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A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice

A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice

 

»»»»» Num diálogo Nô metaforiza-se a vida, aproximando o seu curso ao da gota de orvalho numa folha, similares pela inconsistência e a brevidade. É o tipo de reflexão — sobre a fragilidade e a brevidade da vida humana — que ocorre em poesia e no teatro, pelo menos desde os gregos de épocas mais remotas, até à mais decorrente contemporaneidade. O orvalho é frágil, não resiste à secura do ar diurno, ou a qualquer toque de insecto ou ave: numa outra escala, também o corpo humano não resiste a um ambiente viral deletério ou a qualquer acidente mais desafortunado. No mesmo diálogo, onde se fala de um amor impossível, surge ainda outra metáfora afim: o reflexo da luz dos pirilampos nas águas de um pântano — e esta metáfora acrescenta à anterior o sentimento da ilusão, sentimento que só algum tempo de vida e alguma reflexão sobre as etapas da mesma permitem experimentar. Esta reflexão, nas mais diversas inflexões e modalidades, é diferentemente integrada ou interiorizada pelos humanos, conforme as suas sensibilidades e capacidades reflexivas; e as suas idades e consequentes percursos de vida. Em geral os organismos jovens estão dotados, pela natureza e pelos ambientes culturais, de uma concha protectora — entendem a ideia apenas enquanto ideia, coisa exterior ao seu corpo, coisa abstracta.

»»»»» Esta breve sequência de teatro Nô é uma das três que acontecem no filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954), filme em relação ao qual fiz uma abordagem parcial no texto A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético, inserto neste sítio, e no qual referia uma outra sequência teatral: aquela em que se satiriza rudemente a paixão serôdia de uma mulher idosa. “A velha perguntou-te como era estar apaixonado”, diz um dos comediantes masculinos, e responde-lhe o outro: “Sou demasiado novo para saber”. É uma “comédia” que não é representada há vinte anos: classificação de género e informação proporcionadas pelas conversas dos espectadores num intervalo. Visualmente sublinha-se, na personagem da velha, a postura alquebrada, com um simbólico ramo de espinheiro ao ombro e de máscara-teatral hedionda. Ela “melhor exprime as queixas que as paixões”; e os dois actores, que a comentam escarninhamente, alongam-se na enunciação da luta insone da velha com a almofada, consideram quão “escandalosa” é a sua “loucura”, ou seja, a paixão com a qual se debate. Tal crueldade, hoje parcialmente fora-de-moda, exceptuando algum pimpão deputado-trilobite defensor do genocídio dos idosos, era corrente no entremez e na lírica medievais (“dona fea, velha e sandia!”, cantava o trovador Johan Garcia de Guilhade); e ainda, em época renascentista, na figura grotesca do apaixonado, que Gil Vicente centra na farsa O velho da horta (1512); e ainda, em época napoleónica, na gravura de Goya que retrata uma figura feminina decadente a alindar-se ao espelho; e ainda… etc.

Artesão de máscaras de Nô: tradição secular.

»»»»» O outro fragmento de teatro Nô, que é aliás o primeiro que ocorre no filme, tem como cenário um grosso tronco de árvore, com ramagens pletóricas de folhas brancas, que vão caindo como neve esparsa, e uma actriz de quimono expõe um enredo volátil: as cordas caíram e libertaram-na, estaria portanto amarrada, um rato teria roído as cordas que a atavam; depois refere que uma tempestade leva as folhas, e estas caem sobre as águas atraentes do rio Kamo. Pela capa do programa, o espectador sabe que a peça se intitula justamente As águas do rio Kamo.

»»»»» Este é um filme que entra no género do geido mono, ous eja, o filme sobre outras artes, neste caso as artes teatral e musical: em teatro Nô, a música sincopada e percutiva pontua as involuções e evoluções da acção. É também musical pela coreografia espontânea das gueixas, vestidas como para uma performance, em circunvoluções, no seu passo curto, à volta dos grupos de clientes embriagados, trôpegos, grotescos, e os cânticos ébrios destes.

 

António Sá

[03.05.2017/07.05.2017]

 

 

Perspectiva sobre São Martinho

Perspectiva sobre São Martinho

 

 

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»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» Quem agora tivesse desse sofrimento

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» a parte que tens que mais te atormenta!

 

 

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o Pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três Pajens sobre o que eles disponham que sirva de esmola. Diz um verso para o Pobre e o seguinte para os Pajens, versos em castelhano, no original:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

(“Irmão, agora não trago dinheiro:

vós outros trazeis que demos por Deus?”)

»»»»» Os Pajens respondem No ciertamente. Estariam todos no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? (“Entre ambos dois / não trazeis que demos a este romeiro?”). E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

[12.11.2014]

 

 

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Depois de informar o Pobre pedinte que não traz dinheiro, e perguntar aos dois Pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, No ciertamente, passos estes anotados antes, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus três Pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo Pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: No hay dolor que en mí no lo sienta (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste muito breve Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo decide, defectivo qualquer outro recurso, cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

[09.11.2015]

 

 

A compaixão retórica e a compaixão reenviada

»»»»» São Martinho manifesta a compaixão num conceito divisivo do sofrimento em partes mais fortes e mais fracas, conceito assim traduzido do castelhano: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”. Ou seja, ser-lhe-ia mais leve o sofrimento, ao Pobre, se alguém suportasse, em substituição, a parte em que tal sofrer mais pesado lhe fosse.

»»»»» Conceito que, piedosamente, em compaixão reenviada, e com recurso à divindade, o Pobre rejeita: Guárdeos Dios de tan grande afrenta (“Guarde-os Deus de tão grande afronta”), ou seja, que Deus resguarde todos os humanos de se defrontarem com a parte de sofrimento que mais o atormenta.

[14.11.2016]

 

 

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1. A imagem que acompanha este texto corresponde a um pormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

»»»»» 2. Em projecto, a redacção de um texto subsequente, sob o título Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho, incidindo sobre o delírio conceptual do Pobre, no discurso inicial da peça vicentina; este texto subsequente será o segundo painel, cujo primeiro é o já redigido e aqui editado, Perspectiva sobre São Martinho. Título geral para este painel: Perspectivas sobre São Martinho e seu pedinte.

 

 

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[12.11.2014/16.11.2016]

São Martinho corta a sua capa

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Nota prévia: para a linearidade da leitura, convém ler primeiro o texto São Martinho não traz dinheiro, editado há um ano e aqui inserto em adenda.

»»»»» Depois de informar o pobre pedinte que não traz dinheiro e perguntar aos dois pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, “No ciertamente”, passos estes que foram anotados no texto São Martinho não traz dinheiro, que se insere em adenda, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus dois pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: “No hay dolor que en mí no lo sienta” (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste brevíssimo Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo toma a decisão, por defeito de qualquer outro recurso, de cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: “Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí” (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

António Sá

[09.11.2015]

Adenda

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três pajens sobre o que eles disponham entre eles. Diz um verso para o pobre e o seguinte para os pajens:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

»»»»» Os pajens respondem No ciertamente. Estariam no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

António Sá

[12.11.2014]

São Martinho não traz dinheiro

São Martinho não traz dinheiro

 

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três pajens sobre o que eles disponham entre eles. Diz um verso para o pobre e o seguinte para os pajens:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

»»»»» Os pajens respondem No ciertamente. Estariam no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

 

 

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[12.11.2014]