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Distracção 48

Distracção / 48 [Senhor, por que lhe dais tanta dor?]

 

 

»»»»» Estava o filósofo perorando incompreensivelmente do baixo da sua cátedra, que era o banco favorito do seu jardim camarariamente apocalíptico-transqualificado. Digo não do alto, mas do baixo da sua cátedra, porque estava na sua pior posição possível, mas às vezes está assim: deitado de costas sobre o banco, com a cabeça pendendo para fora, a rasar o empedrado. Temi pela sua integridade, como temo sempre que o vejo assim de cabeça pendida, mas o homem estava vivo e palrador, e aproveitou-se do ver-me espiá-lo temeroso para levantar a voz perorante:

»»»»» — Dizem que o senhor dos Passos, que governa o que pode… enfim, é governado pelas estratégias empresariais e bancárias… governança com a sua inteligência até… inteligência deglutidora, enfim… esse senhor dos Passos anda a ser acusado de não pagar as contribuições devidas à Segurança Social. Mas… o que é isso?… Eu não entendo… não entendo mesmo… Pode-me explicar o que é isso de “Segurança Social”? É coisa de distribuir bolachas, salsichas, laranjada?… Bom, eu cá não pago nada! Mas… e o senhor dos Passos… havia de ter de pagar?… mas porquê, Santo Deus?! — e erguendo os braços aos céus: —  Oh meu Deus, por que dais tanta dor ao senhor dos Passos?! Acusam esse senhor de cada coisa! O que mais hão-de ir buscar, para lhe dar ralações? Coitadinho! Eu isto não percebo… Não percebo as pessoas…

»»»»» — Fala do senhor governante, não é? — perguntei, interdito com aquela argumentação piedosa. — Se calhar tem razão. Ele diz, com humildade, que não é perfeito…

»»»»» — E eu?… Eu sou perfeito, por acaso?…

»»»»» — Claro que sim. Você é perfeito — disse eu, e logo levei mentalmente as mãos à cabeça, surpreendido comigo mesmo por ter adiantado tal juízo precário sobre aquele sem-tecto, assim ao desamparo, e tão solidário com o senhor dos Passos.

 

António Sá

[04.03.2015 / 06.03.2015]”

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