seu artigo “As mulheres de Atenas e o rapaz de Pyongyang”, a que faço referência no Pluriplicante 5, Nuno Pacheco insiste, com humor, nos eternos caderninhos que os assessores ou “homens fardados” de Kim Jong-un exibem, nas imagens de propaganda, junto com esferográficas. Qualifico-os de “eternos”, aos caderninhos, em acepções possíveis do adjectivo: por se eternizarem, figuradamente, ou seja, “aparecerem sempre” nas mãozinhas dos assessores; e ainda porque serão historicamente “eternos”, a arquivar agora e analisar depois o que neles terá alegremente sido registado — isto, se os caderninhos sobreviverem intactos às inclemências “naturais” da história das ditaduras.

Kim Jong-un 001

»»»»» Este afã de escrever em caderninhos é similar ao afã com que os jurados do tribunal dos Rei e da Rainha de Copas, no País das Maravilhas, escreviam em lousas, com os lápis próprios. Para quem não tenha ideia deste processo de escrita, explico que em lousas as crianças escreviam nas escolas do século XIX e parte do século XX. Lousas eram placas de uma rocha negra, do tamanho de um caderno A5, emolduradas de madeira; sobre elas se escrevia com um giz apropriado, que imprimia riscos brancos na placa negra e, quando necessário, esses riscos eram apagados com uma esponja húmida. Leia-se agora este passo de Alice no País das Maravilhas, e compare-se o afã dos assessores ao afã dos oníricos jurados:

 

»»»»» Os doze jurados estavam muito atarefados a escrever em lousas.

»»»»» — O que estão eles a fazer? — perguntou Alice ao Grifo em voz baixa. — Não têm nada para escrever, uma vez que o julgamento ainda não começou.

»»»»» — Estão a anotar os seus próprios nomes, com receio de se esquecerem deles antes do julgamento acabar — respondeu o Grifo, também em voz baixa.

»»»»» — Que estúpidos! — exclamou Alice em voz alta, indignada.

 

»»»»» Aconteceu que, num outro passo adiante, estes jurados, oníricas figuras animais, são derrubados por Alice que, tendo diminuído de tamanho, volta agora ao seu tamanho normal de menina. Foi quando ela se levantou, ao ser chamada para prestar depoimento:

 

»»»»» — Presente! — exclamou Alice, quase se esquecendo, com a excitação do momento, como crescera nos últimos minutos.

»»»»» Levantou-se com tal rapidez que deu um safanão na bancada dos jurados com a ponta da saia e estes caíram em cima da cabeça da multidão que se encontrava mais abaixo e espalharam-se. Isto fez Alice lembrar-se de um aquário com um peixe vermelho lá dentro, que ela derrubara na semana anterior.

»»»»» — Oh, peço desculpa! — exclamou, desolada.

»»»»» E começou a apanhá-los tão depressa quanto podia, pois continuava a pensar no acidente com o peixe vermelho, e tinha uma vaga ideia de que se eles não fossem apanhados imediatamente e postos na bancada, morreriam.

»»»»» — O julgamento não pode prosseguir — disse o Rei com uma voz muito solene — antes de os jurados se instalarem nos seus lugares. Todos eles — repetiu com grande ênfase, olhando fixamente para Alice.

»»»»» Alice olhou para a bancada dos jurados e reparou que, com a pressa, pusera o Lagarto de cabeça para baixo, e que o pobrezinho abanava tristemente a cauda, incapaz de mudar de posição. Pegou nele e pô-lo de cabeça para cima. “Não é que isto tenha algum significado especial”, pensou. “O julgamento correria da mesma maneira.”

»»»»» Assim que os jurados recuperaram um pouco do choque e as lousas e os lápis lhes foram devolvidos, entregaram-se afincadamente à tarefa de escrever a história do acidente, todos excepto o Lagarto que parecia ter ficado demasiado abalado para fazer fosse o que fosse. Ali ficou, de boca aberta, a olhar para o tecto.

 

»»»»» Estes infelizes jurados são varridos pela saia de Alice, mas recompõem-se, excepto o aturdido Lagarto. Se nos dermos ao jogo de ler isto aplicado premonitoriamente aos aplicados assessores de Kim Jong-un, vê-los-emos varridos pela saia dos tempos, tempos que talvez nem lhes concedam tempo para “escrever a história” de um eventual “acidente”, mas ficarão a pairar os seus sorrisos felizes no ar das fotos, como pairava no ar, sem corpo, o sorriso do Gato de Cheshire no pesadelo de Alice.

Lewis Carroll 1 001

»»»»» Referências: o artigo de Nuno Pacheco, “As mulheres de Atenas e o rapaz de Pyongyang”, foi publicado na edição de 07.09.2017 do jornal Público; para os passos transcritos de Alice no País das Maravilhas, utilizei a tradução do livro de Lewis Carroll por Maria Filomena Duarte, editada nas Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988, de cuja edição se reproduz uma das ilustrações originais de John Tenniel.

António Sá

12.09.2017