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Camões compara-se a outro

Camões compara-se a outro

 

»»»»» Foi assim. O fidalgo José Lopes, vivendo jovem nos meados do século XVI, foi proibido de entrar numa casa onde decorria uma festa galante, como castigo por ter estado a espreitar as jovens que aí habitavam. Este é o antecedente “criminal” desta pequena história. Camões pôde entrar na festa, embora fosse de “baixo estado”, ou seja, socialmente inferior ao dito fidalgo. E deduz que este gostaria de ter trocado com ele, de modo a ter estado na festa, porque aí Camões conversou com a excelente rapariga que era a amada de João Lopes e, ao ouvi-la, ficou rendido à suavidade e às palavras extraordinárias da moça. Mas, apesar disso, não pôde aspirar a ela, por ser socialmente inferior. Enfim, esta é a versão que o poeta nos conta no soneto “Senhor João Lopes, o meu baixo estado”. Lamento por ele, a cerca de cinco séculos de distância.

»»»»» Vejamos, um por um, os três intervenientes deste caso:

»»»»» 1. João Lopes suscita inveja ao poeta, visto que, por hipérbole, suscita “enveja a toda a gente”, seguramente pelas suas qualidades e pelo seu “estado”, a sua categoria social; além disso, ele está enamorado pela rapariga que o fez experimentar os altos e os baixos do amor, ela fê-lo sentir-se, por antítese, “contente e descontente”. João Lopes Leitão era amigo de Camões, na Índia.

»»»»» 2. Da jovem não saberemos o nome, resta-nos um retrato dentro dos padrões convencionais de retrato da bem-nascida: tem um “gesto (= rosto) suave e delicado”; a sua fala expande-se “tão docemente” que, por hipérbole, torna “o ar sereno e sossegado”; além de falar assim, o que diz é extraordinário, “em poucas palavras” ela diz “quanto / ninguém diria em muitas”, outra bela hipérbole.

»»»»» 3. Quanto ao terceiro vértice deste triângulo, o poeta, conhecemos que socialmente se considera de “baixo estado”, o que o deixa em perda na comparação ou competição com o fidalgo; e sabemos que fica “cego”, ou seja, tomado de um amor-imediato em presença das perfeições da jovem, mas fica “magoado” ouvindo a “doce fala”, porque tem de abdicar desse amor-à-primeira-vista. Assim, ele maldiz a “Fortuna”, porque “desiguala” os “estados”, as posições sociais; e maldiz o “Moço cego”, ou seja, o menino-deus do amor, Cupido, porque “os corações obriga”, ou seja, instala o amor nos corações humanos.

 

»»»»» Segue-se a história, contada pelo próprio Camões:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado,

que já vos fez contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

»»»»» Nota:

»»»»» Para a transcrição do soneto, utilizei a edição das Rimas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Atlântida Editora, Coimbra, 1973. Segui a lição aí constante, excepto em algumas vírgulas, cuja posição me atrevi a corrigir. Por essa razão, e para quem queira cotejar, transcrevo fielmente a lição do erudito, com as vírgulas no lugar onde ele as pôs:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado

que já vos fez, contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer, quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna, e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

 

 

 

António Sá

[10.06.2017]

 

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