Tag Archives: natureza morta

Aproximações fotopictóricas 5

Aproximações fotopictóricas 5

 

 

 

Morandi 3 001

»»»»» Giorgio Morandi joga em contrastes quente/seco na sua Natura morta (1938), ainda que os quentes se limitem, isentos de decoratividade, a dois recipientes apenas dos onze figurados, e sendo um igual tom de vermelho-alaranjado ou laranja-avermelhado em dois frascos estrategicamente colocados em lugares lateralizados. Esse vermelho-laranja dá o tónus a esta pintura de objectos, todos vítreos. Os outros tons serão secos ou neutros, exceptuando o fulgurante branco, em objectos também estrategicamente situados, e exceptuando ainda o líquido azul na base de um dos frascos. Completam assim a paleta cromática esse branco fulgurante e o castanho-escuro, sendo neutro o tom do recipiente mais à esquerda.

»»»»» Tais contrastes contribuem, juntamente com a espessura da pincelada, para instituir a verdade matérica, qualidade reconhecida à pintura de Morandi. O laranja é a cor solar da energia e da verdade, neste caso, objectal, ao fazer confluir em si o vermelho e o branco: aquele é o que “está aqui e não longe”, como aponta Michel Pastoureau; este é expoente da simplicidade, da paz consequente ao trabalho humilde e reflectido (ou “entregue a Deus”, na senda cristã). E enfim, os tons neutros e os castanhos térreos contribuem à inflexão filosófica do todo em torno da verdade de uma existência material próxima, densa, apaziguadora.

 

 

Rui Monteiro 101 001

»»»»» Tendencialmente neutra é a “paleta” tonal dos cinco objectos que a obscuridade torna possível isolar, na fotografia de Rui Dias Monteiro da série As couves dormem sem manta (2013). Como em outras fotos já comentadas em Aproximações anteriores, a matéria de que são feitos os objectos tende a ser menos nobre do que nas telas de Morandi — ocorre no entanto o vidro. Mas o copo invertido, de vidro incolor, é uma forma industrialmente estandardizada, em confronto com as diversas formas dos vidros de Morandi, na linha de um design das primeiras décadas do século XX.

»»»»» Há um objecto branco-maculado que pode ser um rolo de papel de cozinha; uma bacia, acaso de cerâmica, de um ténue verde-azulado; e duas garrafas de plástico, uma bastante visível, reflectindo a luz, e a outra quase invisível, dela só se percebe um sinuoso contorno tocado pela luz.

»»»»» Objectos alinhados sobre uma mesa, como na tela de Morandi, mas não se distinguem pela cor, antes pela luz que sobre eles incide e respectivos reflexos. O contraste institui-se entre esta luz frontal e a escuridão do fundo. O todo convoca também o trabalho caseiro, subjaz-lhe sobretudo uma filosofia prática, utilitária; e a percepção comum vê materiais sobretudo voláteis: estão e já não estão, prontos para o desperdício e a reciclagem. Os objectos do cotidiano do século XXI não exigem afecto, nem pacificam, e o seu brilho é reflexo negligenciável.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

07.10.2017

 

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Aproximações fotopictóricas 4

Aproximações fotopictóricas 4

 

»»»»» Um fruto — o limão — é o punctum que têm em comum a fotografia e a composição pictórica que apresento a seguir. Começando pela fotografia,

Rui Monteiro 100 001

ela pertence à série As couves dormem sem manta (2013), e capta centralmente dois limões amarelo-verdes, esbranquiçados por efeito da incidència luminosa, que se perfilam na linha-de-fuga da perspectiva como dois soldados numa formatura. Pousam sobre o contraplacado funcional e não-nobre de uma banqueta-de-cozinha. O fundo é o de uma parede e esquina esfoladas e uma escura peça de mobiliário difícil de identificar (um armário ou um fogão antigo). Mas os limões fazem a história da foto, o fresco amarelo que exibem remete para o uso saudável que lhes é atribuído e para a acidez do paladar.

Morandi 2 001

»»»»» O limão figurado na tela de Giorgio Morando apresenta tonalidades muito diversas. Confronte-se aquele frio amarelo-luminoso dos limões da foto com a quente mistura de amarelo-alaranjado e castanho: as cores quentes da tela contrastam com a fria luminosidade da foto e seu jogo de contrastes claro-escuro.

»»»»» Outro contraste é o do suporte de frutos e objectos. Na foto, só frutos, estes repousam na referida banqueta de contraplacado, material pobre; na tela, fruto e objectos assentam, num enquadramento em ligeiro picado, sobre uma mesa cuja textura indicia a madeira. A natureza nobre deste material, ao contrário do contraplacado, é secundada pelos materiais nobres dos objectos agrupados junto ao limão: um pote de metal, uma taça de vidro e, suponho, uma pequena faca.

»»»»» Em ambas as imagens o punctum situa-se nos limões, e em ambas, apesar das diferentes tonalidades, se conotam a vida solar e a humilde e diurna actividade doméstica, as intermináveis e vitais tarefas que sustentam a regularidade dos dias. Mas a foto é dominada pela aspereza dos limões e, por extensão, da vida campestre; convoca a pobreza dos recursos exposta na parede e no mobiliário. Na tela, o limão amarelo-alaranjado dá o tom intenso, quente, desse interior, não decerto rico ou luxuoso, mas aconchegado, familiar. E a transmutação pictórica transcende a pura representação objectal: a cor laranja expande-se enquanto indicador de uma intrínseca verdade: persistência da vida, sua densa materialidade assim fixada no tempo.

 

 

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: o conceito de punctum vem de Roland Barthes, A câmara clara (Edições 70, 1981); para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

27.07.2017/02.08.2017