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Três mal talhados

Três mal talhados

 

»»»»» Como se instituísse um concurso de beleza masculina ao contrário, ou seja, um concurso de fealdade, o escudeiro Afonso Anes do Coton começa por pôr-se a si mesmo em concurso: considera-se um exemplar masculino “mal talhado”. O “talhe” é o modo como o corpo humano está esculpido, tanto por obra da natureza quanto por trabalho físico. Na lírica galego-portuguesa do século XIII, abunda a figura da “bem talhada”, sobretudo nas cantigas de amigo, sendo incomum a referência no masculino. Assim, só no contexto do escárnio, trata-se aqui de uma cantiga de escárnio, se entende o recurso ao retrato masculino e, bem entendido, retrato negativo: o homem “mal talhado”. Como registei a princípio, o escudeiro começa, muito saudavelmente, por pôr-se a si mesmo em concurso; e logo a seguir alinha o “mouro” Joan Fernández: são ele e este “mouro” igualmente “mal talhados”. A estocada maldosa está no seguinte alinhamento: Pero da Ponte, esse, é muito pior talhado (“moi peor talhado”), ou seja, não bastando ser pior, ele é comparativamente muito pior. E a maldade do escudeiro sublima-se com a visão sugerida de um “Pero da Ponte en cós”, visão decerto dantesca de um corpo mal feito e exposto numa quase nudez (“en cós”). A expressão “en cós” significa “em trajos menores”, enfim, em roupa interior.

»»»» Desta cantiga assim escarninha só se conhece uma estrofe, e diz o seguinte, traduzindo em prosa: “A mim situam-me, e não é descabido, / entre os mal talhados (= os mal feitos de corpo), e não erram nisso; / Joan Fernández, o mouro, igualmente / entre os mal talhados o vejo contado; / e, pois que mal talhados somos nós, / se alguém visse Pero da Ponte en cós (= em roupa interior), / parecer-lhe-ia muito pior talhado.”

»»»»» Transcrevo adiante o saboroso texto original:

 

A min dan preç’, e non é desguisado,

dos mal talhados, e non erran i;

Joan Fernández, o mour’, outrossi

nos mal talhados o vejo contado;

e, pero mal talhados somos nós,

s’omen visse Pero da Ponte en cós,

semelhar-lh’-ia moi peor talhado.

 

»»»»» Pero da Ponte era um escudeiro trovador contemporâneo de Afonso Anes do Coton, sendo este, também escudeiro, um trovador activo em meados do século XIII: terá participado no cerco ao castelo mouro de Jaén em 1246.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição de Manuel Rodrigues Lapa em Cantigas d’escarnho e de mal dizer (2ª ed., Editorial Galáxia, 1970); colheram-se informações sobre o trovador nas obras Depois do espectáculo trovadoresco (António Resende de Oliveira, Edições Colibri, Lisboa, 1994) e Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, Lisboa, 1993).]

 

António Sá

[22.05.2017 / 02.06.2017]

 

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