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notas & noções 11 (2ª série)

notas & noções 11 (2ª série)

 

a perda material e a “doença penosa”

»»»»» Muito linearmente, o poeta Mimnermo (século VII a. C.) explica o nosso destino enquanto “folhas”:

Como folhas nascidas na estação florida

da primavera, quando subitamente brotam aos raios do sol,

assim nós, semelhantes a elas, por breve tempo gozamos

as flores da juventude, sem conhecer dos deuses

nem o mal nem o bem. Mas as negras Keres aproximam-se,

uma trazendo consigo a funesta velhice,

a outra a morte. Um instante dura o fruto

da juventude, enquanto o sol se derrama sobre a terra.

Mas quando chega o fim da estação,

melhor é logo estar morto do que vivo.

Muitos males nos brotam no coração: a um é a casa

que rui, e sobrevêm os duros trabalhos da pobreza,

outro não tem filhos e, sentindo a sua falta,

encaminha-se para o Hades, debaixo da terra,

outro tem uma doença penosa. Não há homem

a quem Zeus não dê muitos males.

 

»»»»» Após uma introdução primaveril, a meio do quinto verso acontece uma clivagem: “Mas as negras Keres aproximam-se (…)”. Este corte conduz o leitor à perspectiva iminente da velhice e da morte, anunciadas por estas divindades, as Keres, “uma trazendo consigo a funesta velhice, / a outra a morte.” As Keres são divindades aladas, tal como as representam os artesãos dos vasos gregos, e desencadeiam processos de aniquilação rápidos, por isso surgem nos campos de batalha; assim a passagem da juventude à velhice seria percepcionada como um processo muito rápido, tal como a ocorrência da morte.

Imagem relacionada

»»»»» Neste contexto de desastre, há uma proposição em absoluto concludente quanto ao inescapável da morte: “melhor é logo estar morto do que vivo”. Isto, quando a doença e a ruína do corpo tornam insustentável a vida. E uma conclusão sumariamente condenatória quanto à condição humana: “Não há homem / a quem Zeus não dê muitos males.”

»»»»» Enquanto na canção de Lana del Rey (v. notas & noções 9) pus o foco na desintegração psíquica, e na de Peggy Lee (v. notas & noções 10) na desintegração física, neste poema que vem do século VII anterior à era cristã, o foco incide na adveniente pobreza e no desamparo humano, mas também na decadência física: a “doença penosa”.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Para quem não conheça a mitologia grega, acrescento, além da explicação dada sobre as Keres, que Hades pode ser entendido como o lugar que os mortos vão habitar depois da vida; e Zeus é o deus grego situado acima dos outros deuses, na hierarquia das divindades.

»»»»» 2. O fragmento de Mimnermo foi colhido na Antologia da poesia grega clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins [a partir das antologias francesas de Robert Brasillac (1964) e de Marguerite Yourcenar (1981)], Portugália Editora, 2009.

 

 

 

 

António Sá

[07.04.2017/13.05.2017]

 

ETIQUETAS: 1) Mimnermo; 2) Peggy Lee; 3) Lana del Rey; 4) Keres.

 

notas & noções 10 (2ª série)

notas & noções 10 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração física

»»»»» Na anterior destas notas, anotei a ameaça de desintegração psíquica numa canção de Lana del Rey, Born to die (2012), e derivei para os seus úteis, mas decerto juvenis, de algum modo pueris escapes. Escapes a uma eventual depressão? O ambiente da sua música envolve uma melancolia controlada, estilizada. Escapes a uma eventual depressão: este desagregador psíquico foi o motivo do telefonema de Lady Gaga ao Princípe William, ontem (18.04.2017) noticiado nas televisões.

»»»»» Numa canção da sua grande maturidade, Ready to begin again (Manya’s song) (1975), a cristalina Peggy Lee desenvolve uma espécie de renascimento, numa simbiose psico-física, contrariando a ameaça da progressiva ruína física. Esse renascimento consiste em sentir os dentes e o cabelo como se fossem os seus próprios dentes e cabelo; e a partir daí, munir-se dos seus adereços, caracteristicamente glamorosos e, assim equipada, acreditar-se “fresca e luminosa” (“fresh and bright”).

»»»»» Mas o lento acordar da canção, no seu moroso início, choca o auditório com imagens de um corpo já em despossessão de si mesmo: “Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama, / e o meu cabelo pende algures num cabide” (“When my teeth are at rest in the glass by my bed, / and my hair lies somewhere in a drawer”). Se o início da melodia é moroso, como um despertar em depressão para o mundo, logo o ritmo se vai animando, ganha uma velocidade que evoca Jacques Brel e até uma diluída ressonância circense, como se enfim o corpo, ferido pelo tempo, mas por ele adestrado, se oferecesse mais uma vez ao circo da existência social.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução para português das estrofes, uma pontuação normalizada da versão original;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado Mirrors.

 

»»»»» Pronta para começar de novo (canção de Manya)

Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama,

e o meu cabelo pende algures num cabide,

aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

já não um lugar agradável.

 

Mas eu tiro os meus dentes do copo junto à cama,

e o meu cabelo de um cabide à entrada,

ainda aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

não de todo um lugar agradável.

 

Mas eu ponho os meus dentes e ponho o cabelo,

e uma coisa estranha ocorre quando os ponho,

porque os dentes começam a sentir como meus próprios dentes,

e o cabelo como meu próprio também.

 

E estou pronta para começar de novo,

pronta para começar de novo,

a caminho do romance,

o coração cheio de esperança,

de novo, de novo.

 

Estou pronta para começar de novo,

sentindo como se estivesse a começar.

Agora não receio

subir as persianas

e encarar o sol.

 

Ponho as minhas braceletes e broches,

meus anéis e pérolas e grampos,

e enquanto o novo dia se aproxima,

enquanto o novo dia começa…

 

Estou pronta para começar de novo,

parecendo fresca e luminosa eu confio.

Pronta para começar de novo,

como toda a gente tem de estar.

 

 

 

 Ready to begin again (Manya’s song)

When my teeth are at rest in the glass by my bed,

and my hair lies somewhere in a drawer,

then the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place anymore.

 

But I take out my teeth from the glass by my bed,

and my hair from a drawer in the hall,

still the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place at all.

 

But I put in my teeth and I put on my hair,

and a strange thing occurs when I do,

for my teeth start to feel like my very own teeth,

and my hair like my very own too.

 

And I’m ready to begin again,

ready to begin again,

I’m reaching for the soap,

my heart is full of hope,

again, again.

 

I’m ready to begin again,

feeling like I’ve just begun.

Now I’m not afraid

to raise the window shade

and face the sun.

 

I put on my bracelets and brooches,

my rings and my pearls and my pins,

and as the new day approaches,

as the new day begins…

 

I’m ready to begin again,

looking fresh and bright I trust.

Ready to begin again,

as every body must.

 

Peggy Lee 1 001

 

 

»»»»» NOTA:

»»»»» De Lana del Rey foi utilizado o CD Born to die, Polydor (UK) / Interscope Records (USA), 2012; de Peggy Lee, o CD Mirrors, A&M Records, Hollywood, 1975.

 

 

António Sá

[19.04.2017]

 

notas & noções 9 (2ª série)

notas & noções 9 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração psíquica

»»»»» Acabei a última destas notas com a referência à longa vida poética das glosas à desintegração da matéria em geral, incluindo, claro, a matéria humana: “tudo o que existe tende a ser desintegrado”, escrevi. Não resulta difícil encontrar exemplos disso, associados ou não à temática amorosa, que tem sido, esta, a matéria mais tratada no lirismo. E a desintegração pode ser visada nas vertentes: física, a mais tradicionalmente corrente; e psíquica, mais modernamente recorrente.

»»»»» Encontro, na canção pop, um exemplo de alusões à desintegração psíquica em Born to die (Lana del Rey, 2012), alusões levadas a um terreno de explicitação não frequente no main stream da música pop-rock, mais dada a euforias ou a melancolias tipificadas. Mas é por meio de uma metáfora do corpo, dos pés que caminham, que surge a eventualidade da desintegração psíquica: “Pés, não me falhem agora. / Levem-me ao fim da linha. / Oh, o meu coração parte-se a cada passo / que dou.” E este “fim da linha” é partilhado com a pessoa amada, à qual se diz: “Escolhe as tuas últimas palavras. / Estes são os últimos tempos. / Porque tu e eu nascemos para / morrer.” A metáfora da caminhada, resolvendo-se acaso em alegoria representando o curso da vida, tem uma longa tradição em poesia, e sintetiza-se aqui nestes termos: “A estrada é longa, e aguentamos.”

»»»»» A desintegração psíquica aparece modalizada em sinais de dispersão (“Caminho ao longo das ruas da cidade, / será por engano ou desígnio?”); de insatisfação (“Algumas vezes o amor não basta e / a estrada torna-se árdua, / não sei porquê.”); de risco inerente à insatisfação (“Vem e dá um passeio no / lado selvagem.” E nestes tópicos ecoam canções de Lou Reed: o caminhar à deriva pelas ruas da cidade e a incursão pelo “lado selvagem” (“take a walk on the wild side”). Além deste eco, todas as imagens ressumam o estilo de vida norte-americano, tendência melancólica, e a memória cinematográfica, como em “Deixa-me beijar-te muito sob o / aguaceiro.”; ou em “Continua a fazer-me rir, vamos / pedrar-nos.”; ou ainda em “Sinto-me tão só numa Sexta / à noite.” Todo um repertório de situações comuns à vivência juvenil urbana.

»»»»» Nem tudo é perdição, no entanto: há este recurso salvífico: que o “fim da linha” seja partilhado com outro ser, cuja posse se reivindica: “Mas estou esperando frente aos portões, / que eles me digam que és meu.” Retenho esta imagem, “frente aos portões” (“at the gates”): portões que dão acesso a um mundo outro? ao além? Os “portões” instituem uma imagem forte, frequente nas alegorias religiosas e profanas. Lembro apenas os portões da alegoria kafkiana.

»»»»» E há outra salvação, que actua no presente: “agora me encontro” (“now I am found”); e encontra-se tendo vivido um satori, uma iluminação (sem embargo, de ressonâncias religiosas), essa mesma iluminação recorrente na música gospel da tradição afro-americana. Ela estava “tão confusa” (“I was so confused”) enquanto “criancinha” (“little child”), estava “cega” (“I was blind”), perdida, tentando agarrar o que podia, por temor de não encontrar todas as “respostas” (“answers”). Mas esta iluminação, neste contexto, reveste-se de conotações eróticas.

»»»»» E ainda outra salvação: a do omnipresente hedonismo-entretanto na nossa cultura: “Tentemos divertir-nos no entretanto.” (“Try to have fun in the meantime”). Hedonismo enraizado nas nossas agendas, mas persistentemente repreendido no discurso católico.

»»»»» Lana del Rey teve o talento, enquanto autora de lyrics, de reunir, num feixe alusivo, este complexo de tópicos intuitivamente entendíveis por um público urbano advertido. E com a evidência simples de não obliterar esse tabu da ocidentalidade padronizada, a morte. “Born to die”, diz ela.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução das quatro primeiras estrofes da letra da canção, as outras são constituídas por versos recorrentes;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado justamente Born to die.

 

 

 

»»»»» Nascidos para morrer

Pés, não me falhem agora.

Levem-me ao fim da linha.

Oh, o meu coração quebra-se a cada passo

que dou.

Mas estou esperando frente aos portões,

que eles me digam que és meu.

Caminho ao longo das ruas da cidade,

será por engano ou desígnio?

Sinto-me tão só numa Sexta

à noite.

Podes sentir-te confortável,

se eu te disser que és meu,

é o que eu digo, querido.

 

Não me faças triste, não me faças

chorar.

Algumas vezes o amor não basta e

a estrada torna-se árdua,

não sei porquê.

Continua a fazer-me rir, vamos

pedrar-nos.

A estrada é longa, e aguentamos.

Tentemos divertir-nos no entretanto.

 

Vem e dá um passeio no

lado selvagem.

Deixa-me beijar-te muito sob o

aguaceiro.

Tu estás pelas raparigas selvagens.

Escolhe as tuas últimas palavras.

Estes são os últimos tempos.

Porque tu e eu nascemos para

morrer.

 

Perdida, mas agora me encontro.

Já posso ver mas antes estava cega.

Eu estava tão confusa quando

criancinha.

Tentava agarrar o que podia

por temor de não encontrar

todas as respostas, querido.

 

Lana del Rey 1 001

 

 

António Sá

[09.04.2017/12.04.2017]

 

notas & noções.20

notas & noções.20                                                                                    

 

»»»»» Sou fã, por razões que a minha razão desconhece, de Madonna, de Rihanna, de Lady Gaga, entre outras e outros, como Sam Smith, por exemplo, e não porque ele seja gay, mas porque aquele domínio-potência vocal me remove de mim (Writings on the wall).

»»»»» Sou fã, por razões que a minha razão conhece, de Lana del Rey. Como, muito antes de a ouvir, era fã de Marlene Dietrich, de Peggy Lee, de Chavela Vargas, de Françoise Hardy, de Jane Birkin, de Marianne Faithfull. Nunca me canso de ouvir o grão de voz enrouquecido-esgaçado de Chavela Vargas e de Marianne Faithfull. Assim como não me canso da luminosa limpidez vocal de Peggy Lee.

»»»»» Ser da ocidentalidade passa por estes fanatismos. E não refiro sequer grupos musicais de que sou fã, fanatismos não absolutos, antes tranquilos; não refiro grupos musicais — um leque muito ecléctico, que inclui tanto grupos como cantores, alguns deles gay ou relativos. Por muito que me pareça errado o que fez, antes de Obama, a administração estadunidense no Médio Oriente, ser ocidental passa por estes irracionais-racionais gostos da música popular-urbana, mesmo a mais banal, sem culpas nem complexos de aproximações ao kitsch (Lady Gaga).

»»»»» Mas, observação última, listei artistas que não fazem parte do universo da canção anglo-saxónica: Chavela Vargas (mexicana), Françoise Hardy (francesa), Jane Birkin (anglo-francesa). Também observo que, se Marlene Dietrich é um ícone insubstituível do star-system hollywoodiano, os seus começos, com Joseph von Sternberg, foram na Alemanha pré-nazi, e que parte do seu clássico repertório é cantado na densa língua alemã.

 

António Sá

[17.11.2015/21.11.2015]