Tag Archives: autoritarismo

Desatino 59

Desatino / 59 [Ironia arrepiante? / 3]        

»»»»» Registei ironias arrepiantes da ex-ministra conservadora Manuela Ferreira Leite. Ironias ditas com o seu rosto pré-pós-fechado, mas ironias quand-même. Estão registadas, as ditas ironias arrepiantes, nos Desatinos 56 e 57. Neste novo Desatino, quinquagésimo-nono, registo uma mais que duvidosa ironia arrepiante, por isso lhe posponho um ponto de interrogação. A ser ironia, seria genialmente anti-autoritária; não sendo ironia, é apenas um statement autoritário. Disse a senhora, na sua conversa-entrevista num canal televisivo português, quinta-feira, quinze de outubro, que o Partido Socialista estava realizando um “golpe de estado” ao negociar, antes da formação de um governo e no contexto de gerais negociações para a eventual formação de um governo: estaria enfim este Partido de esquerda socialista realizando um “golpe de estado” ao negociar com o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, partidos ambos de esquerda à esquerda do Partido Socialista. A não ser ironia genialmente arrepiante, será a evidente manifestação de um fundo-profundo desiderato — a de que os partidos que constituem a coligação da “sua” direita liberal realizem um “golpe de estado” mágico, até com enlevo do Partido Socialista, de modo a instituírem-se enquanto maioria autoritária. É o evidente desiderato que se revela a contrario: é próprio do bicho humano apontar os outros por aquilo que ele-mesmo é ou quer. Mas, congeminando-o, a ex-ministra-hoje-golpista entressonharia qualquer coisa assim ao modo “português suave”, tanto que ninguém, nem mesmo o mais radical opinador de esquerda se lembrasse de contra-utilizar a expressão “golpe de estado”.

António Sá

[22.10.2015]

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Desatino 57

Desatino / 57 [Ironia arrepiante / 2]          

»»»»» Esta ironia é de Manuela Ferreira Leite, ex-ministra de um governo social-democrata, mais exactamente o Partido Social Democrata [PSD].

»»»»» A outras ironias desta senhora dediquei o anterior Desatino, quinquagésimo-sexto. Mas algum ano antes, já neste século XXI, foi produzida uma ironia arrepiante que provocou grande indignação e arrepios entre os comentadores no espaço virtual, essa classe de infelizes-felizes que disparam primeiro e pensam depois. Tais não entenderam a ironia arrepiante, que consistiu em declarar, dadas as indecisões e tendenciais recuos e recursos populistas por parte dos decisores políticos: face a tal impasse governamental, a ironia consistiu em declarar que, suspendendo-se a democracia por seis meses, os decisores poderiam então decidir autoritariamente e assim ultrapassar o impasse. Queria ela significar que a democracia exige processos negociais, eventualmente morosos, para resolver situações que um regime autoritário resolve expeditamente, ainda que em detrimento da dignidade e da vida de alguma parte da humanidade, quando não de toda a humanidade. Exemplo flagrante e holocáustico desta suspensão da democracia foi o regime hitleriano que, em seis anos de poder autoritário (1933-1939), criou a mais destrutiva das máquinas-de-guerra, que pôs o mundo a-ferro-e-fogo, nessa Segunda Grande Guerra, quando se aproximavam os meados do infausto século XX.

António Sá

[10.10.2015]