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Desatino 82

Desatino / 82 [Areia-fruto]  

 

»»»»» Um repórter surge-me no ecrã televisivo, muito abrigado da chuva, de microfone em punho, e faz-me o ponto da situação:

»»»»» — A areia avançou para a estrada marginal, fruto da forte ondulação.

»»»»» Ele continuou, cheio de energia, a relatar a tempestade, mas eu já não ouvia o que ele estivesse a dizer. Fiquei para a manhã com aquela frase a pairar no pomar das lembranças, ia pensando que bom seria se todos os repórteres fossem assim poetas, ideando frutos das fortes ondulações.

 

 

António Sá

[03.03.2018]

 

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Desatino 81

Desatino / 81 [As conversas precipitam-se…]        

 

»»»»» Duas juvenis universitárias vêm pela desafogada Alameda da Universidade, e vêm conversando com ânimo na conversa. Inadvertido que vou em sentido contrário, consigo no entanto captar um rapto do que uma delas conversa para a outra:

»»»»» — … pá, eu não queria dizer-lhe isso, mas as conversas precipitaram-se e eu disse-lhe que sim…

 

 

António Sá

[08.02.2018]

 

Desatino 80

Desatino / 80 [O avô da velhinha]  

 

»»»»» Empregada de balcão a uma velhinha septuoctogenária, acabada de entrar na cafetaria:

»»»»» — Então o seu avô está melhor?

»»»»» Responde a velhinha, encolhendo os ombros, cordas vocais temperadas de muito esganiçamento:

»»»»» — Oh, desta vez é que ele está mal… desta vez passou muito mal… esteve mesmo a morrer!…

 

 

António Sá

[08.12.2017]

 

Desatino 50

Desatino / 50 [A crosta e o pus]      

 

»»»»» Ouvido a um cliente, numa tasca do Cais do Sodré, comentando outro cliente de saída:

»»»»» — Lá vai ele escavar na cona da puta: primeiro a crosta, depois o pus.

»»»»» Primeiro estranhei, chocou-me a escatologia crua do conceito, mas logo se me entranhou: intuí aí a metáfora exacta das ingentes tarefas presentes e futuras dos políticos e governantes portugueses: “escavar na cona da puta”.

António Sá

[16.03.2015]

Desatino 49

Desatino / 49 [Viste-os?]

 

»»»»» Estava distraído, virado para a montra de um antiquário, e não vi passar um casal conhecido, que me cumprimentara, claro que sem retribuição. O amigo que me acompanhava chamou-me a atenção:

»»»»» — Tu nem os viste! Eles cumprimentaram-te…

»»»»» — Schhhh… foi. Eu nem os viste.

António Sá

[05.03.2015]

Desatino 48

Desatino / 48 [Despenhados]           

 

»»»»» Uma das excelentes e delinquentes Câmaras Municipais que muitas existem no mundo constituído, instituído, estatuído e estabelecido, despeja, enquanto função e hábito que são os delas, Câmaras Municipais, um casal de meia-idade, e mulher e marido protestam aflitos protestos para as câmaras televisivas. A mulher diz que para onde é que vão? Não vão dormir pra debaixo da ponte, com os filhos pequenos!

»»»»» E o pai, voz aguda, entorpecida, explica:

»»»»» — Despenham-nos assim, sem mais nem menos…

 

António Sá

[29.12.2014]