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Duas breves notas a propósito de sofrimento e de escândalo

Duas breves notas a propósito de sofrimento e de escândalo

 

»»»»» Breves notas estas, que servem para estabelecer-esclarecer dois aspectos não referidos em dois textos anteriores insertos neste sítio. Textos esses que foram A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético, seguido de A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice, focando um e outro diferentes aspectos do filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954). E são duas estas breves notas:

»»»»» 1ª) No final, quando as duas protagonistas, mãe e filha, se reconciliam e conversam sobre as desilusões amorosas, tendo vivido ambas uma desilusão com o mesmo homem (o jovem médico do sindicato das gueixas), a mãe, Madame da casa de gueixas, considera, em modo de balanço final, que o sofrimento é comum aos humanos no curso da vida. E decerto Schopenhauer assinaria por baixo este postulado: o sofrimento enquanto uma constante da vida humana.

»»»»» 2ª) Em conversa com o seu pretendente-de-longa-data, que persiste em propor-lhe casamento, a Madame, empresária da casa de gueixas, e em comentário lateral à “comédia” Nô que satirizava uma “velha” apaixonada por um jovem, confessa, com algo de surpresa no rosto, que nunca se considerara uma mulher “escandalosa” (termo usado na “comédia”) pelo facto de estar apaixonada, e perspectivar casar-se com o jovem médico do sindicato das gueixas. O escândalo afigura-se aqui um modo-de-ver alheio, exterior, decorrente de um duplo preconceito: sexista e etário.

 

 

 

António Sá

[07.05.2017/08.05.2017]

 

notas & noções 1 (2ª série)

notas & noções 1 (2ªsérie)

 

sobre o “sentido” da vida

»»»»» As nossas vidas individuais são partículas ínfimas de matéria soltas no cosmos: expansão e deriva cósmicas.

»»»»» Schopenhauer considera a nossa vida enquanto “um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada”. Mas este modo de considerar afigura-se-me dramaticamente antropocentrado: para a “beatitude” do universo, o “episódio” da emergência humana é uma lava espúria no devir da voragem sideral, e não “perturba”, de nenhum modo, esse devir de que é parte.

»»»»» Sendo que não vem junto, com tal expansão e deriva cósmicas, qualquer “sentido” para as vidas humanas, na sua emergência, ou para a vida em geral, tudo inutilmente emergente. O ser humano, único “animal doente”, na pertinente expressão de Freud, fantasia inúmeros “sentidos” para a vida, e historicamente vai deixando testemunho desses “sentidos”, úteis para suportar o fardo da doença-da-vida, mas todos eles fantasias, até muito bem imaginadas, que se vão sucedendo e substituindo ao longo dos milénios.

»»»»» Sendo todos os “sentidos” fantasias inconsistentes e assorties, oferecias aos gostos de cada-uns, ainda que úteis para a comum psicologia dos humanos, resta a evidência da reprodutibilidade, que não pode constituir um “sentido”, porque vem com o pacote da deriva cósmica em expansão infinita, tal como Stephen Hawking a probabilizou. E tal como o universo se encontra em expansão ad infinitum, assim no planeta latinamente baptizado terra toda a vida existente se reproduz, sem “sentido” cognoscível, infinitamente ou, pelo menos, até que a terra arrefeça e se extinga.

»»»»» Mas nos diferentes magmas de cultura, conforme as latitudes, em que os seres humanos nascem e se desenvolvem, há “sentidos” larvarmente assinalados para cada-uns, mormente os fantasiosos “sentidos” místico-religiosos: assinalados, mais que escolhidos. Os “sentidos” para a vida são como fontes de água fresca, ou rios, ou torneiras, onde desde criança cada-uns se desalteram — e têm o mesmo valor que essas mesmas águas correntes.

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Este texto foi escrito em convalescença no Hospital Curry Cabral, entre 10.12.2016 e 17.12.2016, excepto o segundo parágrafo, redigido já a 03.01.2017.

»»»»» 2) Traduzi, a partir da versão francesa, a frase de Schopenhauer, que ocorre na página 31 da recolha Douleurs du monde, pensées et fragments, Édition Rivages, 1990.

»»»»» 3) A expressão de Freud é citada por John Gray, no ensaio The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 4) A probabilidade expansiva ocorre em Stephen Hawking: O universo numa casca de noz, Gradiva, 2ª ed. 2002 (1ª ed. ingl., 2001).

 

 

António Sá

[10.12.2016/03.01.2017]