notas & noções 10 (2ª série)

notas & noções 10 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração física

»»»»» Na anterior destas notas, anotei a ameaça de desintegração psíquica numa canção de Lana del Rey, Born to die (2012), e derivei para os seus úteis, mas decerto juvenis, de algum modo pueris escapes. Escapes a uma eventual depressão? O ambiente da sua música envolve uma melancolia controlada, estilizada. Escapes a uma eventual depressão: este desagregador psíquico foi o motivo do telefonema de Lady Gaga ao Princípe William, ontem (18.04.2017) noticiado nas televisões.

»»»»» Numa canção da sua grande maturidade, Ready to begin again (Manya’s song) (1975), a cristalina Peggy Lee desenvolve uma espécie de renascimento, numa simbiose psico-física, contrariando a ameaça da progressiva ruína física. Esse renascimento consiste em sentir os dentes e o cabelo como se fossem os seus próprios dentes e cabelo; e a partir daí, munir-se dos seus adereços, caracteristicamente glamorosos e, assim equipada, acreditar-se “fresca e luminosa” (“fresh and bright”).

»»»»» Mas o lento acordar da canção, no seu moroso início, choca o auditório com imagens de um corpo já em despossessão de si mesmo: “Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama, / e o meu cabelo pende algures num cabide” (“When my teeth are at rest in the glass by my bed, / and my hair lies somewhere in a drawer”). Se o início da melodia é moroso, como um despertar em depressão para o mundo, logo o ritmo se vai animando, ganha uma velocidade que evoca Jacques Brel e até uma diluída ressonância circense, como se enfim o corpo, ferido pelo tempo, mas por ele adestrado, se oferecesse mais uma vez ao circo da existência social.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução para português das estrofes, uma pontuação normalizada da versão original;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado Mirrors.

 

»»»»» Pronta para começar de novo (canção de Manya)

Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama,

e o meu cabelo pende algures num cabide,

aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

já não um lugar agradável.

 

Mas eu tiro os meus dentes do copo junto à cama,

e o meu cabelo de um cabide à entrada,

ainda aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

não de todo um lugar agradável.

 

Mas eu ponho os meus dentes e ponho o cabelo,

e uma coisa estranha ocorre quando os ponho,

porque os dentes começam a sentir como meus próprios dentes,

e o cabelo como meu próprio também.

 

E estou pronta para começar de novo,

pronta para começar de novo,

a caminho do romance,

o coração cheio de esperança,

de novo, de novo.

 

Estou pronta para começar de novo,

sentindo como se estivesse a começar.

Agora não receio

subir as persianas

e encarar o sol.

 

Ponho as minhas braceletes e broches,

meus anéis e pérolas e grampos,

e enquanto o novo dia se aproxima,

enquanto o novo dia começa…

 

Estou pronta para começar de novo,

parecendo fresca e luminosa eu confio.

Pronta para começar de novo,

como toda a gente tem de estar.

 

 

 

 Ready to begin again (Manya’s song)

When my teeth are at rest in the glass by my bed,

and my hair lies somewhere in a drawer,

then the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place anymore.

 

But I take out my teeth from the glass by my bed,

and my hair from a drawer in the hall,

still the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place at all.

 

But I put in my teeth and I put on my hair,

and a strange thing occurs when I do,

for my teeth start to feel like my very own teeth,

and my hair like my very own too.

 

And I’m ready to begin again,

ready to begin again,

I’m reaching for the soap,

my heart is full of hope,

again, again.

 

I’m ready to begin again,

feeling like I’ve just begun.

Now I’m not afraid

to raise the window shade

and face the sun.

 

I put on my bracelets and brooches,

my rings and my pearls and my pins,

and as the new day approaches,

as the new day begins…

 

I’m ready to begin again,

looking fresh and bright I trust.

Ready to begin again,

as every body must.

 

Peggy Lee 1 001

 

 

»»»»» NOTA:

»»»»» De Lana del Rey foi utilizado o CD Born to die, Polydor (UK) / Interscope Records (USA), 2012; de Peggy Lee, o CD Mirrors, A&M Records, Hollywood, 1975.

 

 

António Sá

[19.04.2017]

 

notas & noções 9 (2ª série)

notas & noções 9 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração psíquica

»»»»» Acabei a última destas notas com a referência à longa vida poética das glosas à desintegração da matéria em geral, incluindo, claro, a matéria humana: “tudo o que existe tende a ser desintegrado”, escrevi. Não resulta difícil encontrar exemplos disso, associados ou não à temática amorosa, que tem sido, esta, a matéria mais tratada no lirismo. E a desintegração pode ser visada nas vertentes: física, a mais tradicionalmente corrente; e psíquica, mais modernamente recorrente.

»»»»» Encontro, na canção pop, um exemplo de alusões à desintegração psíquica em Born to die (Lana del Rey, 2012), alusões levadas a um terreno de explicitação não frequente no main stream da música pop-rock, mais dada a euforias ou a melancolias tipificadas. Mas é por meio de uma metáfora do corpo, dos pés que caminham, que surge a eventualidade da desintegração psíquica: “Pés, não me falhem agora. / Levem-me ao fim da linha. / Oh, o meu coração parte-se a cada passo / que dou.” E este “fim da linha” é partilhado com a pessoa amada, à qual se diz: “Escolhe as tuas últimas palavras. / Estes são os últimos tempos. / Porque tu e eu nascemos para / morrer.” A metáfora da caminhada, resolvendo-se acaso em alegoria representando o curso da vida, tem uma longa tradição em poesia, e sintetiza-se aqui nestes termos: “A estrada é longa, e aguentamos.”

»»»»» A desintegração psíquica aparece modalizada em sinais de dispersão (“Caminho ao longo das ruas da cidade, / será por engano ou desígnio?”); de insatisfação (“Algumas vezes o amor não basta e / a estrada torna-se árdua, / não sei porquê.”); de risco inerente à insatisfação (“Vem e dá um passeio no / lado selvagem.” E nestes tópicos ecoam canções de Lou Reed: o caminhar à deriva pelas ruas da cidade e a incursão pelo “lado selvagem” (“take a walk on the wild side”). Além deste eco, todas as imagens ressumam o estilo de vida norte-americano, tendência melancólica, e a memória cinematográfica, como em “Deixa-me beijar-te muito sob o / aguaceiro.”; ou em “Continua a fazer-me rir, vamos / pedrar-nos.”; ou ainda em “Sinto-me tão só numa Sexta / à noite.” Todo um repertório de situações comuns à vivência juvenil urbana.

»»»»» Nem tudo é perdição, no entanto: há este recurso salvífico: que o “fim da linha” seja partilhado com outro ser, cuja posse se reivindica: “Mas estou esperando frente aos portões, / que eles me digam que és meu.” Retenho esta imagem, “frente aos portões” (“at the gates”): portões que dão acesso a um mundo outro? ao além? Os “portões” instituem uma imagem forte, frequente nas alegorias religiosas e profanas. Lembro apenas os portões da alegoria kafkiana.

»»»»» E há outra salvação, que actua no presente: “agora me encontro” (“now I am found”); e encontra-se tendo vivido um satori, uma iluminação (sem embargo, de ressonâncias religiosas), essa mesma iluminação recorrente na música gospel da tradição afro-americana. Ela estava “tão confusa” (“I was so confused”) enquanto “criancinha” (“little child”), estava “cega” (“I was blind”), perdida, tentando agarrar o que podia, por temor de não encontrar todas as “respostas” (“answers”). Mas esta iluminação, neste contexto, reveste-se de conotações eróticas.

»»»»» E ainda outra salvação: a do omnipresente hedonismo-entretanto na nossa cultura: “Tentemos divertir-nos no entretanto.” (“Try to have fun in the meantime”). Hedonismo enraizado nas nossas agendas, mas persistentemente repreendido no discurso católico.

»»»»» Lana del Rey teve o talento, enquanto autora de lyrics, de reunir, num feixe alusivo, este complexo de tópicos intuitivamente entendíveis por um público urbano advertido. E com a evidência simples de não obliterar esse tabu da ocidentalidade padronizada, a morte. “Born to die”, diz ela.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução das quatro primeiras estrofes da letra da canção, as outras são constituídas por versos recorrentes;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado justamente Born to die.

 

 

 

»»»»» Nascidos para morrer

Pés, não me falhem agora.

Levem-me ao fim da linha.

Oh, o meu coração quebra-se a cada passo

que dou.

Mas estou esperando frente aos portões,

que eles me digam que és meu.

Caminho ao longo das ruas da cidade,

será por engano ou desígnio?

Sinto-me tão só numa Sexta

à noite.

Podes sentir-te confortável,

se eu te disser que és meu,

é o que eu digo, querido.

 

Não me faças triste, não me faças

chorar.

Algumas vezes o amor não basta e

a estrada torna-se árdua,

não sei porquê.

Continua a fazer-me rir, vamos

pedrar-nos.

A estrada é longa, e aguentamos.

Tentemos divertir-nos no entretanto.

 

Vem e dá um passeio no

lado selvagem.

Deixa-me beijar-te muito sob o

aguaceiro.

Tu estás pelas raparigas selvagens.

Escolhe as tuas últimas palavras.

Estes são os últimos tempos.

Porque tu e eu nascemos para

morrer.

 

Perdida, mas agora me encontro.

Já posso ver mas antes estava cega.

Eu estava tão confusa quando

criancinha.

Tentava agarrar o que podia

por temor de não encontrar

todas as respostas, querido.

 

Lana del Rey 1 001

 

 

António Sá

[09.04.2017/12.04.2017]

 

notas & noções 8 (2ª série)

notas & noções 8 (2ª série)

 

ordem e ordem nenhuma

»»»»» Fechei o texto anterior desta série com uma citação de Marco Aurélio (121-180), abro este com outra, apontando no mesmo sentido (e uso aqui esta palavra enquanto sinónima de “direcção”):

»»»»» “Uma de duas, ou um mundo perfeitamente ordenado, ou uma massa de matéria que para aí amontoaram sem ordem nenhuma.”

»»»»» Esta frase claudica por excessos quanto a ambas opções, que não se excluem uma à outra. E vou tentar explicar tais excessos a seguir:

»»»»» O mundo conhecido obedece a certas leis (vulgarmente ditas leis da natureza) que o organizam; e a certas irrupções que lhe suspendem ou destroem tais leis orgânicas que aparentemente o regiam: assim será impossível conceber um universo ordenado ao pormenor, “perfeitamente ordenado”, tanto quanto a palavra “ordenado” remete para “ordem”, na acepção comum. Por exemplo, a atracção de um qualquer corpo celeste, um planeta, ou mesmo uma nave espacial, para um buraco-negro, suspende irremediavelmente a ordem ou as leis orgânicas vigentes nesse planeta ou nessa nave espacial, e até a sua respectiva integridade, desintegrando-o. A não ser que se considere a anulação da matéria inerente ao regime de um buraco-negro enquanto participando da “ordem do universo”, mas então esta ordem integrará a imersão de tudo o que existe em episódios de caos desintegrativo e, participando a desintegração de uma ordem geral, absoluta, desaparece a distinção entre ordem e caos.

»»»»» Não se pode prever em que regiões do universo sairão, dispersas, as partículas em que se desintegra um objecto que entre num buraco-negro: segundo Stephen Hawking, partículas podem sair de um buraco negro, ao tempo em que este entre num processo de perda de massa. Esta imprevisibilidade, a nível cósmico, pode também ser exemplificada a nível terrestre, com as erupções vulcânicas e outros fenómenos naturais de carácter pontual, como a queda de um meteorito e, claro, a nossa própria queda acidental. Assim, sendo infinito o grau de imprevisibilidade no curso do universo e dos acontecimentos imediatos, pode ser um exagero, a partir de regularidades observáveis na natureza, postular uma “ordem do universo” ou, na expressão de Marco Aurélio, “um mundo perfeitamente ordenado”.

»»»»» Enfim: é decerto contestável que a matéria que nos constitui e nos rodeia seja uma “massa” amontoada “sem ordem nenhuma”. Enquanto organismos integrados, podemos fazer tranquilamente a vida de todos os dias, mantendo a nossa regularidade, acreditando nas “leis naturais” que regem o nosso mundo, sem recearmos tropeçar num meteorito, ou sermos engolidos por um buraco-negro. Vivemos uma ordem, uma “harmonia universal” — mas só aparente. Esta ordem contém em si o caos, uma vez que tudo o que existe tende a ser desintegrado, reduzido a partículas, a nada… é o assunto de muita poesia escrita pelos séculos fora.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O parágrafo de Marco Aurélio foi colhido em Pensamentos (Livro IV, 27). Utilizei a edição que tinha mais imediatamente disponível, da Editorial Verbo / Livros RTP, 1971, tradução de João Maia.

»»»»» 2) O funcionamento dos buracos-negros é explicado no capítulo 11 da obra de Stephen Hawking Buracos negros e universos bebés, Edições ASA, 2ª ed. 1994 (1ª ed. em inglês: 1993).

 

 

António Sá

[08.03.2017/24.03.2017]

 

 

Quatro castelãs no seu castelo

Quatro castelãs no seu castelo

 

 

»»»»» Nota: as duas fotos que acompanham este texto são a preto-e-branco, mas o filme é scopicamente e luxuosamente em CinemaScope, De Luxe Colour.

 

»»»»» CinemaScope, De Luxe Colour, estes são os meios necessários para se visualizar o esplendor dos longos cabelos, ou soltos ou caprichosamente penteados, de quatro noras, todas ainda jovens e todas, menos uma, não se sabe qual, já viúvas. As esplêndidas cabeleiras são: uma ruiva, outra negra, as outras duas louras: uma louro-platina, outra louro-dourado. Todas correspondem a mulheres de caracteres e temperamentos diversos, sendo a morena a mais sensual e aparentemente letal, tratada pelo protagonista como quem domestica um animal selvagem. Quatro mulheres assim cromáticas no écran, espectacularmente e diversamente hipervestindo-se, hipertoucando-se, eventualmente cantando e dançando para esse homem que aportou baleado à propriedade onde viviam, castelãs lá enclausuradas. Ele é um aventureiro de espertíssima perfídia, cinismo, amoralidade, e elas são quatro noras de uma anciã tirânica ferozmente, espingarda sempre pronta para qualquer disparo certeiro, discurso e olhar cortantes, impiedosos. Esta anciã é Ma McDade (Jo van Fleet), únicos cabelos grisalhos do filme The king and four queens (Raoul Walsh, 1956), e o aventureiro é Dan Kehoe (Clark Gable), rei provisório daquele castelo, caninamente, milimetricamente defendido por essa intangível actriz que foi Jo van Fleet, falsa anciã de trinta e quatro anos na vida, caracterizada para ser anciã neste filme, tal como naquele pelo qual é mais conhecida, onde contracena com James Dean: East of Eden (Elia Kazan, 1955).

 

 

Dan Kehoe (Clark Gable) no solo, baleado por Ma McDade (Jo van Fleet)

»»»»» É uma história de ouro, um western em que o ouro é objecto que todos mobiliza, para todos os males e para um relativo bem final, mas que não se vê senão em abstracto, subsumido na maleta enterrada nos arredores da casa, e depois em sacos de pano, alguns deles atirados para a poeira do caminho. E ninguém está a salvo das ambições e perversidades que o “vil metal”, na expressão de Camões, suscita. Este ouro que a todos consome, que se perde para muitas (todas, excepto uma) e de que poucos usufruem, apenas os mais maquiavélicos, e só parcialmente, a saber, Dan Kehoe (Clark Gable) e a ruiva Sabina McDade (a belíssima Eleanor Parker); este ouro lembra-me um outro ouro perdido, mas mais decididamente moralizante, o do conto O tesouro, do já inefável Eça de Queiroz, publicado na “Gazeta de Notícias” em1894; e ainda um outro ouro, que fica dolosamente “bem entregue” nas mãos “insuspeitas” de um xerife (Henry Fonda), esses sacos de ouro do lucidamente implacável There was a crooked man (Joseph L. Mankiewicz, 1970).

»»»»» Um nódulo portador de sentidos icónicos que transcendem a materialidade do representado, polarizando o imaginário, suscita-me a tensão-atenção — nódulo constituído pela série de planos concomitantes à acção do filme, que expõem a arquitectura, o conjunto edificado que habitam as quatro noras sequestradas pela sogra ferozmente armada não só da espingarda-a-prolongar-o-braço, mas de um exemplar da Bíblia que a municia de feroz conceptualização dos laços humanos: a memória dos seus filhos mortos, excepto um não-se-sabe-qual, só ela sabe e não o revela para manter as noras sob suspense e controle e respeito por essa memória, mesmo sendo memória de delinquentes relapsos, filhos-dela e maridos-das-noras, três dos quais mortos em confronto com as forças da ordem, estando o outro foragido. As quatro respectivas mulheres são assim as four queens e estão condenadas à abstinência perpétua, pelo menos até que apareça o foragido, para isso ali a sogra as enclausura.

 

Ma McDade (Jo van Fleet) faz badalar o sino entre três das suas noras McDade, faltando Sabina McDade (Eleanor Parker)

»»»»» Mas regressando ao conjunto edificado: difícil descrevê-lo. Surge por primeira vez num plano-de-conjunto: edifícios oblongos, compósitos, aplastados na paisagem árida, aberta; enegrecidos de uma fuligem intemporal, parcialmente derruídos. Na aparência um fortim, com anexos de tipo rural, conjunto de edificações isoladas num extenso vale protegido por montes rochosos, um forte usado na defesa contra os ataques dos índios, durante a saga de expansão para oeste, mas agora em abandono. O seu isolamento na paisagem evoca as muralhas de um castelo medieval que o tempo escureceu e vai corroendo, de que restem ainda troços de muros, uma torre sineira a emergir do destroço que fora uma igreja, além de um corpo central coeso e habitado. É o décor da maior parte da acção do filme, exteriores decadentes, interiores acomodados. Trata-se enfim de um castelo de épocas mais recentes, século XIX fictivo, sendo as castelãs as quatro coloridas noras, e a guardiã do castelo e da abstinência sexual. essa feroz sogra, personificação da lei ali vigente (diz ela, numa sibilina réplica a Dan Kehoe: “Aqui a Lei não entra”). A assegurar-me quanto a uma aproximação medieva, fixo-me na sequência em que este décor aparece primeiro: o cavaleiro, não medieval, apenas “herói” amoral deste filme, atravessa a ponte, que é de madeira mas não levadiça, e nessa travessia é ferido quase-de-morte pela guardiã, cujo tiro insuficientemente certeiro, para mal dela, sua futura despossessão do tesouro, não mata o intruso. Ocorre-me de seguida, associação divagante, o cavaleiro da ponte, tal como Bernardim Ribeiro no século XVI o imaginou, e assim como a imagem medievalista me ocorre, assim anacrónica a deixo aqui.

 

 

Referências

»»»»» Cinema: The king and four queens (Raoul Walsh, 1956); East of Eden (Elia Kazan, 1955); There was a crooked man (Joseph L. Mankiewicz, 1970).

»»»»» Escrita: Camões, Eça de Queiroz, Bernardim Ribeiro.

 

 

António Sá

[14.02.2012 / revisto a 18.03.2017]

 

O patético enquanto instância artística (“A morte de Maria Malibran”)

O patético enquanto instância artística (“A morte de Maria Malibran”)

 

»»»»» Exaustiva, acabada expressão da instância do patético, assim entendo Der Tod der Maria Malibran (A morte de Maria Malibran, Werner Schroeter, 1972). Tal expressão consubstancia-se nas infindáveis sequências de rostos femininos muito produzidos, maquilhados até ao regime de máscaras vivas, mais frequentemente dois, por vezes três rostos, os das actrizes Magdalena Montezuma, Christine Kaufmann, Ingrid Caven e outras, sempre em grandes-planos e planos-de-pormenor, rostos que se aproximam muito lentamente, numa atracção lânguida, um indecifrável êxtase mútuo.

Resultado de imagem para a morte de maria malibran de werner schroeter

»»»»» No decurso da construção-fusão magmática do filme, onde a regularidade são esses grandes planos recursivos de rostos femininos aproximando-se e rasando-se cariciosamente, essa instância do patético é pontuada por incursões no grotesco, em sequências onde vemos a Malibran, mítica cantora de ópera do século XIX, a vacilar penosamente num túnel ao fundo de um caminho rústico, ladeado de grades em ruína, e se ouve em off a referência à sua loucura, se conta como era apedrejada por crianças e as perseguia com um bastão; e a referência à sua pantanosa perdição, pântanos literais e simbólicos, a que se juntam citações relativas à morte aquática de Ofélia. Outras citações de Shakespeare ocorrem, noutros momentos, a respeito de Hamlet e do seu inescapável destino de vingança, e aqui é o trágico que se institui, mas o fio contínuo e condutor a que sempre se regressa é o do patético impresso nesses rostos inexpressivos em atracção inconclusa; só muito no final, numa coda, a aproximação de dois rostos vem a selar-se num beijo estático, boca contra boca.

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»»»»» Mas o grande contraponto ao patético é a emergência da crueldade, corporizada na figura paterna travestida de mulher, que vem a ser a actriz Magdalena Montezuma envergando fraque e chapéu alto. A crueldade consiste no acto de extracção, por este progenitor travestido, de um dos luminosos olhos azuis da Malibran, para que ela receba uma côdea de pão, na contingência de uma travessia pela floresta coberta de neve. A primeira imagem do filme é o plano-de-pormenor de uma incisão sangrenta na base da cavidade ocular. A insustentabilidade de tal violência é atenuada pelo esteticismo da imagem: só a parte inferior, abaixo do olho azul, sangra, o olho permanece intacto. Mas a imaginação do acto, assim elidido, arrepia. Esse plano-de-pormenor inicial reaparecerá mais tarde, reiteradamente, em momentos finais.

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»»»»» Excurso: arrepiantes, insustentáveis foram as imagens explícitas da invasão de globos oculares em filmes com L’âge d’or (Luis Buñual, 1930); Saló (Pier Paolo Pasolini, 1975); e um filme de Ingmar Bergman, cujo título não recordo agora, em que um casal idoso em conluio depressivo se vasa os olhos; e mal-incluo Edipo re (Pier Paolo Pasolini, 1967), porque esqueci a cena.

»»»»» Regressando ao filme de Schroeter, se nele se convoca a loucura e a crueldade, no contexto do seu fundamental patético, também se revela um filme eminentemente musical. É constante o fluxo musical e passa, obviamente, pela ópera, além de outras peças clássicas do Romantismo; algum kitsch latino e, sobre imagens de urbanismo contemporâneo, um tema do repertório de Marlene Dietrich.

 

António Sá

[21.01.2017]

 

notas & noções 7 (2ª série)

notas & noções 7 (2ª série)

 

não há consolação

»»»»» Dois usos para a palavra sentido, que inscrevi nas notas & noções anteriores: o uso leve, em frases como “com esta vitória, a minha vida ganhou novo sentido”, caso em que escrevo sentido sem aspas, e leio como significado (ou, extensivamente, objectivo, propósito); e o uso pesado, em “há um plano e um sentido divinos para a Criação”, e aqui sentido aponta para finalidade, fins últimos, sendo que, neste caso, escrevo a palavra com aspas, deixo assim em suspenso o seu valor significativo, mas trata-se de um uso particular-meu das aspas.

»»»»» E não retomo a clarificação do meu desentendimento com o “sentido”, enquanto “sentido” universal da vida, noção que considero inválida: já clarifiquei tal desentendimento, e até profusamente, em quase todas as notas & noções anteriores. Avanço agora para o aspecto subsequente, que consiste em expor as consequências ou, de modo mais preciso e mais justo, as autoconsequências desta invalidação. Aflorei-as já em notas & noções 2, onde escrevi:

»»»»» E não é, não tem de ser, com um sentimento de desconsolo, nem qualquer modalidade do desespero, que vivo tal ausência de “sentido”, não estou a abdicar do que os meus sentidos despertos actualmente me proporcionem, nem do prazer do raciocínio, da reflexão, da escrita. Será antes um sentimento de tranquilidade, de paz cósmica, assim entregue, sem teias de aranha místicas, nem culturais, na cabeça, entregue assim ao meu devir no seio do devir do universo.

»»»»» E também, de modo mais sucinto, em notas & noções 4:

»»»»» Não ressinto, enquanto falta, a ausência de “sentido” de tudo o que existe, enquanto existe, mas antes o considero ambiente natural humano em que tranquilamente me movimento, líquido amniótico.

»»»»» Tanto num excerto como noutro, descrevo um sentimento construído, ou seja, resultante de uma longa elaboração mental e sentimental, decorrente do processo de viver, elaboração em parte intuída e subterrânea (como se fosse pensando, mas não me esforçasse por trazer isso a uma luz clara); e em parte consciente e lúcida. Enfim, uma intuição-pensamento, ciclicamente mais intuição ou mais pensamento, que se sedimenta no que traduzo pela fórmula do início: sentimento construído. Mas o processo de construção, lento que foi, foi semeado de momentos e fases desse desconsolo-que-não-tem-de-ser, do convívio estreito com o absurdo do tempo e a obsolescência da matéria. Actualmente pacifica-me tal assunção, inspira-me essa paz cósmica, como enunciei; constitui o líquido amniótico onde me movo. É um sentimento construído estável, e nele confio, mas nada me garante a sua permanência, visto que nada no espírito humano pode ser considerado permanente. E não exclui uma espécie de luta constante contra um ocasional, acaso recorrente desânimo, face a cada mínima tarefa cotidiana que há que realizar-para-quê?, porque estar activo é condição necessária enquanto ser-individual e ser-em-relação. Desconsolo provisório, quando se alinham inúmeras tarefas repetitivas, de organização, de sobrevivência. No ensaio The silence of animals, John Gray aponta o caso do imperador Marco Aurélio (121-180) que, tendo de assegurar o cumprimento dos seus deveres, se fortalecia na ideia de que cada pessoa tem um lugar, um papel a desempenhar no esquema “natural” do mundo, e assim institui a natureza enquanto modo ordenador do mundo. No entanto… Marco Aurélio considerou só um aspecto da natureza… Esqueceu que a natureza é não só o modo da ordem, da harmonia, mas ainda o modo da desordem, da entropia.

»»»»» Tal como não encontro consolação no conceito cristão de um “sentido divino”, também esta consolação “natural” (tanto de natureza social, quanto da ordem dos acontecimentos), que Marco Aurélio adopta, não me é suficiente, ainda que a paciência (atributo do “justo”, na sua terminologia) seja um instrumento indispensável na condução da vida.

»»»»» Identifico-me antes com a configuração freudiana, exposta no ensaio acima citado, que consiste em aceitar simplesmente o caos. E acrescento e particularizo: o caos e a dissolução das sociedades, das nações, do universo; caos e dissolução finais, tão inevitáveis quanto irresolúveis e, para mim, não passíveis de efeitos mágico-transcendentais. No quadro freudiano, a psicanálise não se destinaria a “curar” os seres enquanto indivíduos, mas levá-los a aceitar o seu destino pessoal, constitucionalmente inescapável desde a primeira infância; pressupondo, entretanto, uma margem de liberdade e livre decisão.

»»»»» E acrescento enfim que Marco Aurélio, com muita propriedade, manifesta uma concepção do binómio caos / ordem, no seguinte parágrafo:

»»»»» “Estarás tu descontente da sorte que te coube no grande todo? Lembra-te então da disjuntiva: ou há uma providência ou mero concurso de átomos, e repassa as provas com as quais te demonstravam que este mundo está ordenado como uma cidade.”

»»»»» Bons tempos seriam esses, os de Marco Aurélio, em que a ordem da cidade… e do império… se afiguravam coisas fiáveis. Pela minha parte, confio mais no “mero concurso de átomos”; concurso este, repito, sem desnecessários “efeitos especiais” de teor mágico-transcendental.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Fiz recurso, como ficou escrito, ao ensaio de John Gray The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 2) O parágrafo de Marco Aurélio foi colhido em Pensamentos (Livro IV, 3). Utilizei a edição que tinha mais imediatamente disponível, da Editorial Verbo / Livros RTP, 1971, tradução de João Maia.

 

 

António Sá

[11.02.2017/05.03.2017]

notas & noções 6 (2ª série)

notas & noções 6 (2ª série)

 

o discernimento e a lucidez

»»»»» Intuição e razão, sensação e emoção — instrumentos que me ligam ao mundo e me permitem avaliá-lo — negam-me a hipótese de um “sentido” para a existência em geral. Assim, se não posso conceber um “sentido” universal para a vida, ele para mim não existe.

»»»»» Se a actividade e acuidade do espírito humano, a capacidade humana de discernimento e de lucidez não aponta, porque não concebe, esse mesmo “sentido”, então ele há-de ser dado como inexistente.

»»»»» Não se me afigura válido o argumento de que existe um sentido oculto, algo situado na esfera dos desígnios divinos, inalcançável pela razão humana, e não o valido por ser um argumento que: 1º) suspende a referida capacidade humana de discernimento e de lucidez; 2º) escora-se, ele mesmo, num uso reverso dessa mesma capacidade humana de discernimento e de lucidez. Ou seja, é um argumento que, a um tempo, usa soberanamente e suspende arbitrariamente o alcance da razão humana.

»»»»» Tal argumento, o do sentido oculto, constante do discurso católico, não podendo ser validado nem pela razão nem pela ciência, recorre em seu apoio à instância da para se autovalidar, mas segue-se que este recurso místico invalida qualquer hipótese de diálogo ou de razoabilidade: é um argumento terminal. Acresce que, talvez por intermédio da , torna-se viável alcançar o sentido oculto do universo e, com tal conhecimento, explicar e demonstrar em que consistem os “misteriosos” desígnios divinos, prescrevendo-se directivas estritas para a vida humana em função do respectivo “sentido”.

»»»»» Por outro lado, o mesmo discurso católico que, apelando ao “mistério” da , suspende ou infirma a capacidade humana de discernimento e de lucidez, convém que o ser humano foi “criado à imagem e semelhança divinas”…

»»»»» Para deixar esta nota & noção clara, retomo o mote inicial: a minha desafeição a um “sentido” para o universo é de natureza intuitiva e racional, sensorial e emocional. Ou ainda: todo o meu ser, tanto o animal quanto o humano, tem parte neste sentimento da ocasionalidade e deriva cósmicas. Ocasionalidade e deriva para o nada, pelo menos o nada para a vida terrestre, tão facilmente redutível a cinzas. E enfim: por que não considerar a hipótese, afinal a mais simples, de que toda a matéria-energia existente no universo realiza o grau zero de “sentido”, existe apenas por-existir e para-existir, alheia e desconexa de qualquer humana noção imperiosa e exigente de “sentido”. Como crianças mimadas, fazemos birra para obter um “sentido”, como elas para obter um brinquedo.

»»»»» E, escrevendo isto, entro em vertigem mental ao imaginar, num rapto involuntário, sistemas estelares, constelações, buracos negros, universos paralelos, se os há…

 

 

António Sá

[13.02.2017/17.02.2017]

 

notas & noções 5 (2ª série)

notas & noções 5 (2ª série)

 

a comum necessidade de um “sentido”

»»»»» Tenho afinal de ir-estando-enquanto, como ficou implícito em notas & noções precedentes, sem o sustento nem a morada de um “sentido”, pelo menos um “sentido” geral para a existência, incluindo assim no sem-sentido universal o “sentido”-para-mim ou, mais exactamente, o “objectivo” ou o “projecto” particular, que eu me tenha encontrado para uso próprio. Porque obviamente um projecto-para-mim que eu me forje não tem validade universal, nem sendo tão-só o projecto de me manter em vida: este mesmo só projecto, o de cada ser vivo conservar a vida, não constitui um “sentido”, realiza apenas aquilo que advém da emergência inútil do cosmos e sua respectiva expansão, além de que tal projecto ultrapassa o poder efectivo dado a cada um, que não pode projectar manter-se vivo: está todo o tempo de vida exposto à extinção.

»»»»» Assim, com a vida entre os parênteses da sua perecibilidade, como todas as vidas, posso conceder que forjei um “sentido”-para-mim, gerado na imersão cultural em que cresci e me formei, “sentido” (a que melhor chamo projecto), que só pode ser singular e precário (depende do meu devir mental e físico) e perecível (posso achar-me na contingência de o anular; em todo o caso, ele extingue-se com a minha morte).

»»»»» Sob um ponto de vista racional, um “sentido” global, universal, não é perceptível ou concebível pelo ser humano, e portanto, estritamente considerando, ele não existe, sendo que este é o ponto de vista de facto válido, não contando com fantasias e delírios religiosos e místicos em todas as suas formulações e variantes, dada a impossibilidade de validar tais construções subjectivas, por muito que se queiram autovalidar com recurso a inflações retóricas, as do mistério e da transcendência, de que tais construções discursivas estão armadas e armadilhadas.

»»»»» Entretanto, e não pondo de lado a minha convicção intuitiva e racional do sem sentido do universo e da vida, atendo a que os seres humanos têm necessidade, pelo menos enquanto seres conscientes-da-vida-e-da-morte, de ter ou de se constituir um “sentido”: é nesta necessidade que radica a emergência religiosa, de criação anónima, emanando de um espírito colectivo. Não se conhecem agregados humanos, desde as mais remotas idades, que não engendrem um culto dos mortos, um culto a qualquer transcendência. Em tempos historicamente recentes, as ficções ideológicas e as novas mitologias disputam o seu predomínio com as religiões na criação de “sentidos” universais para a vida: no caso das ficções e dos mitos recentes, não tanto “sentidos” divinos, antes teleológicos. O que sempre acontece, porque comummente o ser humano não pode estar-na-vida, ou seja, estruturar o seu curso de vida, sem a ilusão de um “sentido”; esta ilusão é como um instinto protector, destinado a garantir a estabilidade psico-emocional humana. Não será aconselhável, no caso de ser possível, o que não é evidente, retirar a qualquer humano esse conforto no divino ou no teleológico, sem o qual o seu equilíbrio funcional eventualmente entraria em colapso. É necessária alguma experiência vital e alguma elaboração mental, enfim um equipamento psíquico e existencial, para se ser capaz de dispensar ilusões e ficções.

»»»»» E considero que os mitos têm o seu papel e a sua bondade na criação de objectivos e projectos, mitos enquanto mitos, ou seja, edifícios mentais. Por exemplo, tem a sua terna bondade o mito expresso na canção Imagine (John Lennon), mito pacifista, de carácter utópico, da harmonia do mundo, mundo desprovido de autoritarismos, que destroem os equilíbrios e as felicidades; harmonia tanto concebida a nível social, quanto entendida num âmbito inter-nações. Os mitos, arcaicos e recentes, não dispensam a análise crítica: aparecem revestidos de gangas ilusórias, totalitárias, transcendentais. Lembre-se o mito ariano-nazi da “raça pura”; tal como os mitos, aqui e ali reivindicados, do “povo escolhido de Deus” (Camões andou por aqui, quanto ao povo lusíada). Roland Barthes interpretou criticamente, em Mythologies, mitos actuais cotidianos. Convém interpretá-los, analisar a sua substância à luz do nosso entorno e da nossa existência, mas não deixam de ser um auxiliar, omnipresente e disponível, na criação ou adopção de perspectivas para uso particular.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O enredo conceptual constituído pelos termos ilusão, ficção e mito foi colhido no ensaio de John Gray The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 2) De Roland Barthes refere-se o ensaio Mythologies, Éditions du Seuil, 1957.

 

 

António Sá

[11.02.2017/15.02.2017]

 

notas & noções 4 (2ª série)

notas & noções 4 (2ª série)

 

sobre o “sentido” e as leituras adolescentes

»»»»» Não ressinto, enquanto falta, a ausência de “sentido” de tudo o que existe, enquanto existe, mas antes o considero ambiente natural humano em que tranquilamente me movimento, líquido amniótico.

»»»»» Acaso me foi assim sempre? Desde a adolescência que fui definindo um “sentido” para-mim, para o meu percurso: a escrita criativa. Despertou-me fortemente para isso a leitura da tradução portuguesa do romance-diário A náusea, de Jean-Paul Sartre. Teria os meus dezasseis anos, e li essa obra na tranquila e bem iluminada Biblioteca Municipal de Nova Lisboa, Huambo, em meados dos anos sessenta do século XX. Escrevo “fortemente”, porque já antes me sentira estimulado pela leitura dos deliciosos diálogos de Os desastres de Sofia, da Condessa de Ségur; e a leitura de uma novela de que lembro o título, Em pleno azul, mas não lembro o nome da autora, portuguesa esta; e enfim, na dita biblioteca, a leitura de uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry creio que de André Maurois, e muito me empolgou a vida do “piloto de guerra”; e logo, em contexto liceal, a incursão em L’île des pingouins, de Anatole France, leitura já no francês original. Mas a leitura devastadora foi mesmo a do romance-diário sartriano: fiquei num torpor psicológico, uma primeira experiência do que hoje se chama depressão, e a que eu à época não sabia dar nome, cuja duração contabilizei em catorze dias, não sei por que assim contabilizei. Entretanto fazia a minha vida escolar e familiar cotidiana, força do hábito, embora a minha cabeça estivesse habitada pelo fantasma do nada que o livro me convocara e em que me deixara.

 

 

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Li Sartre numa edição da Europa-América, 1964, com uma belíssima capa avermelhada, em tradução de António Coimbra Martins.

»»»»» 2) Dos outros livros referidos, não sei nem lembro a edição em que os li, excepto a obra de Anatole France, edição da Le Livre de Poche.

 

 

António Sá

[01.01.2017/07.01.2017]