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notas & noções 12 (2ª série)

notas & noções 12 (2ª série)

 

o “amor furtivo” e a “dolorosa velhice”

»»»»» Os fragmentos do poeta grego Mimnermo (século VII a. C.) lêem-se e entendem-se de modo imediato, sem ser necessário explicá-los, apesar de, bem entendido, não deixarem de ser susceptíveis de exegese, tal como qualquer poema, dos mais antigos aos mais recentes, dos mais oriundos do húmus popular aos mais inspirados num estro hermético. (Utilizo gozosamente estas palavras, “húmus” e “estro”, tão de ontem, tão evocativas e já provocativas.)

»»»»» Assim, sem qualquer explicação prévia, deixo a seguir transcrito o fragmento “Que vida, que prazer, sem a áurea Afrodite?”

Que vida, que prazer, sem a áurea Afrodite?

Possa eu morrer quando já não me importarem

o amor furtivo e os seus doces presentes e o leito,

que são as flores sedutoras da juventude

para homens e mulheres. Quando chega

a dolorosa velhice, que torna o homem

ao mesmo tempo frio e fraco, cruéis males

lhe afligem sem cessar o coração e já

não se alegra a ver a luz do sol,

mas é odioso aos jovens, desprezível

às mulheres. Tão molesta

fizeram os deuses a velhice.

 

»»»»» O texto organiza-se em dois segmentos de significados contrastantes: o primeiro, é o segmento do prazer juvenil, o prazer erótico (“o amor furtivo” e “o leito”); o segundo, o da decadência física, segmento este que parte o quinto verso ao meio, irrompendo assim sem transição: “Quando chega / a dolorosa velhice…”.

»»»»» Estruturalmente, este fragmento apresenta-se bastante similar ao fragmento “Como folhas nascidas na estação florida” [v. notas & noções 11 (2ª série)]: em ambos há um início alusivo à juvenilidade, incluindo símiles vegetalistas, as “folhas” num, as “flores” no outro. E a este início, de quatro versos e meio nos dois fragmentos, segue-se um mais extenso discurso focado nos desastres da velhice.

»»»»» Só por si, esta estrutura não é isenta de significado: a juventude é percepcionada como ligeira e breve (quatro versos e meio); a velhice é difícil e arrastada (onze versos e meio, num caso; sete versos e meio, no caso do fragmento aqui em foco). E não há transição entre uma e outra, como se nesse tempo grego arcaico, século VII anterior a Cristo, se transitasse bruscamente da juventude à velhice, em oposição à contemporaneidade, onde a transição tende a ser lenta e alongada.

»»»»» Mas há, quase subliminarmente, um outro significado que, de muito evidente, se arrisca a ser aceite como um dado natural, que deva passar sem reparo. Refiro-me à noção de que sem “o amor furtivo” e “o leito”, cenários da sexualidade, a vida não tem sentido. Convém fazer um recuo, tanto histórico quanto existencial, e questionar a naturalidade de tal concepção da vida.

 

»»»»» NOTA:

»»»»» 1. O fragmento de Mimnermo foi colhido na Antologia da poesia grega clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins [a partir das antologias francesas de Robert Brasillac (1964) e de Marguerite Yourcenar (1981)], Portugália Editora, 2009.

 

 

 

António Sá

[03.07.2017]

 

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notas & noções 11 (2ª série)

notas & noções 11 (2ª série)

 

a perda material e a “doença penosa”

»»»»» Muito linearmente, o poeta Mimnermo (século VII a. C.) explica o nosso destino enquanto “folhas”:

Como folhas nascidas na estação florida

da primavera, quando subitamente brotam aos raios do sol,

assim nós, semelhantes a elas, por breve tempo gozamos

as flores da juventude, sem conhecer dos deuses

nem o mal nem o bem. Mas as negras Keres aproximam-se,

uma trazendo consigo a funesta velhice,

a outra a morte. Um instante dura o fruto

da juventude, enquanto o sol se derrama sobre a terra.

Mas quando chega o fim da estação,

melhor é logo estar morto do que vivo.

Muitos males nos brotam no coração: a um é a casa

que rui, e sobrevêm os duros trabalhos da pobreza,

outro não tem filhos e, sentindo a sua falta,

encaminha-se para o Hades, debaixo da terra,

outro tem uma doença penosa. Não há homem

a quem Zeus não dê muitos males.

 

»»»»» Após uma introdução primaveril, a meio do quinto verso acontece uma clivagem: “Mas as negras Keres aproximam-se (…)”. Este corte conduz o leitor à perspectiva iminente da velhice e da morte, anunciadas por estas divindades, as Keres, “uma trazendo consigo a funesta velhice, / a outra a morte.” As Keres são divindades aladas, tal como as representam os artesãos dos vasos gregos, e desencadeiam processos de aniquilação rápidos, por isso surgem nos campos de batalha; assim a passagem da juventude à velhice seria percepcionada como um processo muito rápido, tal como a ocorrência da morte.

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»»»»» Neste contexto de desastre, há uma proposição em absoluto concludente quanto ao inescapável da morte: “melhor é logo estar morto do que vivo”. Isto, quando a doença e a ruína do corpo tornam insustentável a vida. E uma conclusão sumariamente condenatória quanto à condição humana: “Não há homem / a quem Zeus não dê muitos males.”

»»»»» Enquanto na canção de Lana del Rey (v. notas & noções 9) pus o foco na desintegração psíquica, e na de Peggy Lee (v. notas & noções 10) na desintegração física, neste poema que vem do século VII anterior à era cristã, o foco incide na adveniente pobreza e no desamparo humano, mas também na decadência física: a “doença penosa”.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Para quem não conheça a mitologia grega, acrescento, além da explicação dada sobre as Keres, que Hades pode ser entendido como o lugar que os mortos vão habitar depois da vida; e Zeus é o deus grego situado acima dos outros deuses, na hierarquia das divindades.

»»»»» 2. O fragmento de Mimnermo foi colhido na Antologia da poesia grega clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins [a partir das antologias francesas de Robert Brasillac (1964) e de Marguerite Yourcenar (1981)], Portugália Editora, 2009.

 

 

 

 

António Sá

[07.04.2017/13.05.2017]

 

ETIQUETAS: 1) Mimnermo; 2) Peggy Lee; 3) Lana del Rey; 4) Keres.