Tag Archives: patético

Pluriplicante 9

Pluriplicante 9 (… incapaz de rir-se dos outros)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Incapaz de rir-se dos outros, de gente que não conhece. Pode no entanto acontecer-lhe rir de pessoas amadas, próximas, riso de à-vontade e empatia — tanto rir-se de como rir-se com.

»»»»» Estas são confissões do realizador checo Milos Forman, bombardeado com as perguntas insistentes e ríspidas de Vêra Chytilová, ao longo do flutuante filme-entrevista Chytilová versus Forman — consciouness of continuity (1981), realizado por esta cineasta, Vêra Chytilová (o apresentador eslavo do filme pronuncia Kitilôuâ).

Chytilova 1 001

»»»»» Em relação ao riso para com pessoas próximas não tenho que comentar, é riso saudável enquanto partilhado em conivência e mútua boa-vontade. Relativamente ao “rir-se dos outros”, como diz Forman, estou com ele, sou incapaz disso. Não me explico porquê, sei que me sinto desconfortável com a eventualidade do riso sobre (e contra) outrem: o acaso de tal riso esvai-se em desconforto. Não me explico porquê, mas no entanto explico mesmo assim: o movimento de rir-me de características físicas ou morais do outro, ou até do seu ridículo, gela-se-me logo, sinto estar a cometer, nesse só movimento, um acto de felonia, de traição e de crueldade. De felonia, porque me revelaria cobardemente (e quase decerto ignaramente) juiz-soberano do que o outro seja, sem o entender; de traição para com a nossa espécie, esta espécie de animais-humanos que somos todos, sujeitos todos às mesmas inexoráveis contingências; e de crueldade, por exercer, através do riso, uma punição e uma forma de aniquilamento sobre quem, em rigor, desconheço — desconheço-lhe os antecedentes, as circunstâncias, as derivas e as motivações profundas.

»»»»» Já com os animais-não-humanos, esses nunca suscitam riso, a não ser quando são amestrados nesse sentido, mas os circos onde os exibem estão condenados a desparecer… ou desapareceram já.

»»»»» Posso rir-me (e até muito) de figuras criadas na literatura (Dom Quixote, etc.), ou em filme (Buster Keaton, etc.), mas não de pessoas reais que, no limite do ridículo, me suscitam sobretudo pena e compaixão; ou perplexidade e medo (caso de Donald Trump); ou espanto e revolta (caso do juiz Neto de Moura, que nos seus acórdãos legitima a violência física de homens contra mulheres, a propósito de adultério).

»»»»» No entanto, não ignoro circunstâncias em que rir dos outros é compreensível e desculpável, porque próprio dessas circunstâncias (históricas e educacionais). Estou a pensar, em particular, nos tempos próprios da infância e da adolescência: na infância, dada a reconhecida crueldade infantil, por falta de insight; na adolescência, dada a indefinição de personalidade e, frequentemente, de identidade sexual — e lá vêm risos (nervosos) de insegurança ou de atracção/rejeição sexual projectada nos outros. Tenho assim em conta que crianças e adolescentes são seres em formação, e esse processo é uma via longa (e dolorosa).

»»»»» Fora estes casos, quando se é adulto mentalmente e sexualmente saudável, não acontecem motivos de rir dos outros; rir dos outros enquanto adulto é demonstração de doença (envolvendo falta de insight) e, por acréscimo, de manifesta estultícia.

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1, Milos Forman não se ri dos outros, mas cria personagens patéticos, e a categoria artística do patético pende ora para o sublime, ora para o risível (de um riso compassivo), veja-se o seu filme checo O baile dos bombeiros [Horí, má panenko] (1967), que é várias vezes referido na entrevista conduzida por Vêra Chytilová citada no início, e que deu o mote a este Pluriplicante.

»»»»» 2. O filme-entrevista de Chytilová é uma produção belga de 1981, e o seu título original é apenas Chytilová versus Forman.

 

 

António Sá

25.10.2017/28.10.2017

 

Advertisements

A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético

A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético

 

 

»»»»» Fala-se dessa mulher numa breve “comédia” de teatro Nô, ridicularizando-a por estar apaixonada por um jovem, estando ela já numa idade avançada. Essa mulher assiste à representação, e abandona a sala por se sentir visada. Um outro espectador, seu velho pretendente, sai também da sala e conforta-a, considerando “cruel” a sátira ali representada. De facto esta mulher, qualificada de “velha” no diálogo teatral, era a Madame de uma casa de gueixas, em Kyoto, e apaixonara-se pelo jovem médico que dava assistência àquelas profissionais do sexo. Este jovem aceita passivamente o envolvimento de que é alvo, encara com aparente agrado o projecto, a que ela o encoraja, de abrir uma clínica privada, num desafogado casarão, sob financiamento dela.

»»»»» Mas entretanto a filha desta empresária chega de Tokyo, terminado o curso universitário: é uma jovem problemática, recém-suicida, vindo a revelar-se que a fonte dos seus problemas provinha de escrúpulos morais por ser a beneficiária dos lucros do negócio de prostituição, que lhe custeara os estudos; a que acrescia o facto de que, devido à percepção socialmente negativa da profissão materna, a rapariga fora rejeitada pelo noivo, quando este e respectiva família tiveram conhecimento de tal profissão.

»»»»» A pedido da mãe, o jovem médico, com bastante tacto, ocupa-se da saúde mental da jovem universitária em depressão. Assim ela se abre, revela-lhe os problemas acima apontados, que a angustiam, e entretanto ele apaixona-se: ela é um ser amável, um carácter compassivo e solidário; amor partilhado, de que resulta um projecto de vida em Tokyo. Mas a Madame, ciumenta e possessiva, reage em grande perturbação. As conversas entre os três decorrem em tensão e conflito, e acabarão as duas mulheres em ruptura definitiva com o médico. A jovem rejeita-o, por dar-se conta do dano sentimental que ele provocara a essa mãe-empresária, dona da casa de gueixas, na linha da tradição familiar.

»»»»» Este pequeno emaranhado sinóptico, que se refere ao filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954), serve-me para deslindar o patético, que reside na figura e destino do jovem médico. Num filme eminentemente feminista, desde logo pelo friso de gueixas que o povoam, e em que uma delas, num diálogo inicial, diz que só ganham o suficiente para os quimonos e a maquilhagem; e enfim pelo seu epílogo, no qual mãe e filha encontram um terreno de cumplicidade, herdando esta última a empresa familiar materna; num filme assim feminista, sobra, para o protagonista masculino, o papel de rejeitado, duplamente rejeitado, e a sua reacção é quase nula, no seu rosto lê-se inexpressividade, em confronto com a qual o espectador pode especular, imaginando-projectando emoções: ele sentir-se-ia injustiçado e em choque, não entenderia a dupla rejeição, porque nem com uma nem com outra teria agido de modo dúplice: no primeiro caso, não se furtando ao investimento afectivo da Madame, também não se compromete num projecto, encontra-se em estado de “hesitação” (palavra usada mais de uma vez); no segundo caso, quando lhe aparecera a jovem universitária, acreditava-se descomprometido, livre para com ela vir a construir um projecto de vida em Tokyo. Decepcionara-as a ambas: a primeira, embalada na crença de que ele aceitava tacitamente um compromisso de vida, o que se frustrou; a segunda, dando-se conta, entretanto, e acreditando-o de facto envolvido nesse compromisso, voluvelmente o traindo, e assim causando grande dano sentimental à mãe. Como ele não se percepciona enquanto culpado, porque não se sentira vinculado a uma, ficando portanto livre para se comprometer com a outra, reage à dupla rejeição com essa paralisia (de movimentos, propriamente, mas também de emoções); o underacting do actor não me permite avançar a palavra estupor; em todo o caso, encontro nesta paralisia emocional um traço possível do patético em arte. O personagem masculino encontra-se numa situação irresolúvel, num impasse; e não reage com despeito, nem se enfurece, o que decerto o tornaria ridículo; simplesmente não reage e, escorraçado pela jovem e suscitando a piedade da mãe desta, encontra-se circunscrito ao lugar do patético e, sem outro recurso, abandona a cena.

António Sá

[26.04.2017 / 29.04.2017]