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A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético

A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético

 

 

»»»»» Fala-se dessa mulher numa breve “comédia” de teatro Nô, ridicularizando-a por estar apaixonada por um jovem, estando ela já numa idade avançada. Essa mulher assiste à representação, e abandona a sala por se sentir visada. Um outro espectador, seu velho pretendente, sai também da sala e conforta-a, considerando “cruel” a sátira ali representada. De facto esta mulher, qualificada de “velha” no diálogo teatral, era a Madame de uma casa de gueixas, em Kyoto, e apaixonara-se pelo jovem médico que dava assistência àquelas profissionais do sexo. Este jovem aceita passivamente o envolvimento de que é alvo, encara com aparente agrado o projecto, a que ela o encoraja, de abrir uma clínica privada, num desafogado casarão, sob financiamento dela.

»»»»» Mas entretanto a filha desta empresária chega de Tokyo, terminado o curso universitário: é uma jovem problemática, recém-suicida, vindo a revelar-se que a fonte dos seus problemas provinha de escrúpulos morais por ser a beneficiária dos lucros do negócio de prostituição, que lhe custeara os estudos; a que acrescia o facto de que, devido à percepção socialmente negativa da profissão materna, a rapariga fora rejeitada pelo noivo, quando este e respectiva família tiveram conhecimento de tal profissão.

»»»»» A pedido da mãe, o jovem médico, com bastante tacto, ocupa-se da saúde mental da jovem universitária em depressão. Assim ela se abre, revela-lhe os problemas acima apontados, que a angustiam, e entretanto ele apaixona-se: ela é um ser amável, um carácter compassivo e solidário; amor partilhado, de que resulta um projecto de vida em Tokyo. Mas a Madame, ciumenta e possessiva, reage em grande perturbação. As conversas entre os três decorrem em tensão e conflito, e acabarão as duas mulheres em ruptura definitiva com o médico. A jovem rejeita-o, por dar-se conta do dano sentimental que ele provocara a essa mãe-empresária, dona da casa de gueixas, na linha da tradição familiar.

»»»»» Este pequeno emaranhado sinóptico, que se refere ao filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954), serve-me para deslindar o patético, que reside na figura e destino do jovem médico. Num filme eminentemente feminista, desde logo pelo friso de gueixas que o povoam, e em que uma delas, num diálogo inicial, diz que só ganham o suficiente para os quimonos e a maquilhagem; e enfim pelo seu epílogo, no qual mãe e filha encontram um terreno de cumplicidade, herdando esta última a empresa familiar materna; num filme assim feminista, sobra, para o protagonista masculino, o papel de rejeitado, duplamente rejeitado, e a sua reacção é quase nula, no seu rosto lê-se inexpressividade, em confronto com a qual o espectador pode especular, imaginando-projectando emoções: ele sentir-se-ia injustiçado e em choque, não entenderia a dupla rejeição, porque nem com uma nem com outra teria agido de modo dúplice: no primeiro caso, não se furtando ao investimento afectivo da Madame, também não se compromete num projecto, encontra-se em estado de “hesitação” (palavra usada mais de uma vez); no segundo caso, quando lhe aparecera a jovem universitária, acreditava-se descomprometido, livre para com ela vir a construir um projecto de vida em Tokyo. Decepcionara-as a ambas: a primeira, embalada na crença de que ele aceitava tacitamente um compromisso de vida, o que se frustrou; a segunda, dando-se conta, entretanto, e acreditando-o de facto envolvido nesse compromisso, voluvelmente o traindo, e assim causando grande dano sentimental à mãe. Como ele não se percepciona enquanto culpado, porque não se sentira vinculado a uma, ficando portanto livre para se comprometer com a outra, reage à dupla rejeição com essa paralisia (de movimentos, propriamente, mas também de emoções); o underacting do actor não me permite avançar a palavra estupor; em todo o caso, encontro nesta paralisia emocional um traço possível do patético em arte. O personagem masculino encontra-se numa situação irresolúvel, num impasse; e não reage com despeito, nem se enfurece, o que decerto o tornaria ridículo; simplesmente não reage e, escorraçado pela jovem e suscitando a piedade da mãe desta, encontra-se circunscrito ao lugar do patético e, sem outro recurso, abandona a cena.

António Sá

[26.04.2017 / 29.04.2017]