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Duas breves notas a propósito de sofrimento e de escândalo

Duas breves notas a propósito de sofrimento e de escândalo

 

»»»»» Breves notas estas, que servem para estabelecer-esclarecer dois aspectos não referidos em dois textos anteriores insertos neste sítio. Textos esses que foram A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético, seguido de A vida enquanto orvalho e a escandalosa velhice, focando um e outro diferentes aspectos do filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954). E são duas estas breves notas:

»»»»» 1ª) No final, quando as duas protagonistas, mãe e filha, se reconciliam e conversam sobre as desilusões amorosas, tendo vivido ambas uma desilusão com o mesmo homem (o jovem médico do sindicato das gueixas), a mãe, Madame da casa de gueixas, considera, em modo de balanço final, que o sofrimento é comum aos humanos no curso da vida. E decerto Schopenhauer assinaria por baixo este postulado: o sofrimento enquanto uma constante da vida humana.

»»»»» 2ª) Em conversa com o seu pretendente-de-longa-data, que persiste em propor-lhe casamento, a Madame, empresária da casa de gueixas, e em comentário lateral à “comédia” Nô que satirizava uma “velha” apaixonada por um jovem, confessa, com algo de surpresa no rosto, que nunca se considerara uma mulher “escandalosa” (termo usado na “comédia”) pelo facto de estar apaixonada, e perspectivar casar-se com o jovem médico do sindicato das gueixas. O escândalo afigura-se aqui um modo-de-ver alheio, exterior, decorrente de um duplo preconceito: sexista e etário.

 

 

 

António Sá

[07.05.2017/08.05.2017]

 

Perspectiva sobre São Martinho

Perspectiva sobre São Martinho

 

 

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»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» Quem agora tivesse desse sofrimento

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» a parte que tens que mais te atormenta!

 

 

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o Pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três Pajens sobre o que eles disponham que sirva de esmola. Diz um verso para o Pobre e o seguinte para os Pajens, versos em castelhano, no original:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

(“Irmão, agora não trago dinheiro:

vós outros trazeis que demos por Deus?”)

»»»»» Os Pajens respondem No ciertamente. Estariam todos no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? (“Entre ambos dois / não trazeis que demos a este romeiro?”). E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

[12.11.2014]

 

 

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Depois de informar o Pobre pedinte que não traz dinheiro, e perguntar aos dois Pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, No ciertamente, passos estes anotados antes, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus três Pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo Pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: No hay dolor que en mí no lo sienta (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste muito breve Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo decide, defectivo qualquer outro recurso, cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

[09.11.2015]

 

 

A compaixão retórica e a compaixão reenviada

»»»»» São Martinho manifesta a compaixão num conceito divisivo do sofrimento em partes mais fortes e mais fracas, conceito assim traduzido do castelhano: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”. Ou seja, ser-lhe-ia mais leve o sofrimento, ao Pobre, se alguém suportasse, em substituição, a parte em que tal sofrer mais pesado lhe fosse.

»»»»» Conceito que, piedosamente, em compaixão reenviada, e com recurso à divindade, o Pobre rejeita: Guárdeos Dios de tan grande afrenta (“Guarde-os Deus de tão grande afronta”), ou seja, que Deus resguarde todos os humanos de se defrontarem com a parte de sofrimento que mais o atormenta.

[14.11.2016]

 

 

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1. A imagem que acompanha este texto corresponde a um pormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

»»»»» 2. Em projecto, a redacção de um texto subsequente, sob o título Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho, incidindo sobre o delírio conceptual do Pobre, no discurso inicial da peça vicentina; este texto subsequente será o segundo painel, cujo primeiro é o já redigido e aqui editado, Perspectiva sobre São Martinho. Título geral para este painel: Perspectivas sobre São Martinho e seu pedinte.

 

 

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[12.11.2014/16.11.2016]

notas & noções.10

notas & noções.10                                                                                    

»»»»» A estrutura social actualmente vigente, segundo os padrões “ocidentais” cristalizados nos séculos XIX e XX, enquanto produtora de sofrimento individual [14.03.2013]. De igual modo prolífica produtora de inevitáveis sofrimentos colectivos [28.07.2015]. A “civilização ocidental” foi, historicamente, a que muito sofrimento levou aos continentes asiático, africano e ameríndio; e muito, muito mais que sofrimento [08.08.2015].

António Sá