Tag Archives: Luís de Camões

Flash 9

Flash / 9

 

»»»»» Tens todo o tempo do mundo ? — Claro que sim, enquanto seja tempo.

»»»»» I have all the time in the world. I have all the time for you: todo el tiempo para ti.

»»»»» — Où est le temps ? Où s’est-il caché ?

»»»»» — ¿Donde está el tiempo ? ¿Donde se ha puesto, que no lo veo ?

»»»»» Maneira de perceber o tempo…

»»»»» O tempo está escondido nas dobras do tempo, nas dobras do universo sem princípio e sem meta limitada.

»»»»» In time sometimes I try. Sometimes I try, sometimes I try with you: a veces lo intento, lo intento contigo, quando todo es tiempo.

 

»»»»» [Clues: palavras da canção dos Depeche Mode, It’s no good; o verso camoniano “que é sem princípio e meta limitada” (Os lusíadas, canto X, estrofe 80); palavras da canção dos Depeche Mode, I want it all.]

 

António Sá

[09.07.2017]

 

Flash 8

Flash / 8

 

»»»»» The order of the universe lies underseas, in a coffer, in the depths of a valley. Oh ! How green was my valley that never was! It lies there, in the depths of a valley undersea, swallowed by a pulp.

»»»»» L’ordre de l’univers, où gît-il ? — Sous la mer. C’est l’ordre sous-marin. Il est là, dans un coffret écrasé par un sous-marin. The order lies there, in the depths of the sea, smashed by a submarine, a yellow submarine.

»»»»» Donde la orden del mundo? Donde la liberdad del pueblo?

»»»»» No fundo, a ordem do mundo pára lá, bem no fundo submarino, lá onde habitam os grandes submarinos. É lá a sua morada, no lugar onde jaz a máquina do mundo, em miniatura, num cofre, um pequeno cofre que se tem na palma da mão: l’ordre de l’univers dans le creux de la main: a coffer in the palm of your hand.

 

»»»»» [Clues: o título do filme de John Ford, How green was my valley!; a canção dos Beatles, The yellow submarine; a noção camoniana de “máquina do mundo” (Os lusíadas, canto X, estrofe 80 e seguintes).]

 

António Sá

[24.06.2017]

 

Camões compara-se a outro

Camões compara-se a outro

 

»»»»» Foi assim. O fidalgo José Lopes, vivendo jovem nos meados do século XVI, foi proibido de entrar numa casa onde decorria uma festa galante, como castigo por ter estado a espreitar as jovens que aí habitavam. Este é o antecedente “criminal” desta pequena história. Camões pôde entrar na festa, embora fosse de “baixo estado”, ou seja, socialmente inferior ao dito fidalgo. E deduz que este gostaria de ter trocado com ele, de modo a ter estado na festa, porque aí Camões conversou com a excelente rapariga que era a amada de João Lopes e, ao ouvi-la, ficou rendido à suavidade e às palavras extraordinárias da moça. Mas, apesar disso, não pôde aspirar a ela, por ser socialmente inferior. Enfim, esta é a versão que o poeta nos conta no soneto “Senhor João Lopes, o meu baixo estado”. Lamento por ele, a cerca de cinco séculos de distância.

»»»»» Vejamos, um por um, os três intervenientes deste caso:

»»»»» 1. João Lopes suscita inveja ao poeta, visto que, por hipérbole, suscita “enveja a toda a gente”, seguramente pelas suas qualidades e pelo seu “estado”, a sua categoria social; além disso, ele está enamorado pela rapariga que o fez experimentar os altos e os baixos do amor, ela fê-lo sentir-se, por antítese, “contente e descontente”. João Lopes Leitão era amigo de Camões, na Índia.

»»»»» 2. Da jovem não saberemos o nome, resta-nos um retrato dentro dos padrões convencionais de retrato da bem-nascida: tem um “gesto (= rosto) suave e delicado”; a sua fala expande-se “tão docemente” que, por hipérbole, torna “o ar sereno e sossegado”; além de falar assim, o que diz é extraordinário, “em poucas palavras” ela diz “quanto / ninguém diria em muitas”, outra bela hipérbole.

»»»»» 3. Quanto ao terceiro vértice deste triângulo, o poeta, conhecemos que socialmente se considera de “baixo estado”, o que o deixa em perda na comparação ou competição com o fidalgo; e sabemos que fica “cego”, ou seja, tomado de um amor-imediato em presença das perfeições da jovem, mas fica “magoado” ouvindo a “doce fala”, porque tem de abdicar desse amor-à-primeira-vista. Assim, ele maldiz a “Fortuna”, porque “desiguala” os “estados”, as posições sociais; e maldiz o “Moço cego”, ou seja, o menino-deus do amor, Cupido, porque “os corações obriga”, ou seja, instala o amor nos corações humanos.

 

»»»»» Segue-se a história, contada pelo próprio Camões:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado,

que já vos fez contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

»»»»» Nota:

»»»»» Para a transcrição do soneto, utilizei a edição das Rimas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Atlântida Editora, Coimbra, 1973. Segui a lição aí constante, excepto em algumas vírgulas, cuja posição me atrevi a corrigir. Por essa razão, e para quem queira cotejar, transcrevo fielmente a lição do erudito, com as vírgulas no lugar onde ele as pôs:

 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

ontem vi posto em grau tão excelente,

que vós, que sois enveja a toda a gente,

só por mim vos quiséreis ver trocado.

 

Vi o gesto suave e delicado

que já vos fez, contente e descontente,

lançar ao vento a voz tão docemente,

que fez o ar sereno e sossegado.

 

Vi-lhe em poucas palavras dizer, quanto

ninguém diria em muitas; eu só, cego,

magoado fiquei na doce fala.

 

Mas mal haja a Fortuna, e o Moço cego.

Um, porque os corações obriga a tanto,

outra, porque os estados desiguala.

 

 

 

 

 

António Sá

[10.06.2017]

 

Quatro castelãs no seu castelo

Quatro castelãs no seu castelo

 

 

»»»»» Nota: as duas fotos que acompanham este texto são a preto-e-branco, mas o filme é scopicamente e luxuosamente em CinemaScope, De Luxe Colour.

 

»»»»» CinemaScope, De Luxe Colour, estes são os meios necessários para se visualizar o esplendor dos longos cabelos, ou soltos ou caprichosamente penteados, de quatro noras, todas ainda jovens e todas, menos uma, não se sabe qual, já viúvas. As esplêndidas cabeleiras são: uma ruiva, outra negra, as outras duas louras: uma louro-platina, outra louro-dourado. Todas correspondem a mulheres de caracteres e temperamentos diversos, sendo a morena a mais sensual e aparentemente letal, tratada pelo protagonista como quem domestica um animal selvagem. Quatro mulheres assim cromáticas no écran, espectacularmente e diversamente hipervestindo-se, hipertoucando-se, eventualmente cantando e dançando para esse homem que aportou baleado à propriedade onde viviam, castelãs lá enclausuradas. Ele é um aventureiro de espertíssima perfídia, cinismo, amoralidade, e elas são quatro noras de uma anciã tirânica ferozmente, espingarda sempre pronta para qualquer disparo certeiro, discurso e olhar cortantes, impiedosos. Esta anciã é Ma McDade (Jo van Fleet), únicos cabelos grisalhos do filme The king and four queens (Raoul Walsh, 1956), e o aventureiro é Dan Kehoe (Clark Gable), rei provisório daquele castelo, caninamente, milimetricamente defendido por essa intangível actriz que foi Jo van Fleet, falsa anciã de trinta e quatro anos na vida, caracterizada para ser anciã neste filme, tal como naquele pelo qual é mais conhecida, onde contracena com James Dean: East of Eden (Elia Kazan, 1955).

 

 

Dan Kehoe (Clark Gable) no solo, baleado por Ma McDade (Jo van Fleet)

»»»»» É uma história de ouro, um western em que o ouro é objecto que todos mobiliza, para todos os males e para um relativo bem final, mas que não se vê senão em abstracto, subsumido na maleta enterrada nos arredores da casa, e depois em sacos de pano, alguns deles atirados para a poeira do caminho. E ninguém está a salvo das ambições e perversidades que o “vil metal”, na expressão de Camões, suscita. Este ouro que a todos consome, que se perde para muitas (todas, excepto uma) e de que poucos usufruem, apenas os mais maquiavélicos, e só parcialmente, a saber, Dan Kehoe (Clark Gable) e a ruiva Sabina McDade (a belíssima Eleanor Parker); este ouro lembra-me um outro ouro perdido, mas mais decididamente moralizante, o do conto O tesouro, do já inefável Eça de Queiroz, publicado na “Gazeta de Notícias” em1894; e ainda um outro ouro, que fica dolosamente “bem entregue” nas mãos “insuspeitas” de um xerife (Henry Fonda), esses sacos de ouro do lucidamente implacável There was a crooked man (Joseph L. Mankiewicz, 1970).

»»»»» Um nódulo portador de sentidos icónicos que transcendem a materialidade do representado, polarizando o imaginário, suscita-me a tensão-atenção — nódulo constituído pela série de planos concomitantes à acção do filme, que expõem a arquitectura, o conjunto edificado que habitam as quatro noras sequestradas pela sogra ferozmente armada não só da espingarda-a-prolongar-o-braço, mas de um exemplar da Bíblia que a municia de feroz conceptualização dos laços humanos: a memória dos seus filhos mortos, excepto um não-se-sabe-qual, só ela sabe e não o revela para manter as noras sob suspense e controle e respeito por essa memória, mesmo sendo memória de delinquentes relapsos, filhos-dela e maridos-das-noras, três dos quais mortos em confronto com as forças da ordem, estando o outro foragido. As quatro respectivas mulheres são assim as four queens e estão condenadas à abstinência perpétua, pelo menos até que apareça o foragido, para isso ali a sogra as enclausura.

 

Ma McDade (Jo van Fleet) faz badalar o sino entre três das suas noras McDade, faltando Sabina McDade (Eleanor Parker)

»»»»» Mas regressando ao conjunto edificado: difícil descrevê-lo. Surge por primeira vez num plano-de-conjunto: edifícios oblongos, compósitos, aplastados na paisagem árida, aberta; enegrecidos de uma fuligem intemporal, parcialmente derruídos. Na aparência um fortim, com anexos de tipo rural, conjunto de edificações isoladas num extenso vale protegido por montes rochosos, um forte usado na defesa contra os ataques dos índios, durante a saga de expansão para oeste, mas agora em abandono. O seu isolamento na paisagem evoca as muralhas de um castelo medieval que o tempo escureceu e vai corroendo, de que restem ainda troços de muros, uma torre sineira a emergir do destroço que fora uma igreja, além de um corpo central coeso e habitado. É o décor da maior parte da acção do filme, exteriores decadentes, interiores acomodados. Trata-se enfim de um castelo de épocas mais recentes, século XIX fictivo, sendo as castelãs as quatro coloridas noras, e a guardiã do castelo e da abstinência sexual. essa feroz sogra, personificação da lei ali vigente (diz ela, numa sibilina réplica a Dan Kehoe: “Aqui a Lei não entra”). A assegurar-me quanto a uma aproximação medieva, fixo-me na sequência em que este décor aparece primeiro: o cavaleiro, não medieval, apenas “herói” amoral deste filme, atravessa a ponte, que é de madeira mas não levadiça, e nessa travessia é ferido quase-de-morte pela guardiã, cujo tiro insuficientemente certeiro, para mal dela, sua futura despossessão do tesouro, não mata o intruso. Ocorre-me de seguida, associação divagante, o cavaleiro da ponte, tal como Bernardim Ribeiro no século XVI o imaginou, e assim como a imagem medievalista me ocorre, assim anacrónica a deixo aqui.

 

 

Referências

»»»»» Cinema: The king and four queens (Raoul Walsh, 1956); East of Eden (Elia Kazan, 1955); There was a crooked man (Joseph L. Mankiewicz, 1970).

»»»»» Escrita: Camões, Eça de Queiroz, Bernardim Ribeiro.

 

 

António Sá

[14.02.2012 / revisto a 18.03.2017]

 

Flash 1

Flash / 1

 

»»»»» Where is your anima? Your anima in my anima. A tua alma na minha alma. Quien es tu? Que alma tienes? Está a tua alma no telhado. Donde estás, quien estás? A trepar a árvore que se abate sobre o telhado. Where are you? In a roof? A hot tin roof? Telhado de zinco fervente, onde o sol se encosta e amodorra.

 

»»»»» [Clues: “vosso fermoso gesto dentro n’alma”, Luís de Camões; Cat on a hot tin roof, peça de Tennessee Williams e filme de Richard Brooks.]

 

António Sá

[26.06.2016]

Julga-me a gente toda por perdido

Julga-me a gente toda por perdido

 

»»»»» Uma auto-reflexão de Luís de Camões sob a forma de soneto:

 

Julga-me a gente toda por perdido,

vendo-me tão entregue a meu cuidado,

andar sempre dos homens apartado,

e dos tratos humanos esquecido.

 

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,

e quási que sobre ele ando dobrado,

tenho por baixo, rústico, enganado,

quem não é com meu mal engrandecido.

 

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,

busquem riquezas, honras a outra gente,

vencendo ferro, fogo, frio e calma;

 

que eu só em humilde estado me contento,

de trazer esculpido eternamente

vosso fermoso gesto dentro n’alma.

 

»»»»» Numa síntese-imediata, considero que o poeta se manifesta alheado de tudo o que sejam actividades sociais ou ambições pessoais: contenta-se com o estado de contemplação mental do ente amado.

»»»»» Mas, feita esta síntese, o poema merece comentário e contextualização subsequentes.

 

 

»»»»» (Para a transcrição do soneto utilizei a edição das Rimas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Atlântida Editora, Coimbra, 1973.)

 

António Sá

[10.06.2016]